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Um Diálogo com Monteiro Lobato
por Margareth Yayo Gimbo Melero
e Maria Alice Oliva de Oliveira



Abstract - Bibliografia

Esse mesmo autor que é mordaz, cuja leitura evoca-nos a sensação de um rolo compressor passando sobre a terra arrasada do Vale é o que narra com delicadeza e certa nostalgia o circo de cavalinhos: "... tanto é certo que a beleza das coisas não reside nelas senão na gente" ("Cavalinhos", escrito em 1900) (idem, 1977: 20). Que narra as festas juninas das "Noites de São João" (também de 1900) e que nos faz rir com Pedro Pichorra - o menino que julga ver no pote de barro, encimado por vagalumes, o próprio saci ("Pedro Pichorra", escrito em 1910). É também o Lobato que narra a inventividade das mães e crianças que, tendo de cumprir a exigência da escola de os alunos irem calçados, mas não podendo comprar sapatos, inventam um mal imaginário em um dos pés (" ___ Que doença de pés é essa? Bicho arruinado? O pequeno baixou a cabeça com acanhamento; depois confessou: - É 'inconomia'"'). Só um pé vai calçado, e assim o sapato dura o dobro ("Pé-no-Chão", escrito em 1908). Não podemos deixar, também, de referir-nos à produção literária destinada às crianças, à qual Monteiro Lobato dedicou-se com pioneirismo no Brasil, e que foi responsável pela criação de tipos que ultrapassaram em muito a época do autor, perpetuados não somente através de seus livros, mas no teatro e na televisão. É, sem dúvida, a parte mais amplamente conhecida de sua obra, nas palavras de Alfredo Bosi, uma "originalíssima fusão de fantasia e pedagogia", que utilizou de aspectos, facetas e personagens da cultura brasileira, especialmente da cultura caipira (Bosi, 1978: 242).

Diálogo com Lobato

Uma maneira de entender as inúmeras contradições que perpassam a produção literária de Monteiro Lobato pode-nos ser propiciada pela consideração de uma estrutura dialógica presente nos seus escritos.

E com quem dialoga Lobato?(1)

Para respondermos a esta pergunta, é preciso saber em que contexto histórico o autor se insere.

Monteiro Lobato (1882-1948) vive num período histórico do país marcado pela transição: a passagem da Monarquia para a República e do trabalho escravo para o trabalho livre; quando as diferenças regionais são aguçadas e dá-se o deslocamento do principal mercado dos produtos brasileiros da Europa para os Estados Unidos. A última década do século XIX e as três primeiras do século XX podem ser consideradas "uma época de redefinição da identidade nacional" (Machado, 1994: 1).

Essa redefinição de identidade foi pautada "pelo pensamento de um grupo ínfimo da população". Uma elite política, econômica e intelectual que buscava disseminar a idéia de progresso, o que implicava a "necessidade de crítica a uma sociedade estruturada em torno de relações sociais escravocratas" (id., ibid.), relações que não cabiam mais num país que se queria "moderno". O passado tinha que ser, por isso, rejeitado e faziam-se necessárias algumas alterações sobre o território e a sociedade, a fim de alcançar tal progresso. Assim são disseminadas as idéias ligadas às necessárias "ações civilizatórias", influenciadas pelas correntes ideológicas que chegavam do exterior, marcadamente o neolamarckismo, o darwinismo social e o positivismo (Machado, 1994: 1).

As alterações sobre a sociedade passavam pela necessidade da constituição de uma nação mais "homogênea", rejeitando o negro enquanto mão-de-obra (uma vez que era considerado tecnicamente atrasado), assim como culturalmente (considerado "Inferior" perante o branco). Assim, buscava-se na tese profundamente racista do "branqueamento" da população a justificativa para incentivar a imigração européia, que era vista como a solução de todos os males, pois o imigrante europeu seria tecnicamente superior. Entretanto, é preciso ressaltar que, por trás dos projetos emancipacionistas e imigrantistas, que se valeram de uma produção científica de cunho racista, estava a realidade "perigosa" de uma maioria de negros diante da numericamente inferior população branca do país, e que foi tão bem analisada por Celia Maria Marinho de Azevedo em Onda Negra, Medo Branco (Azevedo, 1987).

Sobre o território, alguns intelectuais, como André Rebouças, ressaltavam a necessidade de articulação das diversas regiões do país, por meio da construção de estradas de ferro, com o objetivo de integrar o território nacional. Assim como Monteiro Lobato, Euclides da Cunha constatava o contraste cultural e econômico do território brasileiro. Em seu livro Os Sertões (1ª edição: 1902), obra de grande impacto literário no meio intelectual brasileiro da época, Euclides abordava a existência de "dois Brasis": o litoral, modernizado, urbanizado, e o interior, arcaico, estagnado. Esse mesmo autor, utilizando-se de idéias deterministas, procurava justificar o comportamento social a partir do meio físico. Assim, para Euclides, "o sertanejo é um forte" porque teve que travar uma luta permanente com o meio hostil; jáo mestiço do litoral é "neurastênico e raquítico".

Mas o sertanejo (mestiço de branco e índio), tornado forte por Euclides, não tem a mesma força quando o autor fala da Amazônia - lá, a ocupação humana é efêmera, desordenada, uma "terra sem história". Conforme aponta Lia Osório Machado, a natureza na Amazônia de Euclides não era tão violenta quanto os próprios homens responsáveis por transformá-la no "Inferno verde" (Machado, 1994: 24). O índio, que no primeiro momento era importante na relação com o meio, agora perde esse papel. Para Euclides, uma das soluções seria a criação de vias de comunicação e circulação grandiosas, capazes de instaurar o progresso e superar a geografia de um "país de dimensão continental". Na Amazônia, sugere a construção da "linha Transacreana, a exemplo da Union Pacific Railway", não para "satisfazer um tráfego que não existe, senão criar o que deve existir" (Cunha apud Machado, 1,994: 24).

Monteiro Lobato faz parte desse caldo cultural. Em seus textos, estão presentes a influência positivista e a idéia de evolução. Euclides da Cunha era considerado por ele um grande escritor, cujo triunfo "foi meter um pouco de ciência na literatura" (Lobato, 195 1: 280). Assim como Euclides, que distinguia os "dois Brasis", a dicotomia para Lobato apresentava-se entre o Vale do Paraíba, de estrutura arcaica e escravagista, que constituía obstáculo para o progresso, e o Oeste paulista, onde o imigrante europeu tem um papel civilizatório e estaria mais próximo da modernização.

Mas o grande modelo de eficiência para Lobato é, efetivamente, os Estados Unidos, onde reside como adido comercial de 1927 a 1931. Diferentemente da "velha" Europa, em que o "Ontem atravanca a mór parte dos países", é só nos Estados Unidos que o "Amanhã da humanidade já vai adiantado" (idem, 1946a: prefácio, escrito em 1939).

Sua análise sobre os motivos da prosperidade americana partia da pergunta: como que um país com a mesma origem do nosso, povoado pelos mesmos elementos (europeu, negro e índio) e com território equivalente prosperou tanto, ao passo que o Brasil permaneceu atrofiado? E Lobato encontra a resposta: "Somos pobres porque ainda não exploramos os elementos básicos na formação da riqueza de país - ferro e petróleo". Para o autor, "no dia em que o Brasil se convencer de que sua fraqueza decorre da falta de eficiência do homem que o habita, e ponderar que o crescimento dessa eficiência só pode vir com a produção de ferro (matéria prima da máquina) e do petróleo (a fonte de energia que move a máquina), o primeiro passo para a sua definitiva restauração econômica e financeira estará dado" (Monteiro Lobato, citado por Edgard Cavalheiro, apud Nunes, 1986).

Para Lobato, o ferro propícia também o transporte, e este é capaz de suprimir o regionalismo, o risco de esfacelamento de um país com grande território, por seu poder de ligar, homogeneizar, nacionalizar. Em América, num diálogo com um metalurgista norte-americano, este afirma que, pelo contrário, a escassez de transporte "faz com que os grupos de população se diferenciem de mentalidade e acabem antagônicos. Não se visitam, não se conhecem, não se intercambiam, e acabam por se julgarem diferentes e melhores, mais merecedores de coisas do que outros grupos". Na América do Norte o "espírito de bairro" desapareceu, "sobretudo depois da expansão do automóvel". Apesar da extensão territorial, os Estados Unidos são o país "mais homogêneo do mundo": daí sua força (Lobato, 1946a: 277-8).

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(1) Esta pergunta, formulada pela antropóloga Maria de Lourdes Beldi de Alcântara no seminário do NIME, permeou toda nossa (re)leitura do autor.

 
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