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Artigos
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Huxley Sobe o Morro e Desce ao Inferno A Umbanda no Discurso Católico dos Anos 50 por Artur Cesar Isaia |
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O
esforço católico em aproximar a umbanda do atraso e da marginalidade
é evidente nas palavras do arcebispo de Porto Alegre, Dom
Vicente Scherer, no ano de 1957: "Grande
partede nossa população padece de dois tremendos flagelos,
que são o analfabetismo e a falta de assistência médica.
A umbanda vive e se expande graças a estes males sociais. (...)
Tudo o que promove o atraso e quaisquer males sociais, como a ignorância,
enfermidades e práticas perniciosas do charlatanismo, merece a
decidida reprovação, não só dos católicos,
como de todos os homens ciosos do bom nome de sua terra e preocupados
com o bem-estar coletivo. O católico, por sua vez, trai os imperativos
de sua consciência e de sua fé, favorecendo a difusão
do erro. (...) A umbanda é a revivescência das crendices
absurdas que os infelizes escravos trouxeram das selvas de sua martirizada
pátria africana. Favorecer a umbanda é involuir, é
aumentar a ignorância, provocar e agravar doenças, é
voltar atrás no caminho do progresso e da civilização,
que de modo especial os poderes legislativos e executivo têm a missão
de promover e assegurar" ("Hospital", 46(3): 193; o grifo é
nosso). Já
o cardeal-arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, Dom Augusto da Silva,
falando sobre a equiparação dos candomblés aos demais
cultos, expressava-se: "Veio,
com que tristeza o dizemos, veio a oficialização dos candoblés,
ignominiosamente rotulados de 'culto afro-brasileiro'. Por que não
dizer culto de brasileiros africanizados? Com isso, não é
o africano que se eleva, mas é o brasileiro que se rebaixa!" (id.,
ibid.). Se
a umbanda lutava por uma identidade distinta dos "cultos afro-brasileiros",
insistindo em projetar uma imagem próxima dos padrões tolerados
socialmente, o discurso católico não fazia qualquer diferenciação,
remetendo-a aos subterrâneos sociais. Kloppenburg é muito
enfático quando equipara a um só tempo todos os "babalaôs,
pais-de-santo, cavalos-de-santo, umbandistas, quimbandeiros, bruxos e
feiticeiros do Brasil..." (Kloppenburg, 1961: 143). Pode-se
identificar no discurso católico sobre a umbanda a recorrência
às proposições de diversos saberes, como o médico
e o jurídico. Esses saberes (para Foucault, povoados de fantasmagóricas
"crenças sem memória"(8)
como qualquer outro que se quer objetivo) são invocados pelo discurso
católico dos anos 50 para corroborar de modo científico
a veracidade de suas proposições sobre a umbanda. Assim,
a umbanda, como qualquer outra religião assentada em práticas
mediúnicas, era vista como nociva, prejudicial, desaconselhável,
perigosíssima, etc. A umbanda e o espiritismo são vistos
como explicitamente catalisadores de estados patológicos (id.,
ibid.: 196). O testemunho do dr. Pacheco e Silva, ex-diretor do Juqueri,
de São Paulo, é invocado por Kloppenburg para corroborar
o "perigo público" representado pela prática mediúnica,
que, segundo o psiquiatra, predispõe, em muitos casos, a "surtos
delirantes" (id., ibid.: 197). A
explicação da manifestação mediúnica
como evidência de doença mental não era nova no Brasil.
No final do século XIX, Raimundo Nina Rodrigues endossava a idéia
de que a possessão nos candomblés ligava-se a um "desarranjo
psíquico" a que estava sujeito o negro em desajuste à cultura
ocidental. Este ponto de vista estava acorde com o saber médico
do século XIX, que, segundo Birman, acentuava no plano discursivo
o seu projeto higienizador e civilizador, capaz de legitimar as desigualdades
e impor padrões de sanidade. O saber psiquiátrico, invocado
pela Igreja, defendia a idéia do ego como instância de consciência
do sujeito, capaz de garantir sua sintonia com o mundo externo e consigo
mesmo(9). As incorporações
das entidades da umbanda denunciavam, nessa ótica, a alienação
dos médiuns com a "realidade" social e individual. Nas palavras
de Alves Garcia, transcritas por Kloppenburg, a prática mediúnica
"...exalta qualidades patológicas latentes, sugestiona as pessoas
simples, e em doentes mentais precipita a psicose e dá colorido
especial aos delírios" (Kloppenburg, 1961: 196). Já Leme
Lopes ensinava: "A prática pública de sessões espíritas,
com manifestações ditas mediúnicas, exerce sobre
a maior parte dos assistentes uma intensa tensão emocional e nos
predispostos (psicopatas, neuróticos, fronteiriços, desajustados
da afetividade) é a oportunidade de desencadeamento de reações
que os levam ao pleno terreno patológico" (id., ibid.). Os
testemunhos do saber médico, invocados pelo discurso católico,
estavam impregnados de velados interditos, em que se cruzavam os estigmas
da cor e da condição social. Por outro lado, a influência
de uma matriz teórica iniciada no último quartel do século
XIX, e que teve como expoentes Raimundo Nina Rodrigues, Silvio Romero
e Euclides da Cunha, é evidente em muitos escritos católicos
da década de 1950, acentuando os interditos contra o negro, o índio
e o mestiço (Queiroz, 1988; Isaia, 1996). Quem são esses
homens e mulheres que se agitam, rolam pelo chão, balançam
a cabeça "em todas as direções sobre um pescoço
que parece desarticulado, armando as mais horríveis caretas, desfigurando
o rosto com simiescos trejeitos, a fumar charutos e cachimbos, a comer
os bichos mais nojentos, beber garrafas de cachaça"? (Kloppenburg,
1961: 195). Quem são as pessoas predispostas preferencialmente
a doenças mentais, os portadores de "qualidades patológicas
latentes"? Quem são os "inocentes, incautos, crédulos, que
desses espetáculos podem ser vítimas"? (id., ibid.: 197).
São, justamente, aqueles que estavam a pedir a ação
salvadora e regeneradora do Estado e das elites, capazes de recuperar
o "brasileiro de cor", através da sua educação e
integração na civilização, conforme as palavras
do Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, endossadas
por Kloppenburg na Revista Eclesiástica Brasileira: "É
do brasileiro de cor, a percentagem maior de freqüentadores desses
verdadeiros antros de exploração da miséria, da dor,
da crendice do povo. Faz-se miter, por conseguinte, uma campanha enérgica
contra a macumba e o macumbeiro. Mas não campanha de violência,
campanha de bordoada... mas campanha de educação popular"(apud
Kloppenburg, 13(2): 418; o grifo é nosso). A
questão era detectada como: "...
pura e simplesmente um problema de educação, uma questão
de combate à ignorância, à crendice, à superstição,
ao atavismo. (...) Em vez de se tentar, ridiculamente, criminosamente,
absurdamente, fechar, ao brasileiro de cor, determinadas portas, o que
se deve e se pode fazer é integrar de forma definitiva esse mesmo
brasileiro, pela educação, na muito mais numerosa sociedade
branca, procurando-se destruir o que de africano persiste em sua alma
e sua mentalidade, através do combate à ignorância
e à superstição, esta última principalmente,
que tem constituído, a nosso ver, um dos grandes entraves à
ascensão mental dos nossos irmãos de cor" (apud Kloppenburg,
13(2): 418; o grifo é nosso). Em outras palavras, era preciso reverter a constatação do cardeal Mota, integrando definitivamente a "senzala" ao "salão". Essa massa que gravitava em torno de valores "atávicos" precisava ser "elevada", incorporando-a ao "progresso" propalado pelas elites. Portanto, os brasileiros predispostos aos flagelos do corpo e da mente, eram detectados, pelo discurso católico, como escória, massa. A miséria e a recorrência a valores "atávicos" representavam o caldo de cultura capaz de perpetuar a superstição, a loucura, a marginalidade. Maria Luiza Tucci Carneiro, analisando o "mundo marginal da sociedade escravocrata" do final do século XIX, mostra como havia todo um cruzamento de estigmas, rotulados pelos saberes oficiais e pelo poder dominante, capaz de ver o negro livre como um "desclassificado perigoso", incapaz de integrar-se ao mundo do trabalho e à própria realidade (Carneiro, (18): 146-51). O mendigo, o louco, o negro, a prostituta, o "mandingueiro", entre outros, integrariam essa "categoria periférica e 'despojada de tradição"' (id., ibid.: 146), capaz de afirmar o contrário do modelo imposto pelo grupo dominante. Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página (8)
A expressão usada por Foucault para revelar o inverso do "fazer-se
verdadeiro" resume seu posicionamento: teratologia do saber. Ou seja,
os limites da pretensa objetividade esbarrariam em uma zona marcada pelo
monstruoso, pelo fantástico. O exterior de uma ciência "é
mais ou menos povoado pelo que se crê: certamente há a experiência
imediata, os temas imaginários que carregam e reconduzem sem cessar
crenças sem memória..." (Foucault, 1996: 33). |
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