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Conclusão
A
modernidade latino-americana não é nem inexistente, nem
igual à modernidade européia, nem inautêntica. Tem
sua trajetória histórica própria e suas características
específicas, sem prejuízo de partilhar muitos traços
gerais. A trajetória latino-americana para a modernidade é
simultaneamente parte importante do processo de construção
de identidade: não se opõe a uma identidade já feita,
essencial, inamovível e constituída para sempre no passado,
nem implica a aquisição de uma identidade alheia (anglo-saxã,
por exemplo). Tanto a modernidade como a identidade na América
Latina são processos que vão se construindo historicamente
e que não implicam necessariamente uma disjuntiva radical, mesmo
que possam existir tensões entre eles. Os traços de nossa
modernidade que exploramos, tanto os gerais como os específicos,
constituem, para o bem ou para o mal, elementos importantes de nossa identidade
atual. Mas nada impede que sejam ajuizados criticamente para enfrentar
o futuro.
Quero, finalmente, tratar de responder à pergunta sobre por que,
se os processos de modernização caminharam entrelaçados
com os processos de construção de identidade na América
Latina, tem existido entretanto uma tendência tão manifesta
em considerar a modernidade como algo externo e em oposição
à identidade. Esta pergunta é muito difícil de ser
respondida com total segurança e apenas podemos esboçar
algumas hipóteses preliminares. O primeiro fato que pode ter importância
nessa explicação é a postergação por
três séculos do começo da modernidade devido ao bloqueio
colonial espanhol e português, que estabeleceu barreiras culturais
cercando seus domínios. Isto significou que quando os precursores
da independência começaram a se embeber das idéias
modernas pelas viagens e contrabando de livros, a modernidade só
podia apresentar-se como algo externo que outros tinham desenvolvido fora
da América Latina. Isto deixou uma marca impressa em relevo no
imaginário social, que tende a associar modernidade com a Europa
ou os Estados Unidos, e que tem durado por muito tempo.
A
persistência dessa idéia foi reforçada durante todo
o século XIX e até os anos 30 por uma economia extrovertida
e uma orientação cultural que continua olhando para a Europa
como a própria fonte de toda a cultura. Quando começa a
crise do regime oligárquico e surgem pensamentos que questionam
nossa extroversão, a modernidade aparece uma vez mais como
uma imposição externa, desta vez com sentido negativo e
contrária a nossa identidade. As tentativas para encontrar e reafirmar
uma identidade própria em momento de crise levaram a se criticar
o alheio, e precisamente a modernidade até esse momento fora considerada
um fenômeno de caráter estrangeiro. Daí que por ação
e reação até a Segunda Guerra Mundial, de ângulos
opostos, a modernidade foi concebida como algo externo.
Nos
últimos 50 anos a situação tem mudado, mas não
totalmente. Várias teorias antiimperialistas e da dependência
continuaram pondo em dúvida a viabilidade do capitalismo na América
Latina, enquanto o pólo neoliberal tem lutado por uma total e renovada
extroversão que nos últimos tempos tem conseguido se impor.
A polaridade entre modernidade e identidade tem portanto continuado no
imaginário social enquanto na prática nossa identidade e
modernidade continuam se construindo estreitamente ligadas.
Abstract:
Modernity in Latin America is quite often presented as an alternative
to our identity or into conflict with, it. Against this notion, this essay,
holds that the trajectory of Latin America modernity is
at the same time relevant part of the process of construction of identity.
Key-words:
Latin America - identity - representation - culture
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