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Artigos
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Huxley Sobe o Morro e Desce ao Inferno A Umbanda no Discurso Católico dos Anos 50 por Artur Cesar Isaia |
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Por
meio da cruz e do sacrifício eucarístico, os bispos marcavam
um princípio de uti possidetis sobre a realidade nacional,
demarcando claramente as fronteiras do "ser brasileiro". Projetava-se
instituir uma identidade, na noção revelada por Bourdieu,
isto é, nomeando-se a realidade, conferindo-lhe uma essência
social, capaz de impor um "direito de ser que é também um
dever de ser" (Bourdieu, 1996: 100). Logicamente que todas as representações
da realidade capazes de ameaçar a imagem de um Brasil definido
pelo ser católico passavam a ser execradas como perigosas
subversões, como flagrantes aberrações. Reforçava-se,
nessas representações, a obviedade de um Brasil católico,
civilizado pela cruz. É esse Brasil, representado como formado
historicamente pelo esforço evangelizador da Igreja, que deveria
ser preservado ante a proliferação da umbanda e dos demais
"cultos mediúnicos". Na
década de 50, o "perigo" do avanço do espiritismo, umbanda
e religiões africanas, instrumentalizou a Igreja Católica
para o combate. É nessa época que a recém-criada
CNBB instituiu um Secretariado Nacional da Defesa da Fé, com o
objetivo de coordenar a preservação da ortodoxia católica.
Esse Secretariado credenciou o então frei Boaventura Kloppenburg
para chefiar a ofensiva contra os "cultos mediúnicos". Nos escritos
dessa época, Kloppenburg acentuava a necessidade de "elevar-se",
pelo trabalho educativo e missionário da Igreja, as populações
submersas na incultura, na superstição, no atraso.
Boaventura Kloppenburg, durante os anos 1950, foi o principal intelectual
católico a produzir uma obra direcionada contra a proliferação
dos chamados "cultos mediúnicos". Em 1954 publicava uma brochura
intitulada "Posição Católica perante a Umbanda".
Essa obra, com o acréscimo de outros estudos, principalmente com
as impressões registradas após sua visita ao Haiti, onde
o autor tomou conhecimento da ação da Igreja local contra
a proliferação das práticas do vodu, resultou em
um livro chamado A Umbanda no Brasil (Kloppenbur, 1961).
Nessa obra reafirma-se o empreendimento missionário português,
capaz de criar as bases de uma civilização cristã,
arrancando índios e negros da incultura e do paganismo. O empreendimento
católico é visto, a um só tempo, como capaz de legar
verdades soteriológicas e impulsionar rumo à civilização
e ao progresso. Chegava, até mesmo, a citar trechos de "As Constituições
Primeiras do Arcebispado da Bahia", datado do início do século
XVIII. Nesse documento projeta-se uma imagem épica do português,
apto a exercitar sua caridade cristã junto à estupidez de
negros e nativos. Em relação à catequese dos negros,
o documento citado por Kloppenburg diz existirem "muitos deles tão
boçais e rudes, que, pondo seus senhores à diligência
possível em os ensinar, cada vez parece que sabem menos" (id.,
ibid.: 128-9). A citação do documento por Kloppenburg
parece acenar claramente para a reafirmação do ideal de
cristandade, posto à prova na Europa com o fim do Medievo e reinterpretado
pelo Concílio tridentino. No século XX evidenciava-se ainda
a necessidade do trabalho missionário da Igreja, quando multidões
ainda estavam presas à barbárie, seduzidas pelo paganismo
e dominadas pela miséria. É dentro desse contexto que Kloppenburg
tentava reafirmar a atualidade do trabalho missionário católico,
apelando ao Estado para que socorresse a Igreja no "combate à superstição"
e na "recuperação do brasileiro de cor" (Kloppenburg, 1961:
126). O
perigo representado pela proliferação, rios centros urbanos,
dos focos de miséria (ratificava-se sempre o binômio catolicismo-claridade-progresso-civilização
x umbanda-sombra-estagnação-barbárie) aparecia,
no discurso católico de meados do nosso século, como conteúdo
residual de um Brasil ainda não cristão. O século
XX ainda revelava focos de negação ao trabalho missionário
católico, ainda apresentava populações inseridas
em um modo de vida marcado pela sobrevivência de valores ancestrais.
O cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos
Mota, revela muito bem essa dualidade, sintetizando-a como a oposição
entre o "salão" e a "senzala". No salão estaria o alvo,
luminoso, progressista, culto e, obviamente, católico. Na senzala
residiria o negro, opaco, atrasado, inculto, representado por todas as
formas de crenças denunciadoras de uma situação de
paganismo: "É
triste averiguar que a marcha do nosso 'progresso' espirutual e cultural
é no sentido da 'senzala' para o 'salão'... A macumba
é um dos maiores atentados contra a fé, contra a moral,
contra nossos foros de educação, contra a higiene e contra
a segurança" (Motta, 1953: 302). Maffesoli,
mostrando como as constelações imaginárias do sagrado
emprestam sua legitimação ao exercício do poder totalitário,
aponta para uma "sideração ambígua", capaz de revelar
"sempre uma fascinação de dupla face", calcada na oposição
Deus bom-Deus mau; criador-destruidor; claridade-sombra; Deus-Satã
(Maffesoli, 1981: 196-7). Nas representações elaboradas
pela hierarquia católica no período em estudo, o que genericamente
se denomina umbanda aparece sempre com um aspecto antitético ao
bem e a verdade, apelando-se às imagens "negras" do inimigo. Este
aparece identificado sempre com o que de pior existe na sociedade (as
camadas pobres, cujo comportamento na esfera pública, em plena
vigência de uma democracia populista, ainda nutre os medos
de uma elite, à disposição da qual continuam a colocar-se
"aspectos moleculares tipicamente fascistas", conforme notou Lenharo referindo-se
a anos bem mais recentes) (Lenharo, 1986: 12). É justamente essa
"lógica da exclusão", capaz de apelar reincidentemente para
expurgos sociais, capazes de depurar o corpo social, que aparece em diferentes
momentos no discurso da hierarquia católica (Isaia, 1996; idem,
26(113): 359-69). Maçons, liberais, anarquistas, comunistas,
entre outros, foram alvos da inconformidade do catolicismo pré-conciliar
diante do aprofundamento de uma situação pluralista(5).
Essa inconformidade católica vinha da constatação
de que perdera uma situação de comodidade como produtora
de bens simbólicos. Uma situação pluralista define-se
pela lógica de mercado, isto é, os bens simbólicos
que em uma situação de monopólio podiam ser impostos
às populações passam a ter que ser "vendidos" a uma
clientela que não está mais obrigada a "comprá-los".
Os ex-monopólios religiosos, portanto, não podem mais contar
com a submissão das populações, imposta pela autoridade.
Segundo Berger, em uma situação pluralista, "a submissão
é voluntária e, assim, por definição, não
é segura" (Berger, 1985: 149). No afã de recobrar uma posição
de comodidade no mercado religioso, o discurso católico dos anos
1950 voltava-se contra a umbanda, religião que se mostrava como
essencialmente subvertora da representação de um Brasil
católico, ao projetar a imagem de uma religião tipicamente
nacional: "...
para o candomblé, a África conota a idéia de uma
terra Mãe, significando o retorno nostálgico a um passado
negro. Sob este ponto de vista, a umbanda difere radicalmente dos cultos
afro-brasileiros, ela tem consciência de sua brasilidade, ela se
quer brasileira. A umbanda aparece desta forma como uma religião
nacional que se opõe às religiões de importação:
protestantismo, catolicismo e Kardecismo" (Ortiz, 1978: 14). A
forma como a umbanda surge no mercado de bens simbólicos traz explicitamente
essa tendência em credenciar-se como religião tipicamente
brasileira, não confundível com o candomblé e demais
expressões mediúnicas preexistentes. A mensagem fundadora
da umbanda deu-se através de uma "entidade", o caboclo das Sete
Encruzilhadas(6), que, ao
manifestar-se a 15 de novembro de 1908, em uma sessão kardecista,
no estado do Rio de Janeiro, explicitou o desejo do "astral" em criar
uma religião tipicamente brasileira. Essa mensagem fundadora, ao
lado de um conteúdo manifestamente nacionalista, acenava para uma
religião capaz de encampar a idéia de democracia racial
e de "disciplinar" práticas mediúnicas há muito assumidas
no cotidiano das populações (Isaia, 27(115): 95-108). Se
o discurso católico insistia em remeter a umbanda para a vala comum
das superstições próprias do modo de vida de populações
à margem da civilização e do progresso, havia todo
um esforço dos intelectuais de umbanda em acenar para o caráter
distintivo da nova religião. A umbanda fazia questão de
aprofundar uma imagem antagônica às práticas mediúnicas
anteriores, salientando sua face letrada (em oposição ao
caráter ágrafo do candomblé) e integrada aos valores,
normas e expectativas sociais (em oposição ao "baixo espiritismo",
macumba carioca e demais práticas mediúnicas, próprias
de populações marginalizadas). Assim, os intelectuais de
umbanda assumiram uma posição nitidamente evolucionista.
A conjuntura que viu nascer a umbanda no Brasil, marcada ainda pelos ecos
da Abolição e pelo surgimento da República, corroborava
sua missão de "elevar", "evoluir" os brasileiros. Diamantino Trindade,
por exemplo, referindo-se ao caboclo Curuguçu, uma entidade que,
no final do século XIX, teria tido a tarefa de preparar a manifestação
do caboclo das Sete Encruzilhadas em 1908, escreve: "O
final do século XIX é marcado no Brasil por um grande balanço
social devido à libertação dos escravos e à
instauração da República (uma forma mais justa de
governo), que iniciava a sua peregrinação no Brasil. A Corrente
Astral da Umbanda aproveita esta reviravolta social e, por volta de 1889,
lança o vocábulo umbanda em vários pontos do país.
A essa altura o mediunismo já invadira os cultos deturpados e miscigenados
entre indígenas e os escravos africanos" (Trindade, 1991: 53,4;
o grifo é nosso). O
esforço da nascente umbanda em projetar uma imagem distante da
marginalidade, da incultura e da licenciosidade, caracteriza uma explícita
tentativa de legitimação (Ortiz, 1978; Brown, 1985; Concone,
6(7): 35-57) diante de saberes que com ela se confrontavam (do Estado,
da medicina oficial, do catolicismo, do kardecismo, ete.). Por outro lado,
entre a umbanda e esses saberes, estabeleciam-se jogos capazes de redefinir
constantemente sua identidade, através da criação,
exclusão e partilha de significados socialmente aceitos(7).
Assim, conforme referimo-nos em outro trabalho: "afirmação
da umbanda como um valor novo na sociedade brasileira da primeira metade
do nosso século, e sua luta por identificar-se como religião
e como nacional, integra-a ao quadro maior da circulação
dos significados sociais. Assim, se por um lado apresenta-se guardando
uma relação de oposição a algumas matrizes
discursivas, será com elas que a umbanda estabelecerá nexos
de inteligibilidade e partilha de significados"(Isaia, 27(115): 102). Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página (5)
Girardet estuda a riqueza mítica da idéia do complô,
recorrendo à noção soreliana de mito mobilizador,
capaz de emprestar ao poder a força necessária para legitimar
as exclusões, os expurgos sociais (Girardet, 1987- 145). |
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