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Artigos
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Islamísmo, Imigrantes e Estado: Religião e Política Cultural na Austrália por Michael Humphrey |
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A
educação da mulher é outra esfera em que os homens
intervêm, buscando supervisionar a interação social
e determinar as regras no trajar. Da mesma maneira que oferece às
mulheres possibilidades de empregos na indústria, a migração
também oferece a muitas mulheres muçulmanas oportunidades
de educação anteriormente não acessíveis,
devido ao custo e ao preconceito de sexo. É comum na Austrália
o uso entre as estudantes muçulmanas dos lenços de cabeça,
às vezes na tenra idade de 5 anos. A política governamental
de multiculturalismo busca estimular a tolerância das regras no
trajar como expressão de diferença cultural. No entanto,
os conflitos quanto ao vestuário surgem quando os pais muçulmanos
restringem a participação de suas filhas em toda a gama
de atividades escolares, especialmente as esportivas. Os pais muçulmanos
frequentemente impedem suas filhas de praticar esportes, como natação
ou atletismo, que requerem trajes sumários que não limitem
o movimento. O resultado habitual desses conflitos é as meninas
muçulmanas ou participarem com roupas tão inadequadas que
na prática elas ficam excluídas - elas não podem
aprender a nadar - ou elas freqüentarem os esportes como meras espectadoras. O
casamento precoce ainda funciona como um importante meio de controle sobre
a atividade das migrantes muçulmanas. Os persistentes altos níveis
de endogamia, a seleção de uma esposa do país de
origem, a alta freqüência de casamentos entre primos em primeiro
grau entre os muçulmanos libaneses e os conflitos legais quanto
à idade para casamento são indicações da pressão
por manter a tutela masculina sobre as mulheres. De fato, devido à
permissividade moral observada na sociedade australiana, a preocupação
com a castidade e com a supervisão do comportamento da mulher pode
ser efetivamente exacerbada. Tal preocupação pode estar
presente mesmo entre os homens que talvez preferissem permitir a suas
filhas ou irmãs aproveitarem ao máximo as oportunidades
de educação. Exemplo disso é o caso de um muçulmano
libanês que servia como intermediário étnico e viu-se
confrontado com a exigência de que sua irmã mais nova se
casasse com a idade de 14 anos: ele consentiu porque temia as conseqüências
da desonra para sua própria posição na comunidade
em que servia (Humphrey, 1984a). A
idéia de que as mulheres muçulmanas devem estar sempre sob
a tutela protetora dos homens tem apresentado sérios problemas
quando, devido a conflitos ou violência no lar, as mulheres deixam
a casa do marido. Como a resposta tradicional de retorno à casa
paterna nem sempre é viável, as mulheres podem buscar ajuda
e abrigo fora de sua comunidade. Uma fonte de ajuda são os refúgios
para mulheres australianas, que são considerados pelos homens muçulmanos
como subversivos para a vida da família muçulmana, ao estimular
as mulheres a defender seus direitos legais de ter uma vida independente
do marido ou de acusar o marido de agressão, nos casos de violência
doméstica. Se as mulheres buscam ajuda nesses refúgios,
elas podem se ver separadas dos filhos, e até mesmo rejeitadas
pela própria família. Grupos de mulheres muçulmanas
têm reagido criando "refúgios islâmicos" para oferecer
um espaço culturalmente aceitável, neutro e que não
ofereça riscos, para permitir a solução dos conflitos
matrimoniais. Os refúgios islâmicos são uma tentativa
de impedir a "poluição" das mulheres, resultante de sua
saída dos limites sociais e de tutela permitidos; eles servem para
reforçar a modalidade islâmica, enfatizando os deveres da
mulher com relação ao marido e à família. Comunidades
e mesquitas Além
da família, os homens buscam criar um ambiente institucional que
apoie seus esforços para manter sua autoridade no lar. Os mesmos
ideais de segregação e confinamento que ajudam a demarcar
os papéis de sexo na família recebem continuidade na esfera
pública. Os domínios da autoridade são delineados
tanto pela participação institucional formal quanto pela
manutenção de uma cultura da honra que mantém uma
imagem masculina auto-afirmativa de responsabilidade social e poder pessoal. As
associações de serviço voluntário e as mesquitas
são duas esferas institucionais dominadas pelos homens. Embora
muitas associações de serviço voluntário sejam
nominalmente organizações com base nos núcleos residenciais,
para todos os efeitos elas atuam como clubes masculinos (Humphrey, 1984b).
Em geral o envolvimento das mulheres nessas associações
está restrito a ocasiões especiais, como piqueniques e reuniões
sociais familiares. Quando se tornam ativamente envolvidas nas associações
de serviço voluntário, as mulheres realizam atividades de
assistência social e de caridade, áreas que estão
associadas com a prestação de cuidados e a Generosidade,
e não com o poder público. A
formação desse tipo de cultura de comunidade voltada para
o homem é comum entre muitos dos imigrantes que vão do Mediterrâneo
para a Austrália. Ela se estrutura sobre vínculos sociais
derivados dos laços de parentesco e amizade, muitas vezes em conseqüência
de os migrantes serem oriundos de uma mesma aldeia. As divisões
entre as facções e a competição e conflitos
por posições, existentes na comunidade de origem, podem
persistir e influenciar a competição por recompensas na
forma de posições de destaque nas associações
de serviço voluntário (por exemplo, a presidência
de uma associação). O capital cultural proveniente de vínculos
pessoais anteriores (parentesco, amizade e redes de comunidades) alcança
nova relevância para a classe trabalhadora imigrante, permitindo
que se desenvolvam vínculos entre os membros masculinos do mesmo
grupo étnico, por meio de atividades inter-associacionais ou no
con-texto de organizações culturais de âmbito mais
amplo. Os vínculos constituídos em esferas mais restritas
tornam-se o foco da incorporação cultural no interior da
classe trabalhadora imigrante. Enquanto
as associações de serviço voluntário podem
unir membros masculinos do mesmo grupo étnico, as instituições
religiosas funcionam mais comumente como a esfera social mais ampla para
uma comunidade étnica específica. O vínculo entre
a cultura masculina e a organização religiosa nas comunidades
de imigrantes é uma área que tem sido pouco investigada.
A autoridade masculina estende-se para além da esfera do lar, passando
pela formação da comunidade e das instituições
religiosas. Nas comunidades muçulmanas libanesas, a estreita associação
entre a comunidade e a organização religiosa como um domínio
da autoridade masculina fica manifesta nas carreiras dos primeiros imãs
e no papel exercido pelas facções dos núcleos residenciais
de migrantes na tomada de decisões das comissões das mesquitas.
No caso do primeiro imã entre os muçulmanos libaneses sunni,
na ausência de instituições islâmicas estabelecidas,
a devoção pessoal e as obras beneficentes garantiram-lhe
o acesso à liderança na comunidade. A rivalidade entre as
facções dos núcleos residenciais de migrantes nas
comissões das mesquitas desempenhou um importante papel na destituição
dos imãs que estavam no cargo e na escolha de seus substitutos
(Humphrey, 1987: 233-45). O vínculo estreito entre o desenvolvimento das instituições religiosas islâmicas e as comunidades de serviço voluntário é inteiramente compatível com a condição igualitária dos "fiéis" e de sua função religiosa como membros da comunidade muçulmana ('umma). Desenvolvidas localmente e sem a necessidade de uma autoridade religiosa externa, tais comunidades prontamente recriaram uma síntese entre o secular e o religioso no contexto dos vínculos sociais circunscritos pela migração. Reforçando a base ideológica e histórica da organização muçulmana local, estão as políticas governamentais de multiculturalismo que buscam legitimar as identidades étnicas com bases amplas. Como freqüentemente a religião é a identidade social mais ampla acima do núcleo residencial de migrantes, as organizações religiosas e as lideranças desempenham papéis de grande destaque na política de multiculturalismo. Página
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