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Artigos
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Ao
se dedicar a pensar a formação econômica da Amazônia,
Celso Furtado considera a migração nordestina para a
região como única solução para a produção
da borracha, cuja extração se baseava exclusivamente
na extensão da mão-de-obra e na expansão da área
produtiva. E conclui que, “excluídas as conseqüências
políticas que possa ter tido e o enriquecimento fortuito de
reduzido grupo, o grande movimento de população nordestina
para a Amazônia consistiu basicamente em um enorme desgaste
humano em uma etapa em que o problema fundamental da economia brasileira
era aumentar a oferta de mão-de-obra” (Furtado, 1963,
pág. 164). É quase invariavelmente na linha do “desgaste
humano”, apontada por Celso Furtado, que os dados censitários
são constantemente arrolados e a experiência da migração
nordestina para a região dos seringais, reduzida.
Ora, não há como estabelecer discordância com
alguns desses argumentos, já que, efetivamente, a brutalidade
do sistema de aviamento implantado nos seringais acarretou uma dilapidação
do capital humano arregimentado para ocupar a Amazônia nos moldes
extrativistas. Não é preciso aqui nos estendermos em
descrições sobre as misérias vividas nos seringais,
a violência praticada pelos proprietários, a espoliação,
fome e miséria que acompanharam o cotidiano desses homens que
viveram a ilusão do ouro negro, como se tornou conhecida a
extração da borracha. Euclides da Cunha descreveu, em
páginas magistrais, a dor de se ver só na floresta,
sem possibilidade de voltar atrás, no conto Judas Asvero,
e o sistema de aviamento que aprisionava o seringueiro, em Os seringais,
páginas essas que têm causado mais impacto do que muitas
análises demográficas (Cunha, 1994). Ao
inserirmos aqui Euclides da Cunha, fazem-lo no sentido de lembrar
que o problema consiste em, ao se fazer a história, relegar
o migrante-seringueiro à eterna condição de vítima
e tornar irredutível sua experiência, ou seja, pensar
que, ao se falar sobre os horrores que os migrantes viveram, se disse
tudo. E pior, que esses horrores nenhum significado tiveram para a
história, podendo ser esquecidos sem ônus algum, como
se sua história pudesse ser reduzida ao “desgaste humano”.
Os migrantes tiveram que enfrentar, num ambiente em tudo diferente
daquele por eles conhecido, uma série de problemas socioculturais,
cujas soluções resultaram num modo de vida próprio.
Tão logo chegava ao seringal, era chamado de bravo aquele
que desconhecia os segredos da floresta, para, ao longo dos anos,
tornar-se manso aquele que tinha se adaptado ao modo de vida
dominante. Para sobreviver, o migrante necessitava aprender os diversos
segredos da floresta, os tipos de madeira utilizados para os fins
mais diversos, os frutos que podia coletar para complementar sua dieta
alimentar, os cuidados da roça necessários naquele ambiente
e diversos daqueles a que estava acostumado, se fosse agricultor.
Devia aprender, também, os modos de se pescar na Amazônia,
dependendo do peixe que se quer consumir, ou mesmo do local onde se
vai pescar, ou da época do ano. Precisava, igualmente, aprender
os hábitos dos animais que podiam ser caçados, se quisesse
variar sua alimentação. Desse modo, o migrante, ao chegar
ao seringal, não só precisava aprender o processo de
trabalho, mas reordenar grande parte das suas relações
socioculturais com significados íntimos nem sempre perceptíveis.
Em
muitos depoimentos recolhidos, o ato de migrar pode ser entendido
como resistência, não só à exploração
e à dominação existentes no local de origem,
e que produzem a exclusão social, mas sobretudo de se ver fixado,
emoldurado nesse lugar social e simbólico. Migrar é
exercer o desejo de mudar, de não se conformar (Póvoa
Neto, 1994). Enricar,
arrumar recursos, ficar rico, são expressões recorrentes
nos depoimentos recolhidos. Ilusão ou não, este é
sem dúvida o impulsionador da grande maioria dos migrantes,
numa clara expressão do desejo de abolir a exclusão
social.
Os sentimentos em relação à terra natal são bastante ambíguos, pois tanto revelam a desilusão e a revolta social contra a sujeição, como um intenso desejo de ficar um tempo, enricar e poder voltar com uma condição melhor. No entanto, a experiência como lavrador nordestino, que todo ano espera a chuva no dia de São José para saber se haverá seca ou inverno, ou como criador de gado, ou até mesmo como citadino que se deixou levar pela aventura, não lhe dá sustentação alguma diante da natureza amazônica, pois seus referentes naturais não mais são válidos. Para o bravo que se aproxima do seringal, não há voz da experiência que o oriente no dia-a-dia de trabalho. A perda do referencial espaço-temporal e sua reconstrução necessária para o migrante fazem com que toda experiência apareça como fragmentária:
É
importante observar que manso significa não só ter o
conhecimento da natureza amazônica, mas tem também uma
conotação de sujeição, já que,
uma vez que não pôde voltar, o jeito que encontrou foi
se “amansar na terra”. A
oposição entre seca e fartura de água ocupa um
lugar emblemático no processo de hibridação cultural.
Tal oposição faz com que aos migrantes as diferenças
naturais e culturais se exacerbassem, já que tornar-se manso
significava colocar em confronto os desejos que o motivaram a migrar
e a vida cotidiana na Amazônia. Nesse contexto, o Nordeste a
que se refere o migrante não é mais o Nordeste real,
mas aparece mitificado, o lugar simbólico da origem. O sofrimento
ocasionado pela seca é imediatamente esquecido no momento em
que o migrante precisa reformular seus referenciais ambientais e a
abundância de água aparece como um empecilho aos movimentos,
ao andar livre. Essa relação com o espaço tomado
pelas águas, os segredos de se locomover pelos rios e igarapés,
foi, sem dúvida, um dos elementos naturais que os migrantes
mais estranharam.
O processo de adaptação é doloroso, longo. Amansar-se
significa não só adquirir o saber necessário
para a sobrevivência, mas submeter-se à terra e aos novos
costumes. Como afirmou um dos migrantes entrevistados por Benchimol:
“Quem não se alisa, morre.” Mas não é
só o homem que se amansa, também a terra selvagem, à
medida que a civilização e a modernidade nela imprimem
suas marcas: “O Acre agora está manso. O avião
está passando todo dia arriba de nós” (Benchimol,
1992 pág. 166). Os
homens se amansaram na terra, desvendaram seus segredos, casaram e
tiveram filhos. Ao final do boom da borracha, muitos migrantes
recobraram sua experiência de agricultores, adaptaram-se aos
costumes e se estabeleceram na calha do Solimões. Referindo-se
aos bravos que chegavam em 1942, um migrante sintonizou seu passado
com as perspectivas de futuro para os bravos:
Mesmo
porque, ainda que se volte, o sertão é tido como uma
terra ingrata que sempre os expulsa. Lá, para parcela significativa
dos entrevistados, “só se vive na sujeição”.
A volta é, em muitos casos, colocada como a possibilidade de
uma nova derrota:
É
fácil imprimir-se um sentido bucólico às migrações:
sonho de refazer a vida, ou fugir do mandonismo local. Ainda que verdadeiras,
tais colocações não podem ocultar o constante
desemprego e subemprego a que grande parte da população
deste país tem sido submetida. A extrema mobilidade da população
trabalhadora é um dado a ser encarado não bucolicamente,
pois revela que se perseguem sonhos, mas também a elementar
sobrevivência. Podemos resgatar fragmentos de vidas de homens
que saíram do Nordeste no início do século para
os seringais, destes para a coleta de castanhas, daí para os
garimpos de diamantes, num permanente recomeçar a vida. Destas
vidas não há história, apenas referências
pontuais. São pessoas que, parafraseando Thompson, não
planejaram suas vidas, como hoje planejamos nossas carreiras, pois
viviam em plena instabilidade, ao sabor das circunstâncias que
poderiam encontrar pelo caminho.[5] Homens
que foram à procura de outro destino em outras regiões
do país. Talvez homens que não tenham querido submeter-se
aos sistemas de dominação consagrados no Nordeste, postos
como legítimos pelo discurso da elite. Homens cujas vidas foram
esvaziadas de sentido para conferi-lo aos movimentos do capital, da
expansão da fronteira. O desenraizamento, entendido também
como exclusão, reflete-se na história pela perda do
passado, de um direito a um passado que não seja simples memória,
que se apresenta de forma fragmentária e pontual, destituída
de significado. Não
é tarefa do historiador racionalizar o esquecimento. “O
cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes
e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu
pode ser considerado perdido para a história” (Benjamin,
1985, pág. 223). Todo movimento dos migrantes que foram para
os seringais, seja fugindo do mandonismo local, seja perseguindo desejos
de enriquecer, movimento claro de recusa à sua inserção
no movimento do capital, foi qualificado por muitos historiadores
como economicamente improdutivo. Seria necessário, mais uma
vez, relembrar o prefácio de Thompson para A formação
da classe trabalhadora inglesa, de que eles viveram como expectativa
o que para nós é história, e que, portanto, é
preciso pensar essa experiência com olhos menos condescendentes?
Especificamente
no caso que estamos discutindo, os migrantes que se dirigiram para
a Amazônia nos anos da Segunda Guerra Mundial, os Soldados da
Borracha, viram-se abandonados de qualquer assistência tão
logo terminou a campanha, e não tiveram cumpridas as promessas
apregoadas no momento da arregimentação. Muitos não
conseguiram recursos para voltar para suas casas e acabaram se amansando
na Amazônia. No entanto, não deixaram de reivindicar
os direitos trabalhistas a que achavam que faziam jus, principalmente
o direito de aposentadoria. Ao longo de muitos anos, só na
década de 80, o governo federal concedeu a aposentadoria para
aos Soldados da Borracha como trabalhadores rurais.
São
Paulo é a cidade das indústrias... São Paulo
é a cidade da miséria... São Paulo é a
cidade da resistência... Essas três qualidades: indústria,
miséria e resistência, que cresceram pari passu com
a população, representam o que se poderia chamar de
características básicas da urbanização
das cidades do Terceiro Mundo( Goldsmith.1994). Na Grande São
Paulo, vivem cerca de 12% dos 160 milhões de habitantes do
Brasil, dentre os quais parcela significativa é de migrantes
nordestinos ou seus descendentes. Convivem com outros migrantes, oriundos
de outras regiões e etnias diversas, estrangeiros e nacionais,
que, na heterogeneidade da geografia humana, apontam para uma sociedade
plural. No seu solo, diferentes mundos e diferentes povos confrontam-se,
diferentes subjetividades e identidades são construídas,
dando lugar a cruzamentos socioculturais dentro de um contexto de
“heterogeneidade multitemporal”( Cancline. 1997). É
importante salientar que a migração se encontra articulada
com processos macros. No momento em que regiões “pobres”
possuem uma reserva de “força de trabalho” humana
que tende a migrar para regiões relativamente mais “ricas”
em empregos, temos aí um fenômeno que, para Sayad (2000),
constitui-se em um indicador de desenvolvimento desigual, que separa
as regiões de imigração das de emigração.
Entre esses dois pólos, há uma assimetria de relações
de força: as materiais e, grosso modo, econômicas, e
as simbólicas, isto é, de prestígio, que opõem
duas categorias de regiões: os dominantes e os dominados. Encontramos
aí uma relação de dominação localizada
no cerne do próprio princípio dessa transferência,
constituindo, sobretudo, o padrão de medida dessa dominação.
A migração dos nordestinos para São Paulo, ao
longo de sua história, aponta para essa dupla relação
desigual, presidida pela lógica da exclusão do sistema
econômico, que é ampliada, hoje, dentro da escala maior
da economia mundial. O
primeiro grande surto migratório em direção à
cidade de São Paulo aconteceu ao longo de 1930-1950. Em decorrência
de sua expansão industrial, que se concretiza após a
II Guerra Mundial, São Paulo consegue atrair um expressivo
contingente de populações do meio rural das cidades
interioranas do próprio Estado e de outros centros urbanos.
No entanto, ainda pairava sobre o trabalhador nacional a pecha de
vadiagem e de imprestabilidade para o trabalho. No período
da migração (1930-1950), essas representações
são abafadas, em função de novos e mais dinâmicos
setores da economia urbana. Com o aproveitamento da mão-de-obra
nacional, o sistema produtivo localizado no Centro-Sul e o próprio
movimento dos trabalhadores nacionais, que se deslocam em busca de
trabalho e de novas relações sociais, modificam a classe
dos trabalhadores, formada, dentre outros segmentos, por grande número
de migrantes nordestinos.
Entre 1970 e 1990, a população da Grande São
Paulo mais que duplicou. Na década de 70, o crescimento foi
de 445 mil habitantes por ano. Entre 1980 e 1990, cresceu em torno
de 486 mil habitantes por ano ( Goldsmith 1994). Nesse crescimento,
registra-se um povoamento múltiplo, heterogêneo, no qual
se encontram trabalhadores de diferentes origens, vivendo experiências
de conflitos e disputas, sobretudo pelo contexto generalizado de corrida
ao trabalho. Reafirmamos
que as transformações em torno da economia do país
não ocorreram sem a participação da classe trabalhadora
envolvida. Na década de 70, já se assistia a uma dinâmica
dos movimentos sociais que iam além dos partidos políticos
e sindicatos. No final da década de 80, a sociedade estava
marcada por várias crises: a crise econômica, a crise
das formas tradicionais de fazer política, a crise das clássicas
organizações centralizadoras ( partidos, sindicatos),
a crise do encaminhamento dos grupos de esquerda. Em conseqüência,
surge uma série de iniciativas na forma de fazer política
na vida cotidiana. É uma redescoberta do cotidiano que começa
a enriquecer os diversos movimentos sociais, as organizações
não-governamentais preocupadas em interagir com os diversos
grupos sociais e com a classe trabalhadora. A razão desse novo
processo tem, dentre outros motivos, o desejo de realizar na prática
da vida cotidiana, por meio da sobrevivência, o sonho de uma
sociedade livre e mais humana (Warren e Krischke. 1987). Nos
meados de 80 e 90, o setor produtivo do país, concentrado principalmente
no Centro-Sul, sofre fluxos e refluxos. Na metade dos anos 90, o incentivo
à privatização da economia e à menor participação
do Estado na regulamentação da economia de mercado internacionalizado
permitiu que o imperativo econômico retirasse do setor produtivo
da economia empresas nacionais que não conseguiam competir
com as novas exigências do mercado globalizado, levando um contingente
de 10,375 milhões de trabalhadores do país ao desemprego,
segundo dados do SEADE/DIEESE. (27/6/99 P. 6) principalmente os mais
pobres e menos escolarizados.
No Nordeste, ocorriam também mudanças na estrutura produtiva.
Nesse processo de reacomodação da ordem econômica
do país configurada nas suas últimas décadas,
o Nordeste também passa por transformações. Tânia
Bacelar de Araújo analisa essa nova situação
do Nordeste, salientando que “visões consagradas sobre
a região do Nordeste que a caracterizava como uma “região
problema”, uma “região de miséria”
e uma “região de seca”, com agenciadores produtivos
conservadores, vão tomando outra conformação
com novos focos de dinamismo regional”(Araújo. 1997).
São manchas ou focos de dinamismo concentrados em alguns setores
produtivos e em regiões de desenvolvimento específico
que favorecem a economia de exportação e acompanham
o trajeto seletivo da globalização em detrimento da
população trabalhadora mais geral. Portanto,
compreender as mil faces de São Paulo e as diversas subjetividades
e identidades que aí se formam nos instiga a perceber os desencontros
entre as regiões de imigração e as de emigração.
Leva-nos, igualmente, a ver as diversas territorialidades que são
construídas na metrópole paulistana, dentro da qual
se tenta conciliar uma diversidade étnica e sociocultural trazida
por diferentes povos e, de modo particular, pelo segmento social dos
migrantes nordestinos. A
frase de um migrante vindo do Estado de Alagoas, desabrigado, em São
Paulo, ao falar de sua experiência como migrante, sintetiza
com perspicácia essa tensão entre mundos diversos que
ele tenta conciliar: “ A sociedade nos despreza, mas a cidade
não.”A sua frase traz a lúcida percepção
do desencontro entre o migrante “construtor de cidade”
e a sociedade para a qual ele migra. São diferenças
que, em vez de serem pensadas dentro de um dualismo esquemático,
no qual os migrantes vindos do interior do Nordeste e o centro de
São Paulo seriam tomados como redutos do atraso e do progresso,
aparecem, todavia, para colocar em cena as contradições
e os dilemas do confronto entre culturas. A frase citada também
traz em si o inconformismo desses sujeitos sem rosto e sem nome, com
respeito à negação da sociedade a um espaço
na cidade. Seus movimentos para ficar na cidade apontam táticas
de espera, uma vigília para captar no vôo possibilidades
de ganho. O notável disso tudo é a liberdade de poder
sonhar por um lugar. A subjetividade aí articula-se entre sonhos
e práticas, para inaugurar a possibilidade de o sujeito se
localizar. Um
oportuno artigo publicado pela Folha de São Paulo, da autoria
de Marcelo Rubens Paiva, revela que integrantes da tribo pankararu,
que viviam em Paulo Afonso, Pernambuco, ao serem expulsos de suas
terras migraram para São Paulo e se agruparam na favela de
Real Parque, na zona sul.(2/3/1997 P.4 ) Essa realidade do êxodo
dos Pankararu ilustra, à semelhança de outras etnias,
o drama de populações nordestinas que, ao saírem
de suas terras por circunstâncias contraditórias, tentam
fincar uma base na metrópole de São Paulo, que eles
ajudaram a construir com sem trabalho.
Por sua vez, esse encontro com o espaço da modernidade é
uma mistura das diferenças, implica permanentemente revelar
as faces de muitas realidades que se cruzam nos lugares menos esperados,
mas que são parte de uma realidade maior que transforma reciprocamente
vidas e cenários. De modo geral, a migração é
um encontro de alteridades, em que cada um tem representações
e imagens do outro, elaboradas no arcabouço mental e material
em que estamos inseridos, e que também envolve trocas e possíveis
mudanças, porque vivemos juntos, com diferentes papéis,
sob diferentes tensões. São Paulo é, de modo
emblemático, uma cidade de todos os territórios, ou,
pelo menos, mostra-se um campo fértil para a construção
desses territórios, o que, sem dúvida, não se
realiza sem que ocorra um sem-número de conflitos.
Dentro dessa perspectiva, ao pensarmos o movimento migratório
nordestino em direção à cidade de São
Paulo, localizamo-lo a partir de práticas históricas
sociais, como um movimento com implicações no mercado
de trabalho, com impactos igualmente na cultura, tendo a participação
dos próprios migrantes como agentes desses processos. Para
analisarmos essas questões, utilizaremos a experiência
de um grupo de migrantes nordestinos que se deslocou do povoado de
São Severino, município de Gravatá, Pernambuco,
para a periferia de São Paulo, em Pirituba. As observações
sobre esse grupo social fazem parte de uma pesquisa realizada no período
de 1995 a 1997, cujo objetivo era estudar o imaginário dessa
população com relação às suas práticas
de saída da pobreza(Cavalcanti. 1999). Primeira
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Página [4]
Depoimento de um migrante nordestino em Santarém, PA, apud:
Leroy, 1991, pág. 53. [5] “Sabendo o que os espera, alguns jovens saem de casa e, uma vez na vida, ganham a estrada para “ver o mundo”. Deste modo, as oportunidades são aproveitadas à medida que surgem, com pouca reflexão sobre as conseqüências, assim como a multidão impõe seu poder nos momentos de insurreição direta, sabendo que o seu triunfo não vai durar mais do que uma semana ou um dia” (Thompson, 1998, pág. 21-22). |
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