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Artigos
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A Trajetória Latino-Americana para a Modernidade por Jorge Larraín |
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Elementos
específicos da modernidade tardia na
América Latina
Seria muito difícil fazer uma análise completa e exaustiva
das características específicas da modernidade latino-americana
atual. Porém, tal como adiantamos na introdução,
não basta afirmar que a América Latina tem um modo específico
de estar na modernidade. É preciso mostrar em que consiste essa
especificidade. Em parte já o fizemos de uma perspectiva histórica
na seção anterior, em que estabelecemos as características
especial,; da trajetória latino-americana para a modernidade e
a comparamos em algumas diferenças e semelhanças com outras
trajetórias, particularmente a européia e a asiática.
A fim de complementar essa visão, vou utilizar agora um corte transversal
para analisar alguns traços importantes e peculiares de nossa modernidade
atual que se derivam de nossa análise anterior. A ênfase
estará posta em alguns traços que marcam diferenças
com a modernidade européia atual e que podem entender-se também
como traços não plenamente modernos dentro de nossa modernidade(10)
.
O primeiro traço ao qual quero me referir é o clientelismo
ou personalismo político e cultural. Como vimos na seção
anterior, este traço vem de circunstâncias históricas
precisas, mas se tem mantido até hoje(11).
A incorporação e recrutamento de novos membros do Estado,
das universidades e dos meios de comunicação continuam se
fazendo por meio de redes clientelísticas ou personalistas de amigos
ou partidários. Não existem ou estão muito pouco
desenvolvidos os processos de concursos públicos ou, quando introduzidos,
habitualmente funcionam de maneira nominal, e os procedimentos se "arranjam"
para favorecer a pessoa pré-indicada. Estes procedimentos clientelísticos
ou personalistas de recrutamento florescem na América Latina e
mostram tanto a ausência de canais normais de mobilidade social
como o estreitamente e alta competitividade dos meios culturais e políticos. A
educação, as habilidades adquiridas e as conquistas individuais
não são suficientes para garantir o acesso das pessoas a
certos trabalhos políticos e culturais. Requer-se fundamentalmente
ter "contatos", "padrinhos" ou "amigos" bem colocados que facilitem a
entrada. Dado que este sistema depende do poder de apadrinhamento de certas
pessoas que exercem poder institucional, ele garante a lealdade pessoal
dos assim recrutados e favorece a imobilidade institucional. Criam-se
dessa forma verdadeiros feudos institucionais que, por seu caráter
discriminatório, são quase impenetráveis para aqueles
que não pertencem ao grupo dos que os controlam. Parafraseando
Habermas, mas com uma conotação diferente, se poderia falar
assim de uma verdadeira refeudalização das instituições
culturais e estatais(12). Um
segundo traço poderia ser denominado tradicionalismo ideológico.
Ao expor sua teoria da transição para a modernidade, Gino
Germani falava nos anos 60 do "efeito fusão", por meio do qual
valores modernos podiam ser reinterpretados em contextos diferentes nos
países atrasados para finalmente reforçar estruturas tradicionais
(Germani, 1965: 104). Uma forma particular deste processo era o "tradicionalismo
ideológico", que consistia em os grupos dirigentes aceitarem e
promoverem as mudanças necessárias para o desenvolvimento
na esfera econômica, mas recusarem as mudanças implicadas
ou requeridas pela transformação em outras esferas (id.,
ibid.: 112). Na
modernidade tardia produz-se um fenômeno similar no qual certos
grupos dirigentes advogam a total liberdade na esfera econômica,
mas apelam a valores morais tradicionais de respeito à autoridade
e à ordem, de defesa da família e da tradição,
alimentando dúvidas sobre a democracia e opondo-se, por exemplo,
a leis do divórcio ou à despenalização do
adultério para a mulher(13).
Estas fusões não são exclusivas de países
do Terceiro Mundo. A emergência da "Nova Direita" nos Estados Unidos
e na Grã-Bretanha tem se caracterizado também pela maneira
como se combinaram atitudes conservadoras tradicionais sobre a autoridade,
os valores vitorianos, a ordem interna e a segurança externa, com
uma nova ênfase sobre os mercados livres (Levitas, 1986; Hall e
Jacques, 1983). Contudo,
o tradicionalisino na América Latina tem bases institucionais mais
fortes que na Europa ou nos Estados Unidos. Uma delas é o extraordinário
poder e capacidade de influência da Igreja Católica mais
tradicional em matérias políticas e legislativas. Isso se
explica pelo papel privilegiado que a Igreja Católica desempenhou
desde a colônia na manutenção da ordem político-social.
Como veremos no seguinte tópico, a Igreja e os mecanismos religiosos
desempenharam um papel central no exercício da autoridade e controle
político sobre as pessoas. Um
aspecto cultural importante que tem subsistido desde a colônia,
às vezes de forma mais ou menos atenuada, às vezes de forma
mais ou menos exacerbada, é o autoritarismo. Esta é uma
tendência ou modo de atuar que persiste na ação política,
na administração das organizações públicas
e privadas, na vida familiar e, em geral, na nossa cultura, que concede
uma extraordinária importância ao papel da autoridade a ao
respeito pela autoridade. Sua origem está claramente relacionada
com os três séculos de vida colonial, em que se constitui
um forte pólo cultural indo-ibérico acentuador do monopólio
religioso e do autoritarismo político. Como sustentou De Imaz,
"por três séculos existiu uma relação muito
clara entre o autoritarismo político e o papel legitimador da Inquisição"
(Imaz, 1984: 121). Flores
Galino documentou bem como as persistentes lutas das congregações
religiosas contra a idolatria na serra central do Peru no século
XVII têm uma conotação de controle político:
"A relativa precariedade do sistema militar obrigou a uma aparente hipertrofia
dos mecanismos religiosos para, dessa maneira, mediante o fervor ou, com
mais freqüência, o medo, garantir o controle sobre os homens"
(Galino, 1994: 66). Apesar das influências democratizantes do pensamento
da Ilustração que certamente conseguiram moderar em parte
o autoritarismo do pólo cultural indo-Ibérico a partir da
independência, sua força cultural não se extingue
facilmente na vida sociopolítica latino-americana. No
caso particular do Chile, vários autores têm enfatizado o
papel histórico crucial do governo portaliano, forte e autoritário,
na formação do Estado chileno (por exemplo, Edwards, 1987;
Góngora, 1981). A concepção de Portales consistia
em que, devido à falta de virtudes republicanas, a democracia devia
ser postergada estabelecendo-se a obediência incondicional a uma
autoridade forte, cuja ação pelo bem público não
poderia ser entravada pelas lei e constituições. Dividia
o país entre "bons" (homens da ordem) e "maus" (conspiradores aos
quais deve-se aplicar o rigor da lei) (id., ibid.: 12-6). Não
é surpreendente que o regime do general Pinochet invocasse esta
concepção com freqüência.
Outro traço importante é o racismo encoberto. A existência
do racismo na América Latina está bem documentada, embora
seja esta uma área descuidada das ciências sociais e geralmente
não percebida como um problema social importante(14).
Está claro, contudo, que desde muito cedo houve na América
Latina uma valorização exagerada da "brancura" e uma visão
negativa dos índios e negros. É sabido que vários
governos intentaram "melhorar a raça" mediante políticas
de "branqueamento" que favoreciam a imigração de europeus.
Existe também uma segregação espacial que faz com
que as regiões indígenas sejam as mais pobres e abandonadas
e os bairros pobres das cidades contenham uma maior proporção
de gente de pele mais escura, sejam índios, mestiços, mulatos
ou negros. Não existe para eles a igualdade de oportunidades. Alguns
grupos indígenas sobreviventes constituem verdadeiras colônias
internas, geograficamente segregados e sujeitos a leis e formas de administração
especiais. Contudo, o próprio fato da mestiçagem e de que
em muitos casos a classe social se superpõe ou coincide com gradações
na cor da pele leva freqüentemente a uma negação do
racismo. Isto
tem até uma base nas ciências sociais, que muitas vezes destacaram
as diferenças entre o tratamento espanhol dos índios e negros
e o tratamento britânico dos mesmos. Gilberto Freyre disse, em seu
livro clássico Casa-Grande e Senzala (Freyre, 1946), que
o tratamento dos escravos no Brasil foi mais suave que na América
do Norte, especialmente devido às relações próximas,
até mesmo sexuais, entre amos e escravos na fazenda. Muitos historiadores
e analistas sociais têm notado subseqüentemente, que enquanto
na América do Norte os grupos brancos impuseram a sua separação
dos índios e negros, na América Latina produz-se um processo
amplo de mestiçagem, emergindo assim um contínuo de gradações
raciais. Daí foi surgindo o mito de que na América Latina
impera uma "democracia racial", e de que o racismo é um problema
de países estrangeiros, mas não nosso. Esta idéia
continua sendo compartilhada hoje em dia e em parte mostra sua vigência
pela ausência significativa de estudos dos problemas raciais latino-americanos
nas especializações em ciências sociais, talvez com
alguma exceção em certas especializações em
antropologia. Um
fenômeno significativo que nos diferencia de outras modernidades
é a falta de autonomia e desenvolvimento da sociedade civil. Na
América Latina a sociedade civil (esfera privada dos indivíduos,
classes e organizações regidas pela lei civil) é
fraca, insuficientemente desenvolvida e muito dependente dos ditames do
Estado e da política. Esta é uma das conseqüências
da inexistência de classes burguesas fortes e autônomas que
tenham desenvolvido a economia e a cultura com independência do
apoio estatal e da política. Num contraste com a modernidade do
centro, Brunner diz acertadamente que na modernidade da América
Latina existiria uma "voracidade da política que devora tudo, por
trás da qual todos buscam proteção ou justificação:
de maneira igual empresários, intelectuais, universidades, sindicatos,
organizações sociais, clérigos e forças armadas"
(Brunner, 1988: 33). É
significativo comprovar, por exemplo, como universidades, institutos e
ainda meios de comunicação podem perder parte importante
(ou os melhores) de seus membros cada vez que há uma mudança
de governo e como se recrutam funcionários públicos que
substituam os que estão saindo. Ao mesmo tempo, não é
raro ver que funcionários de um governo em final de mandato, usando
seu poder, preparam de antemão seus lugares de trabalho em determinadas
idades e institutos, os quais às vezes ficam assim "colonizados"
por determinadas tendências políticas ou grupos de poder
que recrutam apenas os membros simpatizantes do próprio setor.
Tampouco é raro constatar que um grande número de instituições
de investigações e consultaria dependam quase exclusivamente
dos serviços que prestam sob contrato a diversos organismos do
Estado. Muitos centros culturais são diretamente criados por governos
locais e dirigidos pelas maiorias políticas que os controlam. Deste
modo, a política exerce uma influência desmedida sobre a
sociedade civil e as instituições culturais. A
marginalidade e a economia informal constituem outro traço típico
de nossa modernidade. Apesar dos processos de crescimento econômico
bastante dinâmico nos anos 90, subsiste uma marginalidade econômica
e social em grandes setores da população latino-americana.
Isto se relaciona com a importância dos assim chamados setores informais,
que para subsistir devem recorrer a uma série de atividades altamente
instáveis de comércio de rua ou serviços que se situam
à margem da legalidade vigente. Em certos países,
como o Peru, estima-se que mais de 50% da população economicamente
ativa trabalham no setor informal. As economias latino-americanas continuam
sendo incapazes de absorver o aumento da população economicamente
ativa, e, portanto, a pobreza segue sendo um problema muito sério.
Estimativas do PNUD para o final da década de 80 se referem a 270
milhões de pobres na América Latina, mais do 60% da população
(Parker, 1993: 95). As cifras da pobreza podem ter melhorado em alguns
países na década de 90, mas o problema básico geral
subsiste. Tem-se
discutido muito sobre se a contribuição do setor informal
à economia moderna é realmente marginal, e neste sentido
vários autores pensam que marginalidade e informalidade não
são a mesma coisa e que o setor informal joga um papel importante
na economia formal e se relaciona estreitamente com ela. Contudo, isto
não significa que o setor informal seja um motor potencial do desenvolvimento
latino-americano (Portes e Walton, 1981: 98; Castiglia, Martínez
e Mezzera, 1995: 9-10). Marginalidade e informalidade são fenômenos
que aludem a uma situação de pobreza disseminada que dificilmente
se pode eludir. É característico da modernidade latino-americana
que, mesmo nos casos de crescimento econômico mais dinâmico,
subsiste um setor importante da população que vive na pobreza,
e muitas vezes numa pobreza extrema. Um
traço atual da modernidade latino-americana de multa importância
é a volta a uma estratégia de desenvolvimento extrovertido,
ou baseado nas exportações (export-led), depois de
seguir, durante anos, uma estratégia protecionista para conseguir
um desenvolvimento industrial. Mas esta estratégia não tem
os mesmos resultados em toda a América Latina. Fora Brasil e México,
que conseguem taxas significativas de exportações industriais,
o resto da América Latina parece seguir um modelo extrovertido
de desenvolvimento que difere das estratégias asiáticas
e européias, por sua especialização nas exportações
de produtos naturais semi-elaborados. Quebra-se assim a equação
tradicional entre industrialização e desenvolvimento pela
qual o CEPAL tinha advogado. Em
termos da teoria de Franz Hinkelammert, tratar-se-ia de uma estratégia
de desenvolvimento periférico equilibrado. A América Latina
estaria aceitando sua condição de periferia dos grandes
países industrializados, mas procurando o status de periferia
equilibrada, que se consegue quando grande parte da população
está bem capacitada para ter trabalho nas atividades de produção
e exportação de produtos naturais e serviços que
são explorados com um alto nível tecnológico, comparável
ao de qualquer país desenvolvido (esta seria a situação
da Austrália e da Nova Zelândia, por exemplo) (Hinkelammert,
1972: 41-3). É
necessário se referir também à fragilidade da institucionalidade
política dos países latino-americanos. Desde sua independência,
a América Latina tem se mostrado aos olhos do mundo como um continente
de revoluções e caudilhos, golpes de Estado e conspirações,
no qual a ordem institucional está permanentemente sob a ameaça
de ser ultrapassada(15).
A onda de ditaduras militares que começa nos anos 60 e cobre os
70 e parte dos 80 não respeitou nem mesmo aqueles países
que, como o Chile, tinham fama de estabilidade institucional. É
verdade que hoje se vive um período de volta à democracia,
mas os sintomas da fraqueza institucional permanecem muito evidentes em
toda a América Latina e com especial força na Argentina,
Venezuela, Colômbia, Peru e quase toda a América Central. É
importante mencionar como traço relativamente recente da modernidade,
especialmente a chilena, a despolitização relativa da sociedade.
As ditaduras militares procuraram uma despolitização da
sociedade, eliminando eleições, abolindo partidos políticos
e fechando parlamentos. Sua política de exclusões e violações
dos direitos humanos, entretanto, obteve com o tempo o resultado oposto;
a sociedade se politizou mais intensamente e num sentido contrário
aos governos militares. Isto levou à busca de grandes acordos e
coalizões que permitiram um retorno da democracia. Uma das condições
deste processo de busca de consenso democrático foi autonomizar
a área econômica e tirá-la das oscilações
da discussão política diária. Daí em diante
o sistema econômico se auto-regularia de acordo com as leis do mercado,
e introduziu-se uma política econômica de consenso sobre
a direção das grandes variáveis macroeconômicas. Como
argumentam Cousiño e Valenzuela, "uma vez autonomizado o subsistema
econômico, a política perde a capacidade de observar e intervir
sobre a economia e, por conseguinte, abandona sua pretensão de
se situar no ponto de vista da totalidade" (Cousiño e Valenzuela,
1994: 17). A conseqüência disto é que a própria
política se converte em outro sistema funcional auto-referido que
recusa intervir no curso fundamental da economia. Deste modo, o que tinha
sido uma área imensa de desacordo e disputa política fica
fora da discussão. Daí poder-se-ia concluir que a redemocratização
no Chile, mediatizada pelo processo de autonomização da
economia, resultou numa considerável e significativa despolitização
da sociedade. A ditadura militar no Chile iniciou o processo de sistematização
da área econômica, mas esta só se pode consolidar
com a redemocratização do país no final dos anos
80: o preço da nova estabilidade foi a autonomização
da economia e a perda de controle político sobre ela. Por último, outro traço muito recente é a revalorização da democracia política e dos direitos humanos. Sem prejuízo do que foi dito no ponto anterior sobre a despolitização relativa da sociedade, é óbvio que uma das tendências mais poderosas que têm contribuído para isto é a revalorização da democracia e dos direitos humanos pelos setores intelectuais e pelas maiorias populares da América Latina. É este renovado interesse na democracia política e na proteção dos direitos humanos que produz os grandes acordos entre forças políticas anteriormente antagônicas e que desperta o interesse da maioria dos cientistas sociais. Como argumenta Marín, apesar da fragilidade das instituições democráticas na América Latina, da corrupção, do terrorismo e das violações dos direitos humanos, o sistema democrático emergiu recentemente como o único marco legítimo de ação política (ver Marín, Cap. 3: 41). Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página (10)
É preciso destacar, portanto, que a lista seguinte de traços
específicos não tem de modo algum pretensão de ser
completa. Omitem-se muitos outros traços positivos, para enfatizar
aqueles de caráter não plenamente moderno que subsistem
em contraste com a modernidade européia. |
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