![]() |
|
|
![]() |
|
||
| |
||||||
|
Artigos
e Publicações
|
O Movimento dos Sem Terra : uma análise sobre o discurso religioso por Drª. Maria de Lourdes Beldi de Alcântara - Núcleo e Laboratório do Imaginário e Memória da Universidade de São Paulo Marcelo Justos - Mestre em Geografia e Doutorando em Geografia Agrária |
|
Procura-se
recontar brevemente a história de formação do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) enfocando a importância
da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na sua origem. Interessa-nos,
particularmente, ressaltar os elementos simbólicos que migram
da Igreja Católica, principalmente, da Teologia da Libertação
para o Movimento Sem Terra. Por último, visa-se mostrar em
que bases se constroem o discurso da direção deste movimento
em relação à base. UMA BREVE HISTÓRIA Membro
da direção nacional do MST, João Pedro Stedile(1),
atribui a formação do MST a fatores socioeconômicos
e políticos. Entre esses fatores coloca em primeiro lugar a
modernização da agricultura, em segundo a "ideologia
herdada" do trabalho pastoral da Igreja Católica e, por
último, a luta contra o regime militar [1964-88]. Para ele,
sem a Comissão Pastoral da Terra não haveria o MST,
pois este surge do trabalho da Igreja Católica e da Luterana.
Dado esses elementos conjunturais de gênese do movimento, se
adiciona ainda o conflito agrário que é marco histórico
e geográfico nesse nascedouro: as lutas nos municípios
de Nonoai, Sarandi e Ronda Alta, no Rio Grande do Sul, no final da
década de 1970. Entre
1978 e 1985 ocorreram fatos históricos que poderíamos
nomear como as sementes do nascimento do Movimento dos Sem Terra (MST). Em
1978, índios Kaigang da reserva no município de Nonoai
expulsaram mais de mil famílias de posseiros que lá
viviam desde 1968 arrendando terras por intermédio da Fundação
Nacional do Índio (Funai). Naquele mesmo ano uma parte dessas
famílias ocupou a fazenda Macali, mas, logo veio a expulsão.
João Pedro Stedile, então funcionário da Secretaria
da Agricultura do Rio Grande do Sul e assessor da CPT, tinha a informação
de que a fazenda Macali era "grilada" (título de
propriedade falso). Então, em setembro de 1979, a fazenda Macali
foi novamente ocupada juntamente com a área vizinha, gleba
Brilhante, ambas no município de Ronda Alta/RS. O pároco
de Ronda Alta, que foi um dos fundadores da CPT no município,
e Stedile colaboraram na organização dessas famílias
de posseiros expulsos da reserva Nonoai. Outro grupo de famílias
ocupou a fazenda Anoni, no município de Sarandi/RS e logo foi
despejado. Em decorrência, as famílias acamparam na Encruzilhada
Natalino, onde dois anos mais tarde realizou-se uma concentração
nacional de luta pela terra com 30 mil pessoas, organizada pela Confederação
dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e pela CPT. Anos depois,
em 1985, o MST, após promover nova ocupação,
conseguiu a desapropriação da fazenda Anoni. A
partir do começo da década de 1980 aumentou o número
de ocupações de terras pelo país, mas foram lutas
localizadas, com o apoio de membros da CPT . Em 1982 houve um encontro
de âmbito nacional em Goiânia/GO, promovido pela CPT,
quando foram trocadas experiências das lutas do Sul, Sudeste
e Centro-Oeste. Nesse encontro apareceu a proposta de que deveria
haver na CPT uma comissão de luta pela terra. No entanto, venceu
a proposta contrária, a de que seria importante aos trabalhadores
rurais se organizarem de forma autônoma. Entre 82 e 83 houve
reuniões visando um encontro nacional que conseguisse incorporar
o que estava acontecendo no Norte e Nordeste do país. Com o
I Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra,
ocorrido em Cascavel/PR em 1984, estava claro que a luta deveria ter
um âmbito mais amplo do que as lutas locais nos estados. Entre
os objetivos gerais do movimento proclamados nesse Encontro estava
a preocupação de desvinculação em relação
à Igreja através da formação de lideranças
e da constituição de uma direção política
(Fernandes, 1999: 79-80). Como resultado esse encontro tornou-se a
data oficial da fundação do movimento, janeiro de 1984.
A
segunda metade da década de oitenta foi marcada pelo um acirramento
dos conflitos agrários em todo o país. Com o I Plano
Nacional de Reforma Agrária do governo Sarney (1986-1989),
que previa o assentamento de mais de um milhão de famílias,
as organizações de sem terra promoveram grande ocupações
pelo país. Em reação, os latifundiários
criaram a União Democrática Ruralista (UDR), em 1985,
uma organização para-militar voltada à defesa
das propriedades privadas. Em conseqüência, o número
de homicídio de camponeses e de seus representantes em conflitos
agrários teve os maiores índices vistos até então
(Cf. CPT, 1986 e 1989; Oliveira, 1997). Ao
longo das décadas de 80 e de 90 o Movimento Sem Terra continuou
se expandindo, ganhando maior presença em alguns estados do
que em outros. Conquistou sua independência em relação
à Igreja, mas, caminha com o apoio e em diálogo com
esta instituição. No
entanto, a liderança do MST reconhece o papel fundamental da
militância da Igreja, principalmente da ação pastoral
das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), derivada da Teologia da
Libertação. "A maioria dos militantes mais preparados
do movimento teve uma formação progressista em seminários
da Igreja", diz Stedile sobre o MST (Stedile & Fernandes,
1999: 59). "As CEBs eram canais de participação
popular num período de repressão política. A
Teologia da Libertação era uma nova evangelização
em que os pobres (expropriados e explorados) deixaram de ser vistos
apenas como cordeiros e passaram a ser sujeitos de sua libertação
e da evangelização. A concepção Igreja-Povo-de-Deus
procurou diminuir a hierarquia tradicional da Igreja Católica
para um modelo mais flexível. Este modelo de organização,
presente nas CEBs, serviu de referência para o MST".(Fernandes,
1999: 69-74).
Nesse sentido falar em "misticismo" e não numa religião
propriamente dita, o MST aparentemente vai um pouco além do
discurso da Teologia da Libertação. É através
da retórica da mística que substitui o termo fé.
Qual a intenção deste discurso? Como ele é articulado?
Seria uma estratégia semântica em que o Movimento dos
Sem Terra, assim como a Teologia da Libertação percebem
a importância e o potencial do espaço simbólico
religioso da cultura popular? E, portanto, capaz de ser preenchido
por outras manifestações de cunho religioso? Ou seria
a constatação por parte da liderança do MST de
que a religiosidade desta "massa" ultrapassa a religião
católica? O termo místico utilizado pelo MST tem a intenção
de abranger toda e qualquer diversidade religiosa que compõem
os integrantes deste movimento. Diferentemente
do termo místico utilizado pela Igreja Católica, antes
do Vaticano II (1963-65), quando esse termo era amplamente utilizado
para desqualificar a população rural, a qual praticava
um tipo de catolicismo que era amplamente mágico, ou seja,
místico, cheio de superstições e práticas
que não eram reconhecidos pela Igreja Católica Oficial.
A mudança de posição faz com que esse locus
religioso deixe de ter uma conotação negativa e passe
a ser o local de constatação da fé. Consagra-se
a partir deste reconhecimento o termo Fé e Política-
Teologia da Libertação e posteriormente Mística
e Política para o Movimento dos Sem Terra. Ao
mesmo tempo, encontra-se no discurso da direção do MST
uma redução do universo simbólico camponês
ao interpretá-lo dentro de um projeto de classe. Notemos as
palavras de Stedile: a luta pela terra se transforma em luta pela
reforma agrária e, em conseqüência, num projeto
político dos trabalhadores se estes, na sua luta, adquirem
consciência social para mudar a sociedade (Stedile &
Fernandes, 1999: 119). Próxima
Página • Última
Página (1)
Nasceu em 25 de dezembro de 1953 em Lagoa Vermelha no Rio Grande do
Sul. Reside atualmente na cidade de São Paulo. Formado em economia
pela Pontifícia pela pontifícia Universidade Católica
do rio Grande do Sul, com pós-graduação pela UNAM-
México.
|
| |
||