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Artigos
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Um Diálogo com Monteiro Lobato(*) por Margareth Yayo Gimbo Melero e Maria Alice Oliva de Oliveira(**) |
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Resumo:
O
presente trabalho busca discutir as idéias contidas no livro Cidades
Mortas, de Monteiro Lobato. Para tal discussão, procuramos
entender, nas entrelinhas de seu texto, as razões que levaram o
autor a retratar uma porção do espaço - o Vale do
Paraíba - como uma área decadente, identificando nela um
passado que constituiria obstáculo para alcançar
o "progresso". Deste livro de Lobato, veio à tona uma imagem que
foi capaz de perpassar a época do autor e mesmo sua própria
produção literária ficcional, que hoje parece estar
relativamente esquecida (ao contrário de sua literatura infantil).
A imagem, no entanto, perdura, e, assim, esta porção do
Vale do Paraíba continua a ser conhecida como as "cidades mortas". Palavras-chave:
memória - história - Monteiro Lobato - literatura Tentaremos
expor aqui algumas das idéias contidas na obra desse intelectual
que viveu no começo do século, no início de uma República
e com todas as representações sociais do progresso, da policultura,
do sonho de o Brasil entrar para o rol dos países desenvolvidos.
Desenvolvimento este associado à modernização trazida
pelo avanço tecnológico, juntamente com uma mudança
de mentalidade da cultura brasileira, mas não toda: o Brasil, fruto
das desigualdades econômicas e sociais, necessitava ter uma política
homogeneizadora, que só poderia ser implantada se houvesse igualmente
um "progresso" das pessoas no que dizia respeito à cultura. Ao
mesmo tempo, fazia-se necessário que se processassem alterações
no próprio território, uma vez que as desigualdades relacionavam-se
também com a falta de articulação do espaço. Dessa
forma, o livro Cidades Mortas é uma pista, no sentido
utilizado por Ginzburg, para podermos identificar uma maneira de pensar,
que, obviamente, não era a única, mas um olhar importante,
porque privilegiado, ou mesmo no sentido - como bem demonstra Bourdieu
- de ser representante de um determinado campo de atuação,
que fazia parte do imaginário republicano, entre vários
outros. Poderíamos,
na seqüência, perguntar qual é a importância desse
olhar? Para nós que trabalhamos com as representações
sociais, todo olhar faz parte de um dos desenhos do caleidoscópio
e, por isso, é constituinte da sociedade. Sendo assim, faz-se necessário
que paremos e tentemos reconstruir esse determinado olhar, para que possamos
abranger o nosso próprio em relação ao momento histórico.
Acreditamos que foi esse o resultado da interdisciplinaridade traçada
entre o conceito de representação, da Antropologia, a leitura
e a importância dos detalhes, aos sinais menos privilegiados que
a História Nova coloca em cena, juntamente com a análise
semântica dos documentos que apareciam de uma forma fragmentada.
Essa nova reconstrução social tenta mostrar, através
dos diferentes desenhos, a complexidade e a dinâmica das épocas
estudadas e, principalmente, da não existência de um único
sujeito ou uma única leitura cultural. Ao contrário, demonstra-nos
a variedade de leituras e a impossibilidade de tentarmos traçar
um único caminho. A
primeira edição de Cidades Mortas, de Monteiro Lobato,
foi publicada em 1919 na Revista do Brasil, de propriedade do autor,
reunindo textos produzidos desde 1900 até o ano da publicação.
Trazia como subtítulo "Contos e Impressões" e a seguinte
nota de abertura: "Entra neste livro um punhado de coisas antigas, impressões
duma mocidade que vegetou no ambiente marasmático das cidades mortas.
Oblivion, Itaoca... Quantas saudades!..." A edição da qual
nos valemos (19ª, São Paulo: Brasiliense, 1977)
reúne textos produzidos até 1924. É
no "ambiente marasmático" das pequenas cidades do Vale do Paraíba,
em sua porção paulista, que o autor vai colher o material
de seus escritos, alguns dos quais não podem ser considerados,
propriamente, como contos. Ficam, nas palavras de Nelson Werneck Sodré,
"numa espécie de limbo" - são "esboços, cenários,
rascunhos de contos" que, em Cidades Mortas, discorrem sobre o
cotidiano daquelas cidades, cuja decadência econômica impunha-se
desde as últimas décadas do século XIX com a derrocada
da produção cafeeira, deslocada para o Oeste paulista (Sodré,
1964: 416). Ainda que alguns textos de Lobato não possam ser considerados
como contos, para nós são sinais, pistas e emblemas que
sobrevivem para nos evocar e reconstruir a memória. O
estilo de Lobato é simples" direto, objetivo, avesso ao rebuscamento
da linguagem. Estilo ou, como ele preferia, seu temperamento, já
que "estilo é a última coisa que nasce num literato
- é o dente do sizo. Quando já está quarentão
e já cristalizou uma filosofia própria, quando possui uma
luneta só dele e para ele fabricada sob medida, quando já
não é suscetível de influenciação
por mais ninguém, quando alcança a perfeita maturidade
da inteligência, então, sim, aparece o estilo" (Lobato,
1951: 101). E estamos nos referindo aqui ao jovem Lobato, que vive
nas pequenas cidades do Vale e trabalha como colaborador nos jornais locais:
o Minarete de Pindamonhangaba, que ajuda a criar e que chega algumas
vezes a compor inteiro, usando vários pseudônimos, O
Povo de Caçapava e outros. No entanto, o Lobato que julga
estar "na propriedade da expressão (... ) a maior beleza;
dizer 'chuva' quando chove, 'sol' quando soleja" (idem, 1951:
46), e que festeja a publicação do Dialeto Caipira, de
Amadeu Amaral - cujos termos utiliza em alguns contos -, não rompe
totalmente com o molde convencional, afastando-se assim do Modernismo
de 22, "ao menos das correntes irracionalistas que lhe permeavam a estética.
Lobato sentiria a vida toda, em nome do bom senso e da razão (como
se fora um velho acadêmico), total repulsa pelos 'ismos' que definiram
as grandes aventuras e as grandes conquistas da arte novecentista: futurismo,
cubismo, expressionismo, surrealismo, abstracionismo..." A "contradição
moderno-antimoderno que dividiu o pensamento e a arte de Lobato" (Bosi,
1978: 242-3) será uma das muitas contradições que
irão permear a obra deste escritor. O
contista, cronista, caricaturista e - muitas vezes - panfletário
Monteiro Lobato parecia dotado de uma habilidade particular para construir
imagens fortes, baseadas, como regra geral, nos aspectos exteriores daquilo
que procurava expressar. Sua prosa fixava-se nos detalhes pitorescos,
grotescos e estranhos do que narrava, tanto dos seus personagens como
dos lugares. Sua postura antiromântica, pragmática, desviava-o
"continuamente da interioridade", fazendo-o "descansar na superfície
dos seres e dos fatos" (id., ibid.: 243). Lobato, ao promover o
"assassínio" das cidades do Vale cristalizou numa idéia
a decadência econômica, o "marasmo" em que ele tanto insistia,
a desolação que sucedeu à breve riqueza experimentada
pela passagem da cultura cafeeira. Mais tarde, o autor fará algo
semelhante com o caipira, cujo tipo de cultura, baseada em formas de equilíbrio
econômico e social específicos, alimentou a criação
de estereótipos ligados ao "atraso" e à rusticidade, e que
foram "fixados sinteticamente de maneira injusta, brilhante e caricatural,
já neste século, no Jeca Tatu de Monteiro Lobato"
(Cândido, 1982: 82; os grifos são nossos). Ao
mesmo tempo injusta e brilhante nos parece que é, também,
a imagem de cidades mortas projetada sobre aquela porção
do espaço, o Vale do Paraíba. O espaço não
é um palco em que os agentes sociais se movimentam, mas é,
ele mesmo, um produto social. Não pode ser pensado separadamente
do tempo. Este espaço produzido, o espaço como uma "instância
da sociedade" (Santos, 1988: 1), não é estático,
mas está em contínua e permanente transformação;
não pode ser, por isso, "morto" - aqui reside a injustiça
da imagem criada por Lobato. O que há de brilhantismo na mesma
situa-se na própria criação do termo: cidades
mortas, ou o Jeca Tatu, caricaturas baseadas nos aspectos exteriores,
mas que, entretanto, não dão conta da essência do
mesmo. Algumas
das velhas formas erigidas durante o período cafeeiro estão
presentes até hoje na paisagem de Areias, Silveiras, São
José do Barreiro, Bananal e de outros pequenos municípios
do Vale. Fazendas rodeadas por sacadas, senzalas nos subterrâneos,
terreiros para a secagem do café, moinhos para a fabricação
de farinha e, nos núcleos urbanos, o comércio que supria
as fazendas daquilo que não podiam fabricar, além das casas
dos cafeicultores, em geral de dois andares e voltadas para a praça,
onde tem lugar de destaque a igreja matriz. Casas que, na maior parte
do ano, permaneciam desabitadas, uma vez que a fazenda era também
a moradia da família do fazendeiro. Eram ocupadas apenas por ocasião
das festas religiosas, mas ostentavam o status do proprietário
(Valverde, 1985: 49-51). A decadência econômica, que produziu
a corrente migratória que vem, desde o início do século,
esvaziando os municípios, ajudou a conservar algumas dessas velhas
formas, hoje preenchidas por novas funções: algumas fazendas
foram transformadas em hotéis, outras encontram-se em ruínas,
retalhadas pela herança, as terras das quais transformadas em pastagens.
Nas cidades, agências bancárias e um outro tipo de comércio
ocupam as antigas moradias. O espaço, sempre regido pelo presente,
abriga nas formas uma porção do passado: na relativa estabilidade
das formas espaciais vemos "cristalizada" a sucessão de tempos;
seu conteúdo, no entanto, é sempre atual (Santos, 1988:
2). Próxima Página • Ultima Página (*)
Este texto é fruto das discussões realizadas nos seminários
promovidos pelo NIME, em especial, a partir das idéias, críticas
e sugestões das pesquisadoras Maria Regina C. T. Sader e Maria
de Lourdes Beldi de Alcântara. |
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