Universidade de São Paulo Faculdade de Engenharia de Sorocaba Banco Credibel S/A
 
Sobre o Labi Arte e Imagem Contato Agenda Cidadania e Movimentos Sociais Links Artigos e Publicações
Artigos e Publicações


Atravessando fronteiras: movimentos migratórios na história do Brasil.
por Helenilda Cavalcanti e Isabel Guillen



Ao se dedicar a pensar a formação econômica da Amazônia, Celso Furtado considera a migração nordestina para a região como única solução para a produção da borracha, cuja extração se baseava exclusivamente na extensão da mão-de-obra e na expansão da área produtiva. E conclui que, “excluídas as conseqüências políticas que possa ter tido e o enriquecimento fortuito de reduzido grupo, o grande movimento de população nordestina para a Amazônia consistiu basicamente em um enorme desgaste humano em uma etapa em que o problema fundamental da economia brasileira era aumentar a oferta de mão-de-obra” (Furtado, 1963, pág. 164). É quase invariavelmente na linha do “desgaste humano”, apontada por Celso Furtado, que os dados censitários são constantemente arrolados e a experiência da migração nordestina para a região dos seringais, reduzida.

Ora, não há como estabelecer discordância com alguns desses argumentos, já que, efetivamente, a brutalidade do sistema de aviamento implantado nos seringais acarretou uma dilapidação do capital humano arregimentado para ocupar a Amazônia nos moldes extrativistas. Não é preciso aqui nos estendermos em descrições sobre as misérias vividas nos seringais, a violência praticada pelos proprietários, a espoliação, fome e miséria que acompanharam o cotidiano desses homens que viveram a ilusão do ouro negro, como se tornou conhecida a extração da borracha. Euclides da Cunha descreveu, em páginas magistrais, a dor de se ver só na floresta, sem possibilidade de voltar atrás, no conto Judas Asvero, e o sistema de aviamento que aprisionava o seringueiro, em Os seringais, páginas essas que têm causado mais impacto do que muitas análises demográficas (Cunha, 1994).

Ao inserirmos aqui Euclides da Cunha, fazem-lo no sentido de lembrar que o problema consiste em, ao se fazer a história, relegar o migrante-seringueiro à eterna condição de vítima e tornar irredutível sua experiência, ou seja, pensar que, ao se falar sobre os horrores que os migrantes viveram, se disse tudo. E pior, que esses horrores nenhum significado tiveram para a história, podendo ser esquecidos sem ônus algum, como se sua história pudesse ser reduzida ao “desgaste humano”.

Os migrantes tiveram que enfrentar, num ambiente em tudo diferente daquele por eles conhecido, uma série de problemas socioculturais, cujas soluções resultaram num modo de vida próprio. Tão logo chegava ao seringal, era chamado de bravo aquele que desconhecia os segredos da floresta, para, ao longo dos anos, tornar-se manso aquele que tinha se adaptado ao modo de vida dominante. Para sobreviver, o migrante necessitava aprender os diversos segredos da floresta, os tipos de madeira utilizados para os fins mais diversos, os frutos que podia coletar para complementar sua dieta alimentar, os cuidados da roça necessários naquele ambiente e diversos daqueles a que estava acostumado, se fosse agricultor. Devia aprender, também, os modos de se pescar na Amazônia, dependendo do peixe que se quer consumir, ou mesmo do local onde se vai pescar, ou da época do ano. Precisava, igualmente, aprender os hábitos dos animais que podiam ser caçados, se quisesse variar sua alimentação. Desse modo, o migrante, ao chegar ao seringal, não só precisava aprender o processo de trabalho, mas reordenar grande parte das suas relações socioculturais com significados íntimos nem sempre perceptíveis.

Em muitos depoimentos recolhidos, o ato de migrar pode ser entendido como resistência, não só à exploração e à dominação existentes no local de origem, e que produzem a exclusão social, mas sobretudo de se ver fixado, emoldurado nesse lugar social e simbólico. Migrar é exercer o desejo de mudar, de não se conformar (Póvoa Neto, 1994).

Enricar, arrumar recursos, ficar rico, são expressões recorrentes nos depoimentos recolhidos. Ilusão ou não, este é sem dúvida o impulsionador da grande maioria dos migrantes, numa clara expressão do desejo de abolir a exclusão social.

“...e a gente tinha aquela garra de prosperar de querer ter e diziam que o Pará tinha muita mata. Chegamos à colônia Augusto Montenegro, de lá foi para Belterra e acabou no planalto: nós queríamos prosperar.”[4]




Nos depoimentos recolhidos por Samuel Benchimol, em 1942, a saída do Nordeste é sentida com muito pesar, pois, para a grande maioria, não fosse a seca, nunca haveria a necessidade de migrar. Em alguns depoimentos, contudo, destaca-se uma nítida percepção das condições de sujeição do trabalhador, como parte das estruturas de poder vigentes no Nordeste. Por isso, alguns migraram e não quizeram mais voltar:

“Eu não possuo nada. Pra que voltar para a terra dos outros? Lá só se vive na sujeição. Se se tira três alqueires de farinha, um é pro dono da terra. Em tudo ele tem um terço. Quero trabalhar pra mim mesmo. Não gosto de viver alugado” (Benchimol, 1992, pág. 157).

 


Os sentimentos em relação à terra natal são bastante ambíguos, pois tanto revelam a desilusão e a revolta social contra a sujeição, como um intenso desejo de ficar um tempo, enricar e poder voltar com uma condição melhor. No entanto, a experiência como lavrador nordestino, que todo ano espera a chuva no dia de São José para saber se haverá seca ou inverno, ou como criador de gado, ou até mesmo como citadino que se deixou levar pela aventura, não lhe dá sustentação alguma diante da natureza amazônica, pois seus referentes naturais não mais são válidos. Para o bravo que se aproxima do seringal, não há voz da experiência que o oriente no dia-a-dia de trabalho. A perda do referencial espaço-temporal e sua reconstrução necessária para o migrante fazem com que toda experiência apareça como fragmentária:

“Achava tudo esquisito, diferente dos costumes lá da minha terra. Tive muita vontade de voltar, mas de nada adiantava porque não tinha com que. O jeito que tive foi eu me amansar na terra. Desde esse tempo virei seringueiro” (Benchimol, 1992 pág. 131).




É importante observar que manso significa não só ter o conhecimento da natureza amazônica, mas tem também uma conotação de sujeição, já que, uma vez que não pôde voltar, o jeito que encontrou foi se “amansar na terra”.

A oposição entre seca e fartura de água ocupa um lugar emblemático no processo de hibridação cultural. Tal oposição faz com que aos migrantes as diferenças naturais e culturais se exacerbassem, já que tornar-se manso significava colocar em confronto os desejos que o motivaram a migrar e a vida cotidiana na Amazônia. Nesse contexto, o Nordeste a que se refere o migrante não é mais o Nordeste real, mas aparece mitificado, o lugar simbólico da origem. O sofrimento ocasionado pela seca é imediatamente esquecido no momento em que o migrante precisa reformular seus referenciais ambientais e a abundância de água aparece como um empecilho aos movimentos, ao andar livre. Essa relação com o espaço tomado pelas águas, os segredos de se locomover pelos rios e igarapés, foi, sem dúvida, um dos elementos naturais que os migrantes mais estranharam.

O processo de adaptação é doloroso, longo. Amansar-se significa não só adquirir o saber necessário para a sobrevivência, mas submeter-se à terra e aos novos costumes. Como afirmou um dos migrantes entrevistados por Benchimol: “Quem não se alisa, morre.” Mas não é só o homem que se amansa, também a terra selvagem, à medida que a civilização e a modernidade nela imprimem suas marcas: “O Acre agora está manso. O avião está passando todo dia arriba de nós” (Benchimol, 1992 pág. 166).

Os homens se amansaram na terra, desvendaram seus segredos, casaram e tiveram filhos. Ao final do boom da borracha, muitos migrantes recobraram sua experiência de agricultores, adaptaram-se aos costumes e se estabeleceram na calha do Solimões. Referindo-se aos bravos que chegavam em 1942, um migrante sintonizou seu passado com as perspectivas de futuro para os bravos:

“Mais cedo ou mais tarde eles se desiludem como eu. Quando se desenganarem, não podendo voltar para o Ceará, como eu e todos os outros, vêm povoar as beiras dos rios e dos lagos. Se misturam com as caboclas, têm filhos delas e não saem mais daqui” (Benchimol, 1992 pág. 156).




Alguns desses migrantes, que nunca tinham vindo para a Amazônia, já sentiam familiaridade com o ambiente e com o trabalho, como se migrar fosse uma herança passada de pai para filho:

“O meu velho veio oito vezes ao Amazonas. Quando em casa faltava dinheiro, ele dizia que ia arranjar dinheiro e batia para cá. Dois, três anos depois voltava com os recurso pra gente viver. Esteve no Juruá, Javari, Acre, Madeira, Xingu. Conhecia bem o Amazonas todo. Ele sempre contava histórias daqui que nos entusiasmavam. De forma que quando eu cresci sempre desejei conhecer o Amazonas, pois da primeira vez era muito pequeno. Mas o velho, todo o dinheiro que levava daqui era para ser derrotado no Ceará. Eu agora vim ocupar o lugar dele, desde que ele morreu” (Benchimol, 1992, pág. 135).






Mesmo porque, ainda que se volte, o sertão é tido como uma terra ingrata que sempre os expulsa. Lá, para parcela significativa dos entrevistados, “só se vive na sujeição”. A volta é, em muitos casos, colocada como a possibilidade de uma nova derrota:

“ Voltei duas vezes à Paraíba, porque eu queria ver meus pais. Voltei só para perder o dinheiro que eu arranjava aqui” (Benchimol, 1992, pág. 127).



Sobretudo, há que destacar essa familiaridade com a migração para a Amazônia, esse destino posto no horizonte, que nada mais é do que a expressão dos trajetos socioculturais do circuito histórico que percorrem o Nordeste e a Amazônia. Sob a lógica do pensamento sedentário, esse circuito foi descrito como um atavismo social, herança das tribos indígenas, ancestrais nômades de todos os brasileiros. No entanto, para os bravos que chegavam à Amazônia naqueles anos de guerra, restava a esperança de se darem bem na terra, “enricar” no seringal, ou conseguirem terras para sustentar a família que veio junto.

É fácil imprimir-se um sentido bucólico às migrações: sonho de refazer a vida, ou fugir do mandonismo local. Ainda que verdadeiras, tais colocações não podem ocultar o constante desemprego e subemprego a que grande parte da população deste país tem sido submetida. A extrema mobilidade da população trabalhadora é um dado a ser encarado não bucolicamente, pois revela que se perseguem sonhos, mas também a elementar sobrevivência. Podemos resgatar fragmentos de vidas de homens que saíram do Nordeste no início do século para os seringais, destes para a coleta de castanhas, daí para os garimpos de diamantes, num permanente recomeçar a vida. Destas vidas não há história, apenas referências pontuais. São pessoas que, parafraseando Thompson, não planejaram suas vidas, como hoje planejamos nossas carreiras, pois viviam em plena instabilidade, ao sabor das circunstâncias que poderiam encontrar pelo caminho.[5]

Homens que foram à procura de outro destino em outras regiões do país. Talvez homens que não tenham querido submeter-se aos sistemas de dominação consagrados no Nordeste, postos como legítimos pelo discurso da elite. Homens cujas vidas foram esvaziadas de sentido para conferi-lo aos movimentos do capital, da expansão da fronteira. O desenraizamento, entendido também como exclusão, reflete-se na história pela perda do passado, de um direito a um passado que não seja simples memória, que se apresenta de forma fragmentária e pontual, destituída de significado.

Não é tarefa do historiador racionalizar o esquecimento. “O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história” (Benjamin, 1985, pág. 223). Todo movimento dos migrantes que foram para os seringais, seja fugindo do mandonismo local, seja perseguindo desejos de enriquecer, movimento claro de recusa à sua inserção no movimento do capital, foi qualificado por muitos historiadores como economicamente improdutivo. Seria necessário, mais uma vez, relembrar o prefácio de Thompson para A formação da classe trabalhadora inglesa, de que eles viveram como expectativa o que para nós é história, e que, portanto, é preciso pensar essa experiência com olhos menos condescendentes?

Especificamente no caso que estamos discutindo, os migrantes que se dirigiram para a Amazônia nos anos da Segunda Guerra Mundial, os Soldados da Borracha, viram-se abandonados de qualquer assistência tão logo terminou a campanha, e não tiveram cumpridas as promessas apregoadas no momento da arregimentação. Muitos não conseguiram recursos para voltar para suas casas e acabaram se amansando na Amazônia. No entanto, não deixaram de reivindicar os direitos trabalhistas a que achavam que faziam jus, principalmente o direito de aposentadoria. Ao longo de muitos anos, só na década de 80, o governo federal concedeu a aposentadoria para aos Soldados da Borracha como trabalhadores rurais.


V. Os Nordestinos e as mil faces de São Paulo

São Paulo é a cidade das indústrias... São Paulo é a cidade da miséria... São Paulo é a cidade da resistência... Essas três qualidades: indústria, miséria e resistência, que cresceram pari passu com a população, representam o que se poderia chamar de características básicas da urbanização das cidades do Terceiro Mundo( Goldsmith.1994). Na Grande São Paulo, vivem cerca de 12% dos 160 milhões de habitantes do Brasil, dentre os quais parcela significativa é de migrantes nordestinos ou seus descendentes. Convivem com outros migrantes, oriundos de outras regiões e etnias diversas, estrangeiros e nacionais, que, na heterogeneidade da geografia humana, apontam para uma sociedade plural. No seu solo, diferentes mundos e diferentes povos confrontam-se, diferentes subjetividades e identidades são construídas, dando lugar a cruzamentos socioculturais dentro de um contexto de “heterogeneidade multitemporal”( Cancline. 1997).

É importante salientar que a migração se encontra articulada com processos macros. No momento em que regiões “pobres” possuem uma reserva de “força de trabalho” humana que tende a migrar para regiões relativamente mais “ricas” em empregos, temos aí um fenômeno que, para Sayad (2000), constitui-se em um indicador de desenvolvimento desigual, que separa as regiões de imigração das de emigração. Entre esses dois pólos, há uma assimetria de relações de força: as materiais e, grosso modo, econômicas, e as simbólicas, isto é, de prestígio, que opõem duas categorias de regiões: os dominantes e os dominados. Encontramos aí uma relação de dominação localizada no cerne do próprio princípio dessa transferência, constituindo, sobretudo, o padrão de medida dessa dominação. A migração dos nordestinos para São Paulo, ao longo de sua história, aponta para essa dupla relação desigual, presidida pela lógica da exclusão do sistema econômico, que é ampliada, hoje, dentro da escala maior da economia mundial.

O primeiro grande surto migratório em direção à cidade de São Paulo aconteceu ao longo de 1930-1950. Em decorrência de sua expansão industrial, que se concretiza após a II Guerra Mundial, São Paulo consegue atrair um expressivo contingente de populações do meio rural das cidades interioranas do próprio Estado e de outros centros urbanos. No entanto, ainda pairava sobre o trabalhador nacional a pecha de vadiagem e de imprestabilidade para o trabalho. No período da migração (1930-1950), essas representações são abafadas, em função de novos e mais dinâmicos setores da economia urbana. Com o aproveitamento da mão-de-obra nacional, o sistema produtivo localizado no Centro-Sul e o próprio movimento dos trabalhadores nacionais, que se deslocam em busca de trabalho e de novas relações sociais, modificam a classe dos trabalhadores, formada, dentre outros segmentos, por grande número de migrantes nordestinos.

Entre 1970 e 1990, a população da Grande São Paulo mais que duplicou. Na década de 70, o crescimento foi de 445 mil habitantes por ano. Entre 1980 e 1990, cresceu em torno de 486 mil habitantes por ano ( Goldsmith 1994). Nesse crescimento, registra-se um povoamento múltiplo, heterogêneo, no qual se encontram trabalhadores de diferentes origens, vivendo experiências de conflitos e disputas, sobretudo pelo contexto generalizado de corrida ao trabalho.

Reafirmamos que as transformações em torno da economia do país não ocorreram sem a participação da classe trabalhadora envolvida. Na década de 70, já se assistia a uma dinâmica dos movimentos sociais que iam além dos partidos políticos e sindicatos. No final da década de 80, a sociedade estava marcada por várias crises: a crise econômica, a crise das formas tradicionais de fazer política, a crise das clássicas organizações centralizadoras ( partidos, sindicatos), a crise do encaminhamento dos grupos de esquerda. Em conseqüência, surge uma série de iniciativas na forma de fazer política na vida cotidiana. É uma redescoberta do cotidiano que começa a enriquecer os diversos movimentos sociais, as organizações não-governamentais preocupadas em interagir com os diversos grupos sociais e com a classe trabalhadora. A razão desse novo processo tem, dentre outros motivos, o desejo de realizar na prática da vida cotidiana, por meio da sobrevivência, o sonho de uma sociedade livre e mais humana (Warren e Krischke. 1987).

Nos meados de 80 e 90, o setor produtivo do país, concentrado principalmente no Centro-Sul, sofre fluxos e refluxos. Na metade dos anos 90, o incentivo à privatização da economia e à menor participação do Estado na regulamentação da economia de mercado internacionalizado permitiu que o imperativo econômico retirasse do setor produtivo da economia empresas nacionais que não conseguiam competir com as novas exigências do mercado globalizado, levando um contingente de 10,375 milhões de trabalhadores do país ao desemprego, segundo dados do SEADE/DIEESE. (27/6/99 P. 6) principalmente os mais pobres e menos escolarizados.

No Nordeste, ocorriam também mudanças na estrutura produtiva. Nesse processo de reacomodação da ordem econômica do país configurada nas suas últimas décadas, o Nordeste também passa por transformações. Tânia Bacelar de Araújo analisa essa nova situação do Nordeste, salientando que “visões consagradas sobre a região do Nordeste que a caracterizava como uma “região problema”, uma “região de miséria” e uma “região de seca”, com agenciadores produtivos conservadores, vão tomando outra conformação com novos focos de dinamismo regional”(Araújo. 1997). São manchas ou focos de dinamismo concentrados em alguns setores produtivos e em regiões de desenvolvimento específico que favorecem a economia de exportação e acompanham o trajeto seletivo da globalização em detrimento da população trabalhadora mais geral.

Portanto, compreender as mil faces de São Paulo e as diversas subjetividades e identidades que aí se formam nos instiga a perceber os desencontros entre as regiões de imigração e as de emigração. Leva-nos, igualmente, a ver as diversas territorialidades que são construídas na metrópole paulistana, dentro da qual se tenta conciliar uma diversidade étnica e sociocultural trazida por diferentes povos e, de modo particular, pelo segmento social dos migrantes nordestinos.

A frase de um migrante vindo do Estado de Alagoas, desabrigado, em São Paulo, ao falar de sua experiência como migrante, sintetiza com perspicácia essa tensão entre mundos diversos que ele tenta conciliar: “ A sociedade nos despreza, mas a cidade não.”A sua frase traz a lúcida percepção do desencontro entre o migrante “construtor de cidade” e a sociedade para a qual ele migra. São diferenças que, em vez de serem pensadas dentro de um dualismo esquemático, no qual os migrantes vindos do interior do Nordeste e o centro de São Paulo seriam tomados como redutos do atraso e do progresso, aparecem, todavia, para colocar em cena as contradições e os dilemas do confronto entre culturas. A frase citada também traz em si o inconformismo desses sujeitos sem rosto e sem nome, com respeito à negação da sociedade a um espaço na cidade. Seus movimentos para ficar na cidade apontam táticas de espera, uma vigília para captar no vôo possibilidades de ganho. O notável disso tudo é a liberdade de poder sonhar por um lugar. A subjetividade aí articula-se entre sonhos e práticas, para inaugurar a possibilidade de o sujeito se localizar.

Um oportuno artigo publicado pela Folha de São Paulo, da autoria de Marcelo Rubens Paiva, revela que integrantes da tribo pankararu, que viviam em Paulo Afonso, Pernambuco, ao serem expulsos de suas terras migraram para São Paulo e se agruparam na favela de Real Parque, na zona sul.(2/3/1997 P.4 ) Essa realidade do êxodo dos Pankararu ilustra, à semelhança de outras etnias, o drama de populações nordestinas que, ao saírem de suas terras por circunstâncias contraditórias, tentam fincar uma base na metrópole de São Paulo, que eles ajudaram a construir com sem trabalho.

Por sua vez, esse encontro com o espaço da modernidade é uma mistura das diferenças, implica permanentemente revelar as faces de muitas realidades que se cruzam nos lugares menos esperados, mas que são parte de uma realidade maior que transforma reciprocamente vidas e cenários. De modo geral, a migração é um encontro de alteridades, em que cada um tem representações e imagens do outro, elaboradas no arcabouço mental e material em que estamos inseridos, e que também envolve trocas e possíveis mudanças, porque vivemos juntos, com diferentes papéis, sob diferentes tensões. São Paulo é, de modo emblemático, uma cidade de todos os territórios, ou, pelo menos, mostra-se um campo fértil para a construção desses territórios, o que, sem dúvida, não se realiza sem que ocorra um sem-número de conflitos.

Dentro dessa perspectiva, ao pensarmos o movimento migratório nordestino em direção à cidade de São Paulo, localizamo-lo a partir de práticas históricas sociais, como um movimento com implicações no mercado de trabalho, com impactos igualmente na cultura, tendo a participação dos próprios migrantes como agentes desses processos.

Para analisarmos essas questões, utilizaremos a experiência de um grupo de migrantes nordestinos que se deslocou do povoado de São Severino, município de Gravatá, Pernambuco, para a periferia de São Paulo, em Pirituba. As observações sobre esse grupo social fazem parte de uma pesquisa realizada no período de 1995 a 1997, cujo objetivo era estudar o imaginário dessa população com relação às suas práticas de saída da pobreza(Cavalcanti. 1999).

Primeira PáginaPágina AnteriorPróxima PáginaÚltima Página



[4] Depoimento de um migrante nordestino em Santarém, PA, apud: Leroy, 1991, pág. 53.

[5] “Sabendo o que os espera, alguns jovens saem de casa e, uma vez na vida, ganham a estrada para “ver o mundo”. Deste modo, as oportunidades são aproveitadas à medida que surgem, com pouca reflexão sobre as conseqüências, assim como a multidão impõe seu poder nos momentos de insurreição direta, sabendo que o seu triunfo não vai durar mais do que uma semana ou um dia” (Thompson, 1998, pág. 21-22).

 
  Indicar esta página a um amigo

Artigos e Publicações | Links | Cidadanias e Movimentos Sociais | Arte e Imagem | Sobre o Labi
Agenda | Contato | Últimas Novidades | Banco de Dados NIME/LABI