Universidade de São Paulo Faculdade de Engenharia de Sorocaba Banco Credibel S/A
 
Sobre o Labi Arte e Imagem Contato Agenda Cidadania e Movimentos Sociais Links Artigos e Publicações
Artigos e Publicações

O Movimento dos Sem Terra : uma análise sobre o discurso religioso
por Drª. Maria de Lourdes Beldi de Alcântara
- Núcleo e Laboratório do Imaginário e Memória da Universidade de São Paulo
Marcelo Justos -
Mestre em Geografia e Doutorando em Geografia Agrária



Bibliografia

É com esta ambigüidade que o discurso dos dirigentes do Movimento dos Sem Terra irão trabalhar.

Ainda, segundo Stedile, existem três características fundamentais do movimento: ser popular, pois aglutina toda a família dos trabalhadores rurais e também pessoas com outras profissões que lutam pela Reforma Agrária; ter caráter sindical, de defesa da corporação, e, ser político, no sentido da defesa dos interesses da classe trabalhadora. Junto com a mística, os princípios organizacionais são, para Stedile, os aspectos inovadores do MST. São eles: direção colegiada, contrária ao centralismo de um presidente; divisão de tarefas, de acordo com aptidões pessoais; disciplina, no sentido de respeito à decisão das instâncias; estudo; formação de quadros; luta de massas; e, por último, vínculo com a base. Por esses princípios constata-se que há uma distinção entre direção e base, mesmo que direção seja colegiada e as decisões sejam democráticas.

No entanto, o que vai nos chamar a atenção é como o discurso religioso vai amalgamar este projeto político acima descrito.

Uma análise sobre o discurso do MST

Como foi demonstrado acima, é fato que o Movimento dos Sem Terra surgiu do bojo da Igreja Católica, especificamente, da Igreja vinculada pela Teologia da Libertação.

O que isto significa? A aproximação da Igreja Católica de seus fiéis "verdadeiros fies" - o povo humilde - Qual foi a estratégia? Não foi através de um imaginário extraordinário que representava a Igreja da Alta Idade Média, e sim através de uma atitude política, onde o espaço para as representações milagrosas não mais seria o céu e sim, a Terra, não mais seria dado e sim conquistado.

Assim, o que se perde é, segundo Le Goff(2) afirma, o elemento extraordinário e mágico, a partir do momento em que a Igreja Católica teve de lutar pelo seu espaço dentro da sociedade que se secularizava, ela deixou de ser mística e passou a ter um papel mais secular, ou seja, é o momento do "äggiornamento" da Igreja Católica nas questões sociais; a partir de então, a mística do catolicismo "rústico" tão decantada pela sociologia rural deixa de apresentar o extraordinário e passa a ser ressemantizado pelos movimentos sociais dirigidos pela Igreja Católica. Neste processo o catolicismo popular é transformado, através de uma migração simbólica, em símbolo chave da liturgia tendo a principal função o ver, julgar e agir, no aqui e agora. Podemos inferir que ocorre, neste momento, com imaginário rural é um processo de "desencantamento do mundo"?

Essa estratégia semântica retira da religiosidade popular todo o seu caráter milenarista , o extraordinário do mundo e o transforma em aggiornamento, este processo torna-se bem claro quando a passagem da Bíblia é usada como parábola para a luta camponesa: "os pobres e oprimidos da terra , além de humanos, são divinos, por que deles Jesus disse que tudo que se faz a eles, se faz a Ele, (Mt.25,40,45). Portanto, o sangue e a morte dos pobres estão além de toda política e tocam no próprio coração de Jesus.

Neste momento, a eficácia simbólica do catolicismo não será mais reportada ao Eterno (imortalidade), Lá (céu) que se entende por uma espera, e sim, no Aqui (terra) e Agora (neste exato momento histórico); entende-se por isto uma ação - claramente - uma ação política. Quando nos reportamos a este lugar projetado, estamos tratando da utopia e do extraordinário e, portanto, de uma espera por uma justiça divina. A partir do momento, em que a eficácia simbólica não estará mais reportada no além, mas no aqui é que ocorre uma mudança de atitude. Poderemos constatar isto através dos rituais realizados por este movimento.

As Romarias da Terra e a ocupação de terras significará a conquista da Terra Prometida. Vejamos este discurso de Stedile: no caso da luta pela terra, o livro do Êxodo [na Bíblia] era uma das referências para que os trabalhadores compreendessem melhor a sua história. Nas comunidades, durante os estudos bíblicos era feita uma analogia entre o êxodo do povo hebreu e o êxodo sofrido pelos trabalhadores rurais. Esse processo pedagógico enriquecia as novas formas de organização que emergiam. Estava em movimento a fermentação da caminhada à terra prometida" (Fernandes, 1999:74). Esse é o caráter "ideológico" herdado da Igreja, conforme referido acima por Stedile.

Poderíamos dizer que o ritual, neste contexto, expressa-se através de uma liturgia secular, onde as hagiografias são exemplos de luta, no aqui e agora, de luta para a conquista da terra prometida.

Será que esse símbolo chave deixa de ter um valor místico e passa a ter um valor secular? Perde o sentido do extraordinário? Onde a vivificação do mito e o pertencimento estão, necessariamente, vinculados a ação política? A luta, ou seja, o calvário é a prova divina para a conquista da Terra Prometida, que não é o paraíso. O ritual não irá vivificar o mito, e sim o herói fundador, que será representado pelo próprio "povo". Diante desta constatação, como o Movimento dos Sem Terra - através da estratégia da Teologia da Libertação - se aproxima desta população rural que é caracterizada pela presença do extraordinário, em que o papel das rezas, das romarias, do alcance do milagre pedido faz com que o sagrado não esteja confinado e sim misturado na vida cotidiana? Como bem coloca Steil, (1996:263) a dimensão extraordinária das manifestações religiosas populares se manifesta nos relatos dos milagres, nas estórias dos romeiros, nas promessas e sacrifícios assumidos em forma de penitência. Complementando com que afirma Camargo(1971:16), o catolicismo rural tem como característica a piedade e a devoção, pois tem um caráter santorial que não é nem teocêntrico, nem cristocêntrico, mas que se define, praticamente, pela predominância da devoção aos santos prediletos. As grandes festas religiosas, que atraem as populações frequentemente esparsas em vastos territórios, constituem, a um só tempo, forma de lazer, meio de inter-relação social e expressão religiosa. Um dos aspectos característicos das práticas religiosas e que reflete o alto nível de sacralidade da cultura local é a prática das rezas, promessas, bênçãos e procissões ligadas aos fenômenos da natureza e ao bom encaminhamento da agricultura e da pecuária.

O MST traz para o cotidiano a promessa da terra, como a redenção conquistada pelo sofrimento das expulsões, das ocupações, dos acampamentos, dos confrontos com a polícia e a segurança privada, das caminhadas. Em cada um desses sacrifícios está a esperança de terra para morar e plantar. Há uma ênfase na organização de que deve ser um "movimento de massa", tanto que o setor responsável pela organização das ocupações é chamado de Frente de Massas. Poderíamos dizer que este termo massa, deliberadamente utilizado pela direção do MST, significa o mesmo que comunidade? A vivência como massa traz para o dia-a-dia a possibilidade de transcender as limitações e os interesses individuais. A ocupação de terra, essência do movimento, dá sentido de unidade para as pessoas. Passar pelo calvário de um acampamento cria um sentimento de comunidade, de aliança(Stedile & Fernandes, 1999:115).

Essa sensação de força vivida com a massa também está presente nos assentamentos. Na realização da promessa de terra, incentiva-se o viver na terra prometida. O ideal de fraternidade cristã reaparece nos assentamentos como incentivo a produzirem em cooperativas. Os assentados continuam a fazer parte do Movimento Sem Terra, pois a luta não acaba com a conquista da terra, é preciso ter condição para produzir.

Além disso, a convergência da militância para encontros e congressos serve para fortalecer os laços de unidade: "Queremos sair dos encontros com as baterias carregadas, com ânimo e vontade de lutar", diz Stedile (Stedile & Fernandes, 1999: 85). As pequenas conquistas através de desapropriações fazem com que o ideal de terra para todos fique mais palpável. A solução para o problema agrário no país, segundo ele, só será alcançada quando se conseguir terra para todos. No movimento, então, a terra prometida é a promessa de terra para todos. É este o momento da constatação da eficácia simbólica no aqui e agora.

Mas como o imaginário rural extremamente "mágico" vai ser recuperado como uma função claramente política?


Página AnteriorÚltima Página


(2) LeGoff, Jaques. O Maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval. Lisboa, Edições 70, 1990.
 
  Indicar esta página a um amigo

Artigos e Publicações | Links | Cidadanias e Movimentos Sociais | Arte e Imagem | Sobre o Labi
Agenda | Contato | Últimas Novidades | Banco de Dados NIME/LABI