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Artigos
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| III
- A transição para o trabalho livre e a questão
do aproveitamento da mão-de- obra nacional As
últimas décadas do século XIX podem ser caracterizadas
como um período de grandes movimentos migratórios em conseqüência
de mudanças econômico-sociais ocorridas no país,
de modo que o fenômeno da migração interna ganhou
visibilidade, caracterizando-se como um problema nacional. O fenômeno
chegou ao conhecimento do público quando ocorreu a grande seca
de 1877-1878, momento em que os flagelados da seca invadiram as cidades
litorâneas, provocando medo e impondo-se como um problema a ser
resolvido pelas elites locais (Greenfield, 1989; Neves, 1996). No
entanto, o fenômeno migratório desse período não
pode ser associado exclusivamente ao fenômeno das secas, que o
naturaliza. As transformações de ordem política,
econômica e social ocorridas na região acarretaram o fortalecimento
do poder dos grandes proprietários rurais, pela valorização
das terras ocorrida a partir da Lei de 1850 e o crescimento da agricultura
comercial. Essas transformações provocaram a liberação
de mão-de-obra rural, deixando os pequenos produtores rurais
sem terra e, por conseguinte, sem opções de trabalho.
É dessa forma que se pode entender como o Nordeste vem a se tornar
uma região de excedente de mão-de-obra, com a redução
cada vez maior do acesso a terras disponíveis para a agricultura
de subsistência, progressivamente ocupadas com as culturas comerciáveis. Havia,
em tese, mão-de-obra nacional em excedente, que poderia ter sido
utilizada na região cafeicultora. Entender por que se preteriu
o trabalhador nacional em favor do imigrante estrangeiro tem sido uma
das questões mais debatidas pela historiografia. Explicações
de cunho variado foram apontadas para justificar a inviabilidade da
utilização dessa mão-de-obra, principalmente a
da região Nordeste. Apontaram-se os custos do transporte entre
as regiões e, sobretudo, a dificuldade de se arregimentar esse
trabalhador, como ainda a forte oposição da elite local
com relação à transferência para o sul desse
contingente populacional, que significava perda de mão-de-obra
local e, conseqüentemente, de poder político. Todavia, a
razão maior que norteou a não-aceitação
dessa mão-de-obra nacional foi a considerada pela lucratividade
do trabalhador estrangeiro, por ser subsidiado, substituindo, de forma
compensatória, o escravo no processo produtivo. É
importante lembrar que no século XIX ocorreu um grande fluxo
migratório das populações das províncias
da região Nordeste,[3] principalmente
aquelas originárias do Ceará, em direção
à Amazônia, atraídas pelo ciclo da borracha. A seca
de 1915 tem sido apontada como um momento de inflexão nesse movimento
em direção à Amazônia. Em primeiro lugar,
pela crise da produção da borracha e, em seguida, pelo
fato de São Paulo aparecer como terra promissora para os migrantes.
Não é sem razão que os personagens migrantes do
romance de Raquel de Queiroz, O quinze, no desfecho da narrativa,
façam a opção por São Paulo como local de
destino, sinalizando que esse era um movimento que não se realizava
apenas no plano literário. No
entanto, é só a partir da década de 30 que ocorre
o decréscimo da corrente migratória dos estrangeiros, marcando
uma mudança na composição da classe operária.
O movimento migratório, na ocasião, avoluma-se, principalmente
o de origem rural, alimentando os canteiros de obras e as fábricas
das cidades. Nesse momento, a elite brasileira, diante da necessidade
de reativar o mercado de trabalho, dispondo de vasta oferta de mão-de-obra
nacional e tendo em vista a necessidade de obter maior controle social
da classe trabalhadora, passa, então, a reconstruir a imagem do
trabalhador nacional tão fortemente espoliada pelo vírus
da escravatura. Tal reconstrução imaginária é
alimentada pela representação de que esse contingente da
população se encontra menos contaminado por idéias
contestatórias, e que, à diferença do braço
estrangeiro, pode trabalhar por baixos salários, aceitando qualquer
tarefa sem reclamos e sem o risco das paralizações coletivas.
Ao se inserir no mercado de trabalho fabril e ao provocar mudanças
na composição da classe operária, imputou-se ao trabalhador
nacional a responsabilidade pelo decréscimo da “consciência
de classe”, sinalizada pelo enfraquecimento do sindicalismo e pelo
fortalecimento político do populismo. É
importante lembrarmos que tais argumentos se encontram presentes também
na produção historiográfica, demonstrando a presença
de um pré-conceito acadêmico, cunhado principalmente nas
décadas de 50 e 60, quando se discutia o desenvolvimento e a questão
das desigualdades regionais. Como exemplo, citamos Durhan (1978), para
quem os movimentos migratórios apenas podem ser entendidos do ponto
de vista do capitalismo industrial e agrícola do país, enquanto
movimento fornecedor de mão-de-obra desqualificada e barata de
que a indústria precisava. As modificações dos padrões
de comportamento que o migrante realiza, interna e culturalmente, são
entendidas como reflexos das alterações que ocorrem na ordem
estrutural. A
historiografia negligenciou, igualmente, a análise dos conflitos
internos à classe operária, como as disputas pelo mercado
de trabalho entre os próprios trabalhadores. Negligenciou também
os preconceitos quanto à origem étnica, regional e social
dos trabalhadores recém-incorporados ao mercado, os quais foram
forjados como argumentos para assegurar o lugar social e o emprego tão
disputados, conforme alerta Albuquerque Jr. (1990). Com
efeito, o fenômeno da migração de trabalhadores nordestinos
para o Centro-Sul supera a mão-de-obra estrangeira em torno dos
anos 30. Contribuíram para a absorção do trabalhador
nordestino, no mercado de trabalho, o decreto-lei que limitava a 1/3 o
percentual de estrangeiros por empresa. É bom lembrar que, sob
a ameaça da Segunda Guerra Mundial e após esse registro,
a imigração estrangeira torna-se, internamente, um problema
para a segurança nacional, estimulando, dessa forma, a procura
maior pelo braço dos nacionais. Ao mesmo tempo, no Nordeste havia condições que favoreciam a migração: forte pressão demográfica e alta concentração fundiária. Desse modo, o Nordeste, por seu processo histórico-social-político e econômico, transforma-se numa área caracterizada por transferir de mão-de-obra rural para os centros urbanos mais dinâmicos do país, perdendo, assim, a capacidade de retenção de população e se transformando em uma área com altos índices de pobreza e de perdas de população (Guimarães. 1994). A migração para os centros mais dinâmicos da economia do país representa, para quem migra do Nordeste, uma forma de fugir e reagir à exploração e à dominação dos proprietários rurais, e uma esperança de liberdade, na busca de novas relações na cidade. Todas
esses entremeios, que resultaram numa representação determinada
e homogênea do migrante, rotulados como paraibanos e baianos,
contribuem para que possamos compreender melhor, historicamente, o protótipo
de migrante que se justapõe à imagem do trabalhador nordestino
– errante, pau-de-arara, mão-de-obra barata, preguiçoso,
indolente, construtor de cidades, dentre outros.
Nosso trabalho, neste momento, bifurca-se na intenção de
entendermos a migração para a Amazônia e, posteriormente,
a migração para São Paulo. Aqui, faz-se necessário
lembrar o porquê dessa escolha em trabalhar com essas duas vertentes
da migração brasileira. Foram eles movimentos que contribuíram
de forma significativa na representação da mão-de-obra
nacional. Ao mesmo tempo, lembramos que esses movimentos foram ressignificados
no processo produtivo e pelos propósitos, não declarados,
dos indivíduos que se deslocaram pelo país com seus caminhos
plurais. Nesse sentido, buscamos entender os movimentos migratórios
não mais do ponto de vista macro do povoamento, mas fazendo emergir
a história do migrante na busca de trabalho, e no que isso contribuía
para a pluralidade de novas práticas culturais, favorecendo dessa
forma múltiplos cruzamentos socioculturais. Nas palavras de Canclini,
“ ninguém dá conta de todos os itinerários,
nem de todas as ofertas materiais e simbólicas desconexas que aparecem...”
nesses cruzamentos” (Canclini, 1998). Enfatizamos
nossa recusa em aceitar o uso de categorias explicativas abrangentes e
convencionais utilizadas por muitos autores das Ciências Sociais
para explicarem o movimento dos migrantes nordestinos, as quais muitas
vezes deslocam a realidade embutida em suas motivações.
As explicações apenas do ponto de vista da estrutura deixam
de lado a criação de determinados sentidos que essa população
dá ao processo de sair e de voltar. Esses movimentos de desterritorialização
e os processos de reterritorialização das populações
levadas a migrar estão ramificados e presos uns aos outros. IV.
Bravos e Mansos: migrantes nordestinos nos seringais amazônicos Em
decorrência das transformações ocorridas no Nordeste
do país no final do século XIX, a migração
aparecia no horizonte dos homens livres e pobres como uma alternativa
para os problemas que teriam de enfrentar: seca, poucas terras disponíveis,
baixa remuneração salarial, ou mesmo como única
alternativa para a sobrevivência. O importante a observar é
que a migração sofreu um processo de naturalização,
como se ocorresse em conseqüência da seca, e não provocada
por problemas sociais. Do
mesmo modo, não foi a migração nordestina canalizada
exclusivamente em direção aos centros mais dinâmicos
da economia no Centro - Sul. Para a sua história, há que
considerar uma forte corrente que se dirigiu para a região de
fronteira, principalmente a amazônica, em busca de terras e de
condições para a reprodução da condição
camponesa. Essa corrente manteve-se por todo o final do século
XIX e século XX, com períodos de maior ou menor intensidade.
Teve início na década de setenta do século XIX,
quando a produção de borracha na Amazônia oferecia
oportunidades de trabalho e alimentava os sonhos de rápido enriquecimento
trabalhando nos seringais, e se mantém com fluxo crescente até
a crise da borracha, ao final da Primeira Guerra Mundial. Em
busca de novos seringais, à medida que o consumo de borracha
crescia, milhares de migrantes nordestinos devassaram os rios da Amazônia,
ocuparam terras e rios ainda desconhecidos, expulsaram os índios
dessas terras, alargaram as fronteiras do país com sua efetiva
ocupação, a exemplo do ocorrido com o Acre. Belém
e Manaus, naqueles anos, disputavam para ser consideradas verdadeiras
capitais européias. A extração e o comércio
da borracha financiava a apresentação de óperas
nos teatros, animadas conversas nos cafés, onde se desfilava
trajando a última moda parisiense. Todo
esse luxo não se deixava macular pela miséria que imperava
nos seringais. Ali, a vida era regida por um implacável sistema
de escravidão por dívida, conhecido ainda hoje na Amazônia
como aviamento. Em troca do sonho de rápida fortuna, os migrantes
tinham-se dirigido aos seringais às custas dos patrões
e, tão logo chegavam, descobriam que deviam o transporte, e muitos
também um adiantamento que receberam. Para poderem trabalhar,
compravam do barracão dos seringais todos os mantimentos necessários,
bem como os instrumentos de trabalho. Durante os meses em que aprendiam
os segredos da extração da borracha, continuavam a se
abastecer nesse barracão. Enfim, era uma dívida praticamente
impagável, mantida por uma rígida vigilância para
que não fugissem dos seringais. Durante
os anos 20 e 30, a migração para a Amazônia, oriunda
da região Nordeste, decresceu sensivelmente e se dirigiu às
regiões onde a possibilidade de acesso à terra apresentava-se
com mais facilidade. As colônias agrícolas, a exemplo das
que se implantaram ao longo da linha da Estrada-de-ferro Bragantina,
no Pará, ou mesmo para a Fordlândia e Belterra, extensas
propriedades da Ford, onde se ensaiava o cultivo de seringueiros no
sistema de grandes “plantations”, foram os locais para os
quais preferencialmente se dirigiam os migrantes. A
migração de trabalhadores nordestinos cresceu novamente
durante a Segunda Gueera Mundial, incentivada pelo Estado Novo. Fruto
de uma série de acordos assinados com os Estados Unidos, organizou-se
uma campanha para incentivar a migração, objetivando incrementar
a produção de borracha, pois as grandes plantações
asiáticas tinham sido tomadas pelos japoneses, e necessitava-se
suprir as forças aliadas com esta e outras matérias-primas
estratégicas. Conhecida como a Batalha da Borracha e os migrantes
como Soldados da Borracha, a campanha foi um verdadeiro fiasco, tanto
em termos de arregimentação de trabalhadores, quanto em
produção (Guillen, 1999). Vale destacar que os migrantes
foram conclamados a ir para a Amazônia, não só para
cumprir um dever patriótico, mas também para conseguir
terras, pois as autoridades governamentais iniciaram vários projetos
de implantação de colônias agrícolas e acenaram
com a distribuição de lotes de terra por todo o Nordeste,
o que naturalmente não ocorreu. O
mesmo não pode ser dito com relação aos planos
de colonização da Transamazônica, na década
de 70 deste século. Apesar do fracasso, a distribuição
de lotes de terras levou milhares de nordestinos a migrar para a região
em busca da tão sonhada terra própria. Esses mesmos trabalhadores
rapidamente se viram abandonados na floresta, sem assistência
técnica para levar adiante uma pequena agricultura na Amazônia.
Em pouco tempo, a única opção que lhes restava
era o abandono dos lotes tão duramente conquistados. Quando
se trata de avaliar a experiência da migração em
termos populacionais, há um impressionante dado demográfico
sempre considerado: o crescimento populacional da Amazônia, no
período de 1870-1910, foi significativo, e chega-se a apontar
a cifra, não muito realista, de 500.000 migrantes. Já
para o período de 1920-1940, houve uma depopulação.
A população total passou de cerca de 323.000 pessoas,
em 1870, para mais de 1.200.000, em 1910, o que, em termos relativos,
colocava a região com um crescimento demográfico mais
dinâmico do que o da média brasileira e até da região
Sudeste (Santos, 1980, pág. 118). No entanto, alguns anos depois,
especificamente para o Acre, os dados censitários, em 1940, apontam
que a população da região teria sofrido uma queda
de cerca de 13%, tomando-se os dados de 1920. [3] Ainda que a referência à região Nordeste não se aplique ao século XIX, uma vez que o Nordeste é uma construção discursiva datada das décadas de 20 e 30 deste século, o seu uso, neste trabalho, tem como objetivo facilitar a compreensão dos processos que tratamos. Para entender o Nordeste como uma invenção discursiva, ver: Albuquerque Júnior, 1999. |
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