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Artigos
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Na metrópole paulista, o encontro com diferentes mundos de
riqueza e pobreza, com o mercado de trabalho urbano diversificado,
o consumo e as novas exigências e regras de conveniência,
pressiona o migrante do interior para que ele reestruture seu modo
de pensar a vida e o trabalho, racionalizando as possíveis
vantagens que venha a obter ao entrar na nova realidade urbana. A
passagem de uma ocupação agrícola para uma urbana
é pensada como uma possibilidade de ascender socialmente. Contudo,
há uma diferença entre as condições encontradas
pelo migrante mais antigo em relação aos migrantes mais
novos. Os migrantes mais antigos, que superaram uma seleção
rigorosa para se fixarem, tiveram uma conjuntura favorável
quanto ao mercado de trabalho, moradia, comparados com os migrantes
mais recentes que vêm fechadas as portas para se engajarem em
ocupações não qualificadas. Encontramos, então,
uma diferença entre a migração daqueles que ajudaram
a construir a cidade de São Paulo, em relação
aos novos migrantes que lutam por um espaço na capital paulista.
O salto da lavoura para o trabalho urbano produz basicamente um olhar
para fora, um olhar de “sonhos de posse”( Fanon.1979),
sonhos estimulados pela associação entre “Sul
Maravilha” e trabalho, pois trabalho significa, nesse mesmo
contexto, “segurança”. Entretanto, a realização
desses “sonhos de posse” muda quanto à questão
da globalização e da crise financeira do país,
refletida já na migração de retorno e na dificuldade
dos novos migrantes de São Severino de se instalarem em São
Paulo, onde, ao longo do tempo, avolumam-se com outros povos às
margens de uma sociedade excludente e altamente dividida pela dicotomização
da riqueza e da pobreza. A
sociedade brasileira, ao enfatizar os sonhos de um bem-estar material
a todo custo comparados aos países do Primeiro Mundo, produz
a ilusão, nos indivíduos, de que o destino está
concebido por ele próprio. A solidariedade e a reciprocidade
passam a fazer parte do passado, pois o importante é ser tecnicamente
eficiente e esperto. Ter vontade e realizá-la, ser senhor da
vontade, induz a classe dominante a desenvolver um amor narcísico
por si e o respeito por seus pares e iguais, e o desprezo e a intolerância
pelos desiguais, pelos diferentes. Mas essa confiança no mercado
começa a ficar insustentável, trazendo consigo um vazio
de propósitos. Cenas de violência atingem toda a sociedade
e despertam uma guerra sem fundamentação ideológica,
vazia de legitimidade, como chama a atenção Enzensberger
(1995).
Dentro desse clima de desconfiança e falta de propósitos
coletivos, surge o drama de conviver com o diferente, com o outro
que não é referido como um sujeito igual a um nós,
mas sim como outra coisa que deve ser eliminada(Todorov. 1993). Algumas
“tribos” urbanas, como os grupos de skinhead, são
o exemplo mais radical da manifestação desses ressentimentos
represados contra o diferente, à medida que propõem
uma limpeza étnica, tendo como base um discurso próximo
da ideologia fascista. Seus protagonistas são geralmente jovens,
que desprezam a integração cultural e cultuam a violência.
Portanto, uma violência que tem alvos específicos: os
negros, os judeus, os índios, os nordestinos.
Nessas circunstâncias, a população trabalhadora,
na qual o migrante se encontra, percebe que não há como
confiar no próximo, quando assiste à sua geração
enfrentar diariamente a morte, uma situação de guerra
civil molecular, que é traduzida pelo líder do movimento
Hip Hop, Mano Brown: “A minha geração, a grande
maioria morre. Sou um sobrevivente!”. Outro integrante do Grupo
Rappa, Marcelo Yuka, proclama sua indignação contra
a exclusão social ao esbravejar nos quatro cantos a realidade
dos negros brasileiros ao dizer que: “Todo camburão tem
um pouco de navio negreiro.”
Essa intolerância parece ser gestada dentro de cada um de nós
como uma forma de compensar a própria impotência , e
é também uma resposta ao cerco da modernização,
que ameaça retirar os poucos benefícios de grupos ameaçados
como, por exemplo, a possibilidade de emprego na cidade. Essas
travessias impõem aos migrantes nordestinos uma nova percepção
dos vários contextos de sua exclusão no solo urbano, e
por entre os quais eles procuram ajustar-se, adaptando suas práticas
às novas conjunturas, tentando experimentar ser outro num universo
de inúmeras diferenciações, onde a experiência
do criar e inventar as situações preenche e estrutura
o desejo de sobreviver.
Resumo:
Este trabalho buscou ressignificar os movimentos migratórios
que estão presentes na História do Brasil, sob o ponto
de vista do migrante. Centrou-se a análise nos movimentos de
trabalhadores nordestinos que se dirigiram para a Amazônia durante
a Segunda Guerra Mundial, e a São Paulo nas décadas
de 80 e 90. Em ambos os momentos, privilegiou-se a discussão
dos processos subjetivos que os migrantes enfrentaram para estabelecer
novas territorialidades, bem como o desenraizamento decorrente da
migração. Abstract:
The purpose of this work is to reassess migrancy displacements
in Brazilian history according to the migrant’s point of view.
Special attention has been given on the displacements of northeastern
workers bound to the Amazon region during World War II, and to São
Paulo, in the 80’s and 90’s. In both cases, emphasis was
placed on the subjective processes that migrants had to face in order
to establish new territorialities, as well as unrooting resulting
from migration. |
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