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Achylles
Porto Alegre completa o quadro da condenação moral ao referir
que teria encontrado Catarina por volta de 1884, já velha e andrajosa,
a vender, pelas ruas da cidade, chinelas que ela e José Ramos haviam
feito na cadeia. A conclusão da crônica é absolutamente
condenatória:
"Estava
cancerosa e apresentava um aspecto repugnante, ao ponto de eu nunca
poder explicar com que atrativos aquela mulher fàtal, com promessas
de amor, fez tantas vitimas! Que belas páginas não
teria escrito Lombroso sobre estes dois monstros, se houvesse chegado
até ele a notícia deste pavoroso caso de patologia criminal!
" (Porto Alegre, 1940: 185).
Retorna
o tema lombrosiano e paira no ar a intrigante indagação:
pelos padrões da antropologia criminal, seria na bela Catarina
de 27 anos da época do crime ou no farrapo humano que perambulava
pela cidade que se manifestariam as características físicas
indicadores da criminosa nata, da devassa e traiçoeira mulher capaz
de todas as torpezas?
Mas
é, sem dúvida, na descrição de sua morte que
se completa o sistema de idéias e imagens de representação
do ideal feminino da perversidade.
Numa
fria manhã de inverno de 1888, Catarina foi encontrada morta na
esquina da Rua da Praia com a Rua Paissandu, no centro da cidade, despertando
a atenção dos passantes. A descrição do quadro
adquire cores sombrias:
"A
velha andrajosa estava estendida na alçada, tendo parte do busto
esquelético e da cabeça horrenda apoiados na parede do prédio
que, nesta conjuntura, servia-lhe de triste travesseiro. Não podia
ser mais feia! Nos olhos azuis baços e vidrados, distribuíam-se
as carnes murchas e ressequidas duma cara chupada, onde se penduravam
uns cabelos decididamente sem cor e no mais inimaginável desalinho.
Em torno da boca asquerosa e semi-aberta, sangrentas manchas escuras e
putrefadas deixavam aparecer dois ou três dentes cariados e enegrecidos
que bem atestavam os últimos estágios dum estado canceroso
da desgraçada mulher. O corpo era uma repugnante caixa de ossos,
escondida nuns trapos imundos e fedorentos, donde sobressaíam os
braços e as pernas esqueléticas, cobertas de feridas purulentas.
Não tinha mais do que isso como vestimenta, a não ser uns
chinelos de corda puídos, atirados sobre o chão, como atirado
estava o seu grosso e sujíssimo chapéu de palha" (Sanhudo,
1979: 161).
A identidade da patética figura foi revelada à multidão
de curiosos por um homem idoso, que disse ser contemporâneo dos
crimes ocorridos e conhecer desde muitos anos a diabólica Catarina,
a quem comparou a um vampiro. E narrou fatos ao povo boquiaberto, numa
rememoração em que o açougueiro era chamado de Ramis
e se transformara num alemão alto e ruivo, de olhos fundos e cara
indiferente, ao lado da Catarina de louras tranças. A caminho da
prisão, ostentava um modesto traje branco que mais realçava
as suas formas esculturais e tinha na cabeça um manto azul, o que,
por ironia, a deixava tal qual uma santa, numa clara alusão a Nossa
Senhora (id., ibid.: 163).
Como
se vê, no julgamento final, a tradição popular resgata
os dois estereótipos da representação feminina -
a santa e a bruxa -, alertando mais uma vez para o fato de que, sob as
formas de uma, poderia se ocultar a outra.
Este
artigo buscou não a reconstituição de uma história,
de como e em que circunstâncias os crimes teriam ocorrido, mas considerou
o episódio significativo para que possamos recuperar algo das representações
femininas construídas no passado. No nosso entender, o imaginário
popular revela não só uma tradicional estrutura de dominação,
expressa mediante recursos imagéticos e discursivos, mas também
algo mais fundo no processo de construção das identidades
e alteridades. Diante de um universo mental masculino, a mulher representaria
um Outro, a tal "alteridade inquietante", difícil de compreender,
aceitar e mesmo controlar.
Abstract:
The fact here anlysed took place in Porto Alegre, during the year
of 1864. The butcher José Ramos and his wife
Catarina Palse were arrested under the accusation of murder, followed
by the suspicion of making sausages out of their victim's flesh, those
of large acceptance and much appresiated by their costumers.
Key-words:
history - popular culture - social imagery - feminine representation
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