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Islamísmo, Imigrantes e Estado: Religião e Política Cultural na Austrália
por Michael Humphrey



Abstract - Bibliografia

A etnografia dos imigrantes muçulmanos na Austrália revela uma forte preocupação como a moralidade familiar e com a divisão sexual do trabalho, concentradas na regulamentação do comportamento da mulher. A importância das relações entre os sexos na cultura dos imigrantes muçulmanos reflete, de um lado, a centralidade das relações entre os sexos na prática social islâmica tradicional, com seus ideais sobre o vestuário, a segregação e o confinamento doméstico, e, de outro, a importância maior da família na manutenção da continuidade social e cultural na vida do imigrante. Vidas anteriormente entranhadas num ambiente social e cultural muçulmano descobrem, por ocasião da migração, que a principal responsabilidade pela reconstituição e manutenção da cultura muçulmana recai sobre a família, ela própria freqüentemente reduzida aos membros de uma casa.

A importância acentuada da família para a sobrevivência cultural e do grupo torna a regulamentação dessas esferas particularmente delicada. A lei islâmica, a etiqueta social e as práticas reguladas pelo costume são invocadas para regulamentar o casamento, o divórcio, a herança, a segregação da mulher e as regras de recato em áreas como o vestuário. A suscetibilidade dessas questões nas comunidades de imigrantes muçulmanos no Ocidente fica manifesta nas controvérsias relativas ao uso do lenço de cabeça nas escolas públicas francesas e aos testes de virgindade para as noivas muçulmanas e hindus que chegam à Inglaterra, bem como na força persistente da lei islâmica, que impede as mulheres muçulmanas de se casar novamente, mesmo após terem obtido o divórcio civil nos tribunais australianos.

Na migração, a sensibilidade cultural das relações homem-mulher fica particularmente aguda, à medida que os vínculos sociais se estreitam em torno de uma casa que funciona como núcleo. Afastado de um ambiente em que os graus do distanciamento social poderiam ser diferenciados e regulados pelo parentesco, pelo casamento, pela posição familiar e pela participação numa comunidade religiosa, o sexo é remoldado como o confronto entre o interior/exterior, o familiar/estranho e o seguro/perigoso num ambiente social desconhecido. Nesse contexto, uma ideologia do sexo que celebra o recato, o isolamento, a dependência e a obediência busca enclausurar a mulher numa esfera socialmente restrita. Ela se torna o objeto da "proteção masculina" e o veículo através do qual a salvaguarda moral da família é preservada ou perdida. Comentários de mulheres muçulmanas libanesas, de que elas tinham maior liberdade pessoal na escolha do marido no Líbano que na Austrália, são em parte o reflexo de uma maior autoridade masculina entre os imigrantes muçulmanos.

No entanto, a posição social da mulher muçulmana é extremamente ambígua. Ao mesmo tempo em que os homens muçulmanos buscam restringir a independência de suas mulheres, o próprio processo de incorporação e a situação de classe impõem demandas econômicas e sociais que devem ser atendidas. Essa ambigüidade pode ser vista no modo como são desenvolvidas as estratégias para preservar as identidades de sexo quando as mulheres são introduzidas em esferas sociais e culturais mais amplas. Uma delas é o trabalho assalariado. A necessidade de obter renda adicional por meio de trabalho assalariado, especialmente devido ao fato de que os migrantes da classe trabalhadora normalmente chegam como poucos recursos econômicos, impõe a entrada imediata no mercado de trabalho dos membros da família em idade de trabalhar, independentemente do sexo. O dilema passa a ser como maximizar as contribuições em termos de salários para a família, ao mesmo tempo preservando os papéis e a identidade dos sexos no contexto da família.

Uma solução é tentar continuar a prática de confinamento doméstico das mulheres e limitar sua participação no contingente de mão-de-obra. Apenas 11% das mulheres muçulmanas libanesas, mas 45% das mulheres muçulmanas turcas, estão inseridas no trabalho assalariado. A média total da participação da mão-de-obra feminina na Austrália é de aproximadamente 43%. Famílias grandes e um tempo maior dedicado ao cuidado das crianças continuam a ser os principais fatores da perpetuação do confinamento doméstico da mulher ao papel de mãe e dona de casa(2). Embora os assistentes sociais frequentemente afirmem que são as instalações inadequadas para o cuidado de crianças que impedem as mães de entrar para o contingente de mão-de-obra assalariada, essa avaliação não leva em conta o reforço cultural dos papéis dos sexos decorrente do fato de se ter uma família grande (3).

A entrada da mulher muçulmana para o contingente de mão-de-obra geralmente produz considerável preocupação entre os homens quanto ao ambiente e ao tipo de trabalho que suas mulheres exercem. Desenvolve-se com isso um mapa cultural local, que tacitamente classifica os empregos pelos graus de proximidade com relação ao ideal cultural do confinamento doméstico (Isto é, supervisão estreita) e da maternidade. Alguns ambientes de trabalho são representados como familiares e culturalmente aceitáveis (por exemplo, o trabalho com membros da família em negócios familiares, o trabalho com membros da mesma comunidade ou grupo étnico, o trabalho em ambientes exclusivamente femininos). Também são aceitáveis os empregos associados aos papéis tradicionais dos sexos, de prestar cuidados e de nutrição (por exemplo, cozinheira, serviços de beneficência, babá, confecção de roupas, professora). Os empregos mais aceitáveis são os que podem ser controlados em ambientes familiares e que envolvem atividades associadas ao lar. Por exemplo, as mulheres podem ser empregadas em negócios familiares, como restaurantes em que possam cozinhar afastadas da visão do público, ou podem tomar conta de crianças em casa, para outras mães trabalhadoras.

O emprego das mulheres em negócios familiares também serve de reforço para a autoridade masculina, na medida em que serve como controle econômico sobre a distribuição da renda doméstica. Em geral, as receitas ganhas com os negócios familiares não são recebidas na forma de salários, mas distribuídas de acordo com as diferentes necessidades dos membros da família (por exemplo, na compra de uma casa, no oferecimento de um dote para a noiva, no pagamento de viagens, ou na compra de um carro ou bens de consumo). O emprego de mulheres em negócios familiares também pode oferecer a oportunidade para os homens firmarem sua autoridade na vida pública. A flexibilidade das horas de trabalho e a disponibilidade da mão-de-obra familiar (a esposa e os filhos) permitem ao chefe da família envolver-se na política da comunidade e, dessa forma, situar-se no interior de uma esfera de competição masculina definida pela honra.

A participação das mulheres no trabalho assalariado, especialmente em fábricas, é considerada como particularmente ameaçadora, devido ao caráter não segregacionista do local de trabalho e à independência econômica que o salário pode criar. A visão comum entre os muçulmanos do sexo masculino de que as fábricas são locais de corrupção moral e promiscuidade sexual tem um paralelo histórico nas atitudes como relação à entrada das mulheres da classe trabalhadora inglesa em empregos nas indústrias das cidades fabris no século XIX (Thompson, 1966: 452). Em Sydney, um escândalo envolvendo mulheres libanesas muçulmanas e cristãs empregadas na limpeza de vagões de trens no turno da noite, coagidas por seus supervisores na State Rail Authority a conceder-lhes favores sexuais, somente fez acentuar os temores quanto aos perigos do trabalho de mulheres fora do lar (State, 1982).

Nos locais em que as mulheres estão empregadas como mão-de-obra assalariada em fábricas, os homens freqüentemente adotam estratégias de controle que buscam restringir a independência em geral associada ao trabalho fora de casa. Eles podem tentar controlar o tempo não-supervisionado que as mulheres passam fora de casa transportando-as pessoalmente de carro na ida e na volta do trabalho, permitindo-lhes ocupar empregos somente em locais de trabalho em que algum outro membro da família já esteja empregado, ou ainda assegurando-se de que elas trabalhem num contingente segregado de mão-de-obra feminina de mesma origem étnica e/ou religiosa.

A observância das regras no trajar, especialmente o uso do lenço de cabeça, muitas vezes se torna condição para que seja permitido o trabalho fora de casa. O lenço de cabeça serve como símbolo externo de recato e responsabilidade, mas na verdade seu uso pode ser ambíguo. De um lado, pode ser visto como uma condição imposta pelos homens, marcando sua autoridade sobre as mulheres, mas, de outro, significa a "saída" das mulheres muçulmanas pertencentes às classes trabalhadoras, que pela primeira vez estão entrando para o contingente de mão-de-obra industrial. A cultura australiana dominante em geral vê o lenço de cabeça como um símbolo da dominação masculina e uma invasão de práticas religiosas em esferas seculares da vida. Na verdade, a reação negativa a esse hábito fez com que as próprias mulheres, e não seus maridos, irmãos ou pais, fossem vítimas da discriminação no local de trabalho, porque elas "parecem diferentes", sendo também acusadas por seus empregadores de perturbar o local de trabalho.

A interdependência das identidades de sexo muçulmanas e a fragilidade das fronteiras tradicionais entre os sexos são dramaticamente expressas no impacto das lesões resultantes de acidentes de trabalho sobre os papéis masculinos na família. A condição de operários da maior parte dos imigrantes masculinos muçulmanos coloca muitos deles em empregos em que seu valor pessoal está intimamente associado à força física. Se a auto-imagem de "macho" é prejudicada pelas lesões decorrentes de acidentes de trabalho, frequentemente ocorre uma crise psicológica, expressa por uma inversão no papel dos sexos. Chefes de família, que antes eram provedores fisicamente fortes, independentes e orgulhosos, podem passar para o papel de dependentes e fracos. Quando isso ocorre, as mulheres podem se ver cumprindo o papel de mães, em vez de esposas e parceiras de seus maridos feridos. Ferimentos que poderiam não ser fisicamente incapacitantes podem se tornar crônicos e incuráveis, devido à necessidade de representar continuamente o papel de doente para justificar a reivindicação de indenizações trabalhistas e dar legitimação cultural à própria incapacidade de corresponder à imagem masculina de competidor.

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(2) Caroline de Costa observa, num estudo sobre a gravidez entre as libanesas em Sydney, a existência de uma parcela desproporcionalmente grande de mães libanesas dando à luz tanto nas idades de 15-20 anos quanto em idades superiores a 36 anos. Embora os dados incluam todas as libanesas, cristãs e muçulmanas, minha própria pesquisa em Sydney sugere que seus dados se aplicam mais às libanesas muçulmanas que às cristãs (Costa, 1988: 457, 460).

(3) Consultar, por exemplo, o relatório do Conselho da Comunidade Libanesa de Nova Gales do Sul. Reconhecendo que as mulheres libanesas têm uma das mais baixas taxas de participação no contingente de mão-de-obra, eles reivindicam "a oferta de atendimento à criança para mulheres que trabalham" e treinamento para o trabalho planejado "de modo apropriado e sensível às especificidades culturais" (Community, 1989: 32). primeira reivindicação sugere que são as crianças que inibem a participação das mães no contingente de mão-de-obra, enquanto a segunda sugere que é o trabalho e seu ambiente que o fazem.

 
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