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Artigos
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Brasília, Cidade Arcaica por Luis Alberto Brandão Santos |
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Porosidade
do concreto Se
compreendemos Brasília como uma espécie de absolutização
do gesto modernista - o moderno levado a seu limiar -, encontramos nela
um campo privilegiado para o reconhecimento das contradições
de tal gesto. É na cidade mais tipicamente moderna que as dissonâncias
do moderno expõem-se na sua máxima intensidade. E a obra
de João Cabral alimenta-se dessas dissonâncias para propor
uma reflexão a respeito do modo como se constitui a cultura brasileira.
É possível detectar, acompanhando a perspectiva poética
sugerida por suas imagens de Brasília, a principal linha que compõe
um retrato crítico do Brasil (Melo Neto, 1994: 347): No
cimento duro, de aço e de cimento, Brasília enxertou-se,
e guarda vivo, esse poroso quase carnal da alvenaria da casa de fazenda
do Brasil antigo. O
que se realça é que nas pretensas concretude e coesão
do projeto modernizador está infiltrada a porosidade resistente
da tradição colonial como traço básico da
cultura brasileira. Nos interstícios da sofisticação
industrial urbana, os resíduos irremovíveis do primitivismo
agrário e escravocrata. É verdade que, no Plano Piloto,
o próprio Lúcio Costa já se referira à construção
de Brasília como um "ato desbravador, nos moldes da tradição
colonial" (Costa, 1971: 123). Tal afirmativa deveria, a princípio,
soar estranha ao ímpeto de modernização - que se
sustenta, obviamente, pela negação do passado. No entanto,
ao se associar a ação de colonizar à de desbravar,
cultiva-se uma visão heróica da colonização,
o que corresponde a dizer que a colonização é pensada
da perspectiva do colonizador. O desenho da aeronave - traçado
básico de Brasília - surge como uma reconstituição
moderna da Cruz de Malta içada nas caravelas portuguesas. O
que se encontra na poesia de João Cabral de Melo Neto não
é o apagamento da interface conflituosa colonizador-colonizado,
mas, exatamente, a exploração de tal interface. Através
dessa exploração, é possível fazer vir à
tona o caráter profundamente arcaizante do intuito modernizador.
É possível, assim, enxergar Brasília como uma cidade
arcaica, como a mais arcaica das cidades. Cidade onde os palácios
são "casas-grandes" (Melo Neto, 1994: 348), sintetizando a repetição
das estratégias de dominação do passado colonial. No
poema "À Brasília de Oscar Niemeyer" (Melo Neto, 1994: 399),
o "espraiamento da alma" visado pelo olho modernizador é viabilizado
pela horizontalidade dos espaços. No entanto, se o olho se lança
a partir das novas edificações - que são "horizontais,
escancaradas", mas não deixam de ser "casas-grandes de engenho"
-, as imagens por ele produzidas são marcadas por uma ambigüidade
perversa, seja na indisfarçável retórica de seu tom
nacionalista, seja no caráter impositivo de sua pretensão
pedagógica: Eis
casas-grandes de engenho, horizontais, escancaradas, onde se existe em
extensão e a alma todoaberta se espraia. Não se sabe é se o arquiteto as quis símbolos ou ginástica: símbolos do que chamou Vinícius "imensos limites da prática" ou ginástica, para ensinar quem for viver naquelas salas um deixar-se, um deixar viver de alma arejada, não fanática. |
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