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Artigos
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Um Diálogo com Monteiro Lobato por Margareth Yayo Gimbo Melero e Maria Alice Oliva de Oliveira |
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Para
nós, o espaço - ao guardar suas velhas formas na paisagem
- pode funcionar como suporte material para a conservação
da memória. Segundo Halbwachs, "não há memória
coletiva que não se desenvolva num quadro espacial". Desta forma,
"é somente a imagem do espaço que, em razão de sua
estabilidade, dá-nos a ilusão de não mudar através
do tempo e de encontrar o passado no presente; mas é assim que
podemos definir a memória; e o espaço só é
suficientemente estável para poder durar sem envelhecer, nem perder
nenhuma de suas partes" (Halbwachs, 1990: 160). Assim sendo, está
na durabilidade das formas erigidas no passado a relativa "estabilidade"
do espaço. Daí a "Ilusão de não mudar" - daí
a importância da "conservação" das formas espaciais
funcionando como um suporte da memória coletiva. Monteiro
Lobato, entretanto, busca o progresso; não vê nas velhas
formas nada de positivo, ao contrário, sugere nas próprias
imagens criadas o fim das c idades mortas, como se lê no conto que
dá nome ao livro: "A
quem em nossa terra percorre tais e tais zonas, vivas outrora, hoje mortas,
ou em via disso, tolhidas de insanável caquexia, uma verdade, que
é um desconsolo, ressurge de tantas: nosso progresso nômade
e sujeito a paralisias súbitas. Radica-se mal. Conjugado a um grupo
de fatores sempre os mesmos, reflue com ele duma região para outra.
Não emite peão. Progresso de cigano, vive acampado. Emigra,
deixando atrás de si um rastilho de taperas. A
uberdade nativa do solo é o fator que o condiciona. Mal a uberdade
se esvai, pela reiterada sucção de uma seiva não
recomposta, como no velho mundo, pelo adubo, o desenvolvimento da zona
esmorece, foge dela o capital - e com ele os homens fortes, aptos para
o trabalho. E lentamente cai a tapera nas almas e nas coisas. Em
São Paulo temos perfeito exemplo disso na depressão que
entorpece boa parte do chamado Norte. Ali
tudo, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é
pretérito. (...) Pelas
ruas ermas, onde o transeunte é raro, não matracoleja sequer
uma carroça; (...) erguem-se por ali soberbas apalaçados,
de dois e três andares, sólidos como fortaleza, tudo pedra,
cal e cabiúna; casarões que lembra ossaturas de megatérios
donde as carnes, o sangue, a vida para sempre refugiram. (...) São
os palácios mortos da cidade morta. (...) Isso,
nas cidades. No campo não é menor a desolação.
(...) Por ele passou o Café, como um Átila. Toda a seiva
foi bebida e, sob a forma de grão, ensacada e mandada para fora.
Mas do ouro que veio em troca nem uma onça permaneceu ali, empregada
em restaurar o torrão. Transfigurou-se para o Oeste, na avidez
de novos assaltos à virgindade da terra nova; ou se transfez nos
palacetes em ruínas; ou reentrou na circulação européia
por mão de herdeiros dissipados. À
mãe fecunda que o produziu nada coube; por isso, ressentida, vinga-se
agora, enclausurando-se numa esterilidade feroz. E o deserto lentamente
retoma as posições perdidas" (Lobato, 1977: 3-5). Em
seus textos, carregados de acidez, impiedade e sarcasmo, Monteiro Lobato
age como o próprio Átila. Nem mesmo os habitantes das cidades
foram por ele poupados. As famílias dos fazendeiros monocultores
são "vergônteas mortiças de famílias
fidalgas, de boa prosápia, entroncadas na nobiliarquia lusitana";
os funcionários públicos são "carrapatos do Estado
técnicos da Secretaria da Agricultura passam seus dias a fazer
relatórios minuciosos que vão diretamente para o forno,
a serem incinerados; juizes, coletores e delegados são "rábulas,
sinecuristas (...). O resto é a 'mob': velhos, mestiços
de miserável descendência, ruídos de opilação
e álcool, famílias decaídas; a viverem misteriosamente
umas, outras à custa do pouco auxílio enviado de fora por
um filho mais audacioso que migrou. 'Boa gente', que vive de aparas"
(id., ibid.: 4). Despejando seus adjetivos fortes a todos,
Lobato atira até em si mesmo, uma vez que ele próprio,
bacharel em Direito, é nomeado promotor em Areias e lá
permanece de 1907 a 1911, quando herda a fazendo do avô - o Visconde
de Tremembé - em Taubaté. Cabe
aqui ressaltar um ponto marcante em toda a sua obra - o preconceito em
relação aos negros - que constituem boa parte da população
do Vale (ex-escravocrata), vistos por ele sempre como indivíduos
dotados de pouca inteligência, bêbados e alvos de intensa
ironia. É constante a presença do negro e do mestiço
em seus contos, mas são, em geral, personagens secundárias,
geralmente adjetivadas de forma pejorativa. Entretanto,
em seu conto "Negrinha", de 1920, Lobato muda de tom: nele, o autor retrata
a realidade da violência física e moral perpetrada contra
ex-escravos e filhos de escravos pela elite, mesmo com o fim da escravidão.
A abolição não os protege dessa violência e,
em "Negrinha", Lobato traduz a hipocrisia da posição da
elite daquela época, agora mascarada sob a forma de, caridade e
referendada pela Igreja. Após castigar física e moralmente
a pequena Negrinha, "a virtuosa dama voltou contente da vida para o
trono, a fim de receber o vigário que chegava. ___
Ah, Monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando
aquela pequena órfã, filha da Cesária - mas
que trabalheira me dá! Neste
conto, Negrinha, ao conseguir brincar por alguns momentos com a boneca
das sobrinhas da senhora, brinquedo que antes não conhecia, descobre
que tem alma. Porém não se rebela, e, sem forças,
sua descoberta a mata.
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