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Artigos
e Publicações
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Goetz Ottmann Visualmente,
os artistas de hip-hop de São Paulo só diferem marginalmente
de seus correspondentes em Nova York, Paris, Berlim ou Sydney. Eles trajam
imagens espelhadas transmitidas por uma indústria de cultura jovem
global, sua linguagem corporal faz lembrar clips da MTV e seu repertório
exibe semelhanças com expressões artísticas encontradas
em outros lugares[1]. A despeito dessa
semelhança global, Micael Herschmann (2000) afirma que o hip-hop
brasileiro representa um caso evidente reinterpretação do
global pelo local (Herschmann, 2000: 23). De fato, ele e outros observadores
da cultura jovem global (por exemplo, Canclini, 1990; Rose, 1994; Yudice,
1994; Stapleton, 1997; Androutsopoulos and Scholz, 1999) indicam vários
modos como os artistas e os públicos locais transformam um produto
cultural importado global em um produto distintamente local. Quais são,
então, os elementos locais no hip-hop brasileiro? Até hoje,
poucas explicações tentaram escavar “o local”
contido na cultura hip-hop de São Paulo. Este artigo pretende preencher
essa lacuna tornando visíveis alguns dos temas religiosos e políticos
nitidamente locais que sublinham a aventura do hip-hop paulistano.
Meu
primeiro contato próximo com o rap paulistano ocorreu durante
um trabalho de campo em 1996. No decorrer de vários meses, ficou
cada vez mais óbvio que os atributos da cultura hip-hop global
escondiam uma moldura de significado local. Dois anos depois, tive a
oportunidade de explorar em maior profundidade esses elementos locais
da cultura hip-hop de São Paulo. Por meio de entrevistas com
rappers, ativistas de hip-hop, políticos de partidos e de observação
participante deduzi que a cultura hip-hop de São Paulo contém
uma multidão de símbolos políticos e religiosos
populares reelaborados, assim como modos de ação coletiva
empregados durante as duas décadas anteriores. Longe de ser arbitrária,
a ressimbolização e a assimilação cultural
ocorrem num continuum cultural que produz uma moldura de significado
constantemente reelaborada que serve como base interpretativa para novas
importações culturais. O caso do hip-hop paulistano é
particularmente interessante na medida em que demonstra muito claramente
a herança de duas décadas de política inspirada
na igreja católica progressista bem como uma secularização
do pensamento liberacionista[2]. Nesse
sentido, os dados empregados neste artigo reforçam as afirmações
de Herschmann de que os manos brasileiros se apropriaram de partes
de uma cultura hip-hop difundida globalmente, reelaborando seu conteúdo
para adaptá-lo a um contexto local (Herschmann, 2000: 23). Todavia,
onde Herschmann gostaria de romper com o mito de unidade que, de acordo
com o autor, constituía um aspecto significativo da “velha”
política dos movimentos sociais, eu gostaria de enfatizar a importância
permanente desse mito. Enquanto Herschmann sublinha a fluidez contida
na “nova” política cultural do rap do Rio de Janeiro,
este artigo focaliza a importância persistente dos “velhos”
movimentos sociais no cerne do movimento hip-hop paulistano. Na verdade,
embora a cultura política fluida certamente seja parte integrante
do rap, é difícil imaginar o hip-hop sem unidade mítica.
Essa unidade, todavia, está baseada em termos muito diferentes
daqueles que caracterizam o hip-hop feito nos EUA ou na Europa[3]. Com
certeza, já é mais do que hora de fazer um estudo aprofundado
do hip-hop brasileiro. Uma tal empreitada, todavia, iria muito além
do âmbito deste artigo. Portanto, devido aos recursos limitados
que foi possível reunir para produzir o artigo, vou me concentrar
na tendência central do movimento hip-hop, corporificada pelos Racionais
MCs e por Thaide e DJ Hum[4].
Escolho essas bandas porque elas são possivelmente as mais prolíficas
bandas de hip-hop de São Paulo, e no caso dos Racionais, é
a mais bem-sucedida banda de hip-hop do Brasil. Para oferecer uma perspectiva
dos rappers que atuam fora do movimento eu me referirei ao exemplo do
Kaya e dos Doctor MCs, duas bandas de rap razoavelmente
conhecidas.
Identidades recontextualizadas “A
mudança tem de acontecer na base e crescer a partir daí”
(Thaide, 27/6/98)
Nos
Estados Unidos, o hip-hop é freqüentemente mitologizado
em termos de uma dureza quase sobrenatural sustentando o “gangsta
rap” ou um passado ancestral distante envolvendo o “Griot”,
um contador de histórias das sociedades africanas (ver, por exemplo,
Androutsopoulos and Scholz, 1999, seção 4). Os rappers,
supostamente informados por essa tradição oral africana
e vocalizando os ressentimentos de afro-americanos subalternos, são
transformados em uma autêntica força política de
uma diáspora africana. Além do mais, o hip-hop é
ligado ao destino de afro-americanos que vivem em dificuldade no cinturão
de ócio urbano abandonado por uma sociedade pós-industrial
(Rose, 1994)[5]. Gravado com uma identidade
afro-americana, o rap é transformado em um espetáculo
de identidade política cuja mensagem essencialista tende a expulsar
e alienar uma ampla gama de etnicidades (Flores, 1994)[6].
Portanto, no Brasil, onde a multidão de políticas de identidade
afro-americana adota caminhos muito diversos (ver, por exemplo, Ribeiro,
1977; Herschmann, 2000), esses temas ressoarem de forma muito diferente
e darem origem a reinterpretações locais de símbolos
do hip-hop. Diferentemente
do que ocorre nos Estados Unidos, raça, etnicidade e cor são
temas subordinados no hip-hop brasileiro (ver também Herschmann,
2000: 68, 185). Certamente, muitos dos fãs de rap e de hip-hop
que eu entrevistei no Brasil se definiam em termos de cor, e as letras
de rap freqüentemente se referem à dominação
capitalista branca. Além disso, rappers como KLJ (Racionais)
levam muito a sério sua herança afro-brasileira e até
certo ponto repetem noções contidas na política
de identidade afro-americana. Todavia, a etnicidade não constitui
a identidade fundamental no hip-hop paulistano. Antes, o tema da etnicidade
entra no hip-hop paulistano pela porta dos fundos, constituindo um sujeito
quase incidentalmente negro: o mano. Ele é primordialmente um
residente na periferia, e portanto uma vítima do sistema que
se esforça para combatê-lo. Portanto, temas contidos no
hip-hop radical dos EUA que fazem referência a uma etnicidade
derivada de um Nacionalismo Negro da década de 60, com freqüência
construído de forma simplista, ocupam uma posição
secundária no hip-hop paulistano[7].
Em vez disso, o tema de uma recusa (efêmera) da Comunidade Negra
a integrar a sociedade Branca, que ainda tem alguma vigência no
hip-hop dos EUA, é expressado predominantemente em termos de
uma recusa a submeter-se às regras do sistema capitalista. A
seguinte declaração ideológica tirada de um rap
dos Racionais demonstra claramente esse sentimento anti-sistema e anticonsumista
não específico de cor: Seu
comercial de TV não me engana. Eu não preciso de status
nem fama. Seu carro e sua grana já não me seduz... e nem
a sua puta de olhos azuis. Eu sou apenas um rapaz latino-americano apoiado
por mais de 50.000 mano. Efeito colateral que o seu sistema fez.[8]
(Racionais MCs, Sobrevivendo no inferno, parte 4, verso 3) Claramente,
a cultura européia do hip-hop produz um rap de crítica
social semelhante. De fato, 20% do rap europeu, de acordo com Androutsopoulos
e Scholz, “tem como foco a auto-representação e
a crítica social” (1999: seção 4.1). Todavia,
na Europa a cena hip-hop dominada pelos migrantes tende a focalizar
questões políticas locais, como a xenofobia, o destino
do Gastarbeiter [trabalhador imigrante] e a migração.
Só na Itália, de acordo com Androutsopoulos e Scholz,
são vocalizadas preocupações mais gerais com corrupção,
criminalidade e consumismo[9]. Em São
Paulo, a política local está estreitamente ligada à
política baseada nas questões dos movimentos sociais inspirados
nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) das décadas de 1970
e 1980. Incorporando muitas das questões que agitavam os bairros
pobres durante meados da década de 1980, esse rap mitologizou
a vida dos manos da periferia contando histórias de violência,
brutalidade policial, romance, pobreza e falta de alternativas[10].
Thaide (Thaide & DJ Hum) deixa claro que o discurso dos movimentos
sociais inspirados nas CEBs influenciou profundamente os rappers contemporâneos.
Quando se pede a ele um exemplo concreto, ele logo reitera o discurso
do movimento social da década de 1980 formulando a política
baseada nos termos de uma história genérica de um velho
trabalhador de 60 anos que trabalhou a vida inteira mas continua a não
ter água, eletricidade, asfalto ou acesso ao transporte público.
Além do mais, a declaração acima alude a outra
corrente importante no rap e no hip-hop paulistanos contemporâneos:
a politização de uma pureza enraizada em uma pobreza glorificada
– um tema central no catolicismo popular brasileiro (Lehmann,
1996). E embora os Racionais MCs, por exemplo, adotem uma estética
que não difere daquela do “gangsta rap” dos Estados
Unidos, a mensagem antiviolência profundamente moral deles os
situa em um gênero inteiramente diferente. Embora
na superfície os temas do rap paulistano ecoem as letras de rap
escritas por artistas dos Estados Unidos, é difícil não
ver que o hip-hop mais importante de São Paulo contém
um sabor caracteristicamente religioso. Isso põe o rap paulistano
claramente à parte de seus correspondentes americano e europeu.
Por exemplo, em sua anãlise do padrão temático
e discursivo do rap europeu (na França, na Alemanha, na Itália,
na Grécia e na Espanha), Androutsopoulos e Scholz (1999) não
fazem nenhuma menção a conceitos ou símbolos religiosos[11].
Da mesma forma, os rappers americanos não são conhecidos
por compor imagens religiosas em seus textos[12].
Em São Paulo, as letras, a decoração de palco e
as capas de discos freqüentemente se referem a símbolos
religiosos populares fundidos com a idéias centrais percebidas
do hip-hop. Nesse sincretismo, os símbolos religiosos são
muitas vezes usados para expressar ou tornar visível a pureza
no coração do hip-hop. Os Racionais são particularmente
propensos a esse tipo de simbolização. Por exemplo, a
capa inteira de seu CD Sobrevivendo no inferno (1997) constitui
uma referência à Bíblia. A capa da frente destaca
a cruz, sustentada por um salmo (Refrigera minha alma e guia-me pelo
caminho da justiça – 23:3), e outro salmo fecha o CD
(e mesmo que eu ande no vale da sombra e da morte não temerei
mal algum porque tu estás comigo – 23:4)[13].
Essas referências são recorrentes na letra em que Deus
dota o mano de força para levar uma vida honrada. Embora esses
temas religiosos sejam particularmente visíveis nas letras dos
Racionais MCs, eles não constituem exceção. De
fato, uma ampla gama de bandas de rap brasileiras, entre elas algumas
das analisadas por Herschmann (2000) recorrem a imagens religiosas vinculando
noções de paz e justiça a um princípio superior[14]. Em
muitos sentidos, portanto, o hip-hop paulistano funde o legado de várias
décadas de política popular local radical e com freqüência
messiânica com a profecia de uma diáspora afro-americana
celebrando a chegada de uma nova nação negra, e o transforma
em um espetáculo comercialmente bem-sucedido. Um espetáculo,
todavia, que até hoje retém algumas antigas reivindicações
de autenticidade propagadas por movimentos sociais inspirados nas CEBs
uma década antes; reivindicações de autenticidade
enraizadas na pureza da pobreza subalterna e no antimaterialismo prescrito
espiritualmente. [1]
Essa semelhança deu origem à leitura conservadora de que
culturas importadas levam a uma imitação superficial (ver,
por exemplo, Androutsopoulos and Scholz, 1999). [2]
Sobre a proximidade entre conteúdo religioso e conteúdo
político em movimentos utópicos, ver, por exemplo, Craig
Calhourn (2000). [3]
De fato, o argumento de Herschmann é remanescente> do debate
teórico em torno dos “novos movimentos sociais” durante
as décadas de 1980 e 1990 )ver, por exemplo, Nash, 2000). Em
vez de reiterar esse debate, este artigo focaliza os símbolos
da cultura popular local e dos produtos disseminados globalmente que
constituem a voz profética do hip-hop paulistano contemporâneo,
uma voz fortemente moldada por conceitos religiosos secularizados. [4]
Thaide e DJ HUM também constituem parte importante da cena hip-hop
paulistana. Eles faziam parte do grupo fundador do movimento hip-hop,
discutido abaixo, e divulgaram ativamente a mensagem do hip-hop nos
meios de comunicação de massa. [5]
Sobre o tópico da homologia em música, ver, por exemplo,
Simon Frith, “Music and identity”, in Questions of cultural
identity, edited by Stuart Hall and Paul Du Gay, London: Sage, 1966. [6]
Stewart Hall argumenta que esse teor essencialista está sendo
gradualmente suplantado por uma nova abordagem mais capaz de chegar
a um acordo com a diferença (Hall, 1996: 474). [7]
Refiro-me, por exemplo, à declaração em forma de
rap de Sister Souljah’s apoiando a segregação sexual
entre brancos e negros. [8]
“Your TV commercial doesn’t fool me. I don’t need
status or fame. Your car and your money already fail to seduce me ...
nor your blue-eyed whore. I am only a Latin American guy supported by
more than 50.000 b-boys. Collateral effect that your system produced.” [9]
É interessante notar que embora o “gangsta rap” americano
seja representado no Brasil, não há nenhum equivalente
desse gênero na Europa (Androutsopoulos and Scholz, 1999). [10]
Em uma entrevista Thaide explica que essa forma de rap diminuiu em 1984
e 1985 (Pode Crê, vol. 4/94: 17). De acordo com a pesquisa
de Ph.D. inédita de Bettina Kluge, essa continuidade da política
revolucionária existe também no hip-hop chileno na forma
da Frente Lirica Combatiente. [11]
O estudo se baseia em uma análise de 50 canções
em cada língua. [12]
É preciso observar que eu não estou preocupado com o rap
proselitista de certas denominações religiosas. [13]
Essa referência bíblica é amplamente citada na cultura
popular. Por exemplo, Tarantino constrói em Pulp fiction
uma cena inteira em torno desse salmo. [14]
Devo a Bettina Kluge a indicação de que essas referências
religiosas podem, de fato, constituir uma categoria muito caracteristicamente
latino-americana. |
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