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Catarina Come-Gente
por Sandra Jatahy Pesavento



Abstract - Bibliografia

Dadas as inegáveis evidências do crime, José e Catarina foram presos e conduzidos para a polícia, o que motivou uma grande concentração popular que exigia o linchamento do casal. O incidente, fartamente comentado nos jornais da época(3), envolveu um enfrentamento entre os populares e a tropa, quando a multidão agrediu a polícia com pedradas e garrafadas, no que esta respondeu com tiros disparados para o ar, com o fim de intimidar os revoltosos. E aqui que a "natureza feminina" de Catarina revela-se pela primeira vez: horrorizada com a reação da multidão, pediu ao chefe de polícia que não deixasse matarem-na, pois o culpado era Ramos (Coruja Filho, 1962: 97). Ou seja, demonstrou medo e fraqueza, comportamentos típicos da personagem feminina, e, após, traiu seu companheiro, denunciando-o.

Inquirida pela polícia, Catarina Palse disse ter 27 anos, ser solteira, filha de Huberto Palse, natural da Hungria, trabalhar como engomadeira e não saber ler nem escrever(4). Tratava-se, pois, de uma mulher jovem, pobre e de ascendência estrangeira. Provavelmente, filha de um imigrante que entrava na província nas levas que eram arroladas como de nacionalidade "alemã" e que abrigavam pessoas de diferentes procedências da Europa Central, indo daqueles vindos do Império Austro-Húngaro aos pertencentes às diferentes partes de uma Alemanha em construção como Estado nacional. Declarando-se solteira, Catarina é referida no processo corno amásia de José Ramos(5). Portanto, não pertencia ao que se convencionava chamar a "ordem formalmente estabelecida". Logo, não apresentava o que se entendia por boa conduta, impressão esta agravada por declarações suas(6), no andar do processo, de que costumava sair à noite de casa, andava toda a noite na rua e que uma das vezes voltara depois da meia-noite. Ora, estamos no ano de 1864, e nenhuma mulher respeitável se atreveria a uma aventura dessas sem correr o risco de ser confundida com uma prostituta.

Consequentemente, Catarina Palse apresentava, com relação à moral instituída na pacata cidade de origem luso-açoriana na qual os imigrantes alemães começavam a se fazer numerosos, o que se poderia designar de "alternativa inquietante". Situação matrimonial irregular e habituada a andar de noite pelas ruas, isso indicava o perfil básico da femme fatale, capaz de virar o mundo pelo avesso. Pois não fora capaz de denunciar o amante, confirmando o crime e o esquartejamento das vítimas? Toda a sua atuação durante o processo, negando a participação nos crimes realizados, esquivando-se do papel de coadjuvante ou testemunha dos assassinatos, mas denunciando que o autor das atrocidades era o amante, todos estes depoimentos contribuíam para reforçar o estereótipo presente no imaginário popular: a da mulher-feiticeira, traidora e pérfida.

Naturalmente, os autos do processo são objetivos, precisos, sem maiores atribuições de juízos de valores, e a atuação de Catarina foi decisiva para a condenação de José Ramos à morte, pena depois comutada para prisão perpétua pelo imperador Dom Pedro II. Quanto a ela, e talvez quem sabe até pela denúncia que fizera, ajudando a esclarecer o criminoso episódio, teve a pena de 20 anos de prisão reduzida para 13 anos. José Ramos veio a falecer na cadeia, em 1893, cego e doente, e, num requinte de influência nitidamente lombrosiana, teve seu crânio conservado pelos médicos para posteriores estudos...

Mas o imaginário popular não perdoou a pérfida Catarina, identificando-a como a peça essencial, pivô dos crimes da Rua do Arvoredo. Ao contrário do processo, cuja objetividade oficial não torna Catarina a ré principal, as crônicas antigas, escritas anos após o ocorrido, são impiedosas nos julgamentos. Assim como o processo não comprova a fabricação de lingüiça de carne humana, que porém foi consagrada pela imaginário social urbano, também a documentação oficial não anatematiza Catarina.

São as crônicas que a condenara, atingindo elas também, na tradução da sensibilidade popular, os seus requintes de crueldade. Nelas, Catarina se enquadra no estereótipo da mulher lasciva e indutora do crime. Verbalizando uma visão consensual sobre a beleza feminina, concedida ora pelas fadas benévolas, ora pelo demônio, Achylles Porto Alegre comentaria em crônica publicada no início da década de 20:

"A beleza da mulher é quase sempre fatal, porque, como os abismos, atrai, fascina os olhos cautos ou incautos que nela pousam. Além disso, a mulher bela esta sempre exposta a uma infinidade de perigos, de atentados, porque há certos homens que perdem a cabeça quando encontram uma beleza. Todavia, o homem é que é sempre a vítima, porque é ele que pratica todas as loucuras para a conquista da mulher que o enfeitiçou" (Porto Alegre, 1923: 142).

Este parece ter sido o caso de Catarina Palse, identificada pelo mesmo Achylles Porto Alegre, cronista da cidade, como a peça-chave para a efetivação dos assassinatos daqueles destinados a virar lingüiça: Catarina, além de jovem e de levar uma vida desregrada, era bonita e sabia usar seus atrativos físicos:

"[...] com requebros, sorrisos provocadores, seduzia e atraía à sua casa os incautos. Prelibando deliciosas horas de amor, a vítima, à hora combinada, corria para a sua aventura. Entrava na casa fatal [...] ao ser conduzida da sala para outro compartimento, o soalho, subitamente, desaparecia sob seus pés: era um alçapão que se abria. O desgraçado tombava no lúgubre porão, onde Ramis [sic], que já o esperava, prostrava-o com um golpe de machadinha na cabeça. Em seguida saqueava a vítima - dinheiro, jóias, roupas, calçado, tudo lhe tirava - e ia mostrar à sua cúmplice, que sorria, vaidosa da sua força de sedução, o produto da féria" (idem, 1940: 183).

Percebe-se a preocupação do cronista em reconstituir uma cena, em que a malícia sedutora se combina aos procedimentos macabros do assassino, sem maior constrangimento. Diga-se de passagem, não nos interessa aqui saber se Catarina era ela também culpada e assassina, ou também culpar ou inocentar o açougueiro. Interessa-nos é a identificação que se faz no imaginário popular, transmitido pela oralidade, mantido pela memória da cidade, da mulher-feiticeira, condenada pela opinião pública. Tal como a pretensa fábrica de lingüiça, feita sobretudo com a carne de tenras criancinhas(7), o horror do crime tinha como fio condutor os artifícios de sedução de Catarina.

Ou seja, se nos preocupamos com o imaginário coletivo sobre o "feminino", não temos em vista apurar a "verdade" dos fatos. Em nível das representações sociais, as idéias e imagens são passíveis de credibilidade, e não cabe avaliá-las segundo a sua veracidade. A representação construída mede a sua força pelo seu grau de aceitação, socialização e capacidade mobilizadora.

Se, a princípio, Catarina atraía viajantes que estavam de passagem pela cidade, depois seus olhos se voltaram para o que o cronista chamou os "Don Juans" da cidade, que, seguras vítimas do "eterno feminino", caíam no fatal destino de virar lingüiça (Porto Alegre, 1940: 101).

Tudo, pois, discriminava Catarina: bela, jovem, amasiada, delatora, capaz de trair e seduzir. Não importa que não tenha recebido a pena máxima. O imaginário popular se incumbiu de dar-lhe uma sinistra alcunha: "Catarina Come-Gente"!

E como as crônicas, em nosso entender, traduzem a sensibilidade de uma época, resgatam a sintonia fina do imaginária social que fica por vezes difícil de encontrar na frieza dos documentos oficiais, voltamos aos depoimentos antigos que se forjaram como o que chamamos de uma "leitura sensível do tempo" (Pesavento, 1994).

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(3) O Diógenes. Porto Alegre, 24/4/1864, p. 112. Apud Os Crimes, 1993. Notícias aparecem também nos jornais O Mercantil e A Estrela do Sul.

(4) "Auto das Perguntas Feitas a Catarina Palse". Apud Os Crimes, 1993: 21.

(5) Relatório do Bacharel João Marcelino de Souza Gonzaga. Relatório do Presidente da Província de 1884". Apud Os Crimes, 1993: 92.

(6) "Auto das Perguntas Feitas a Catarina Palse". Apud Os Crimes, 1993: 2 1.

(7) Almanak Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul para 1897. Apud Os Crimes, 1993: 101.

 
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