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Atravessando fronteiras: movimentos migratórios na história do Brasil.
por Helenilda Cavalcanti e Isabel Guillen



O depoimento acima deixa perceber a dor do desenraizamento compartilhada entre parceiros migrantes de diversos povos da região Nordeste, na sua tentativa de superação das inúmeras barreiras para fixar-se em terra estranha. Deixa perceber ainda o ser “ in-between”, isto é, “tendo que viver na terra dos outros, entre eles e com eles, só se pode viver, mais ou menos aberta e profundamente, um pouco à sua maneira, em quase todas as esferas da existência” ( Sayad. 2000. P 19). E, como revela o depoimento acima, o migrante parece reafirmar que, apesar de tudo, se é fiel a si mesmo, às suas origens, procurando conservar entre os seus pares a identidade de sua cultura, em um contexto que parece levar, ao contrário, a rupturas.

Na metrópole paulista, o encontro com diferentes mundos de riqueza e pobreza, com o mercado de trabalho urbano diversificado, o consumo e as novas exigências e regras de conveniência, pressiona o migrante do interior para que ele reestruture seu modo de pensar a vida e o trabalho, racionalizando as possíveis vantagens que venha a obter ao entrar na nova realidade urbana. A passagem de uma ocupação agrícola para uma urbana é pensada como uma possibilidade de ascender socialmente. Contudo, há uma diferença entre as condições encontradas pelo migrante mais antigo em relação aos migrantes mais novos. Os migrantes mais antigos, que superaram uma seleção rigorosa para se fixarem, tiveram uma conjuntura favorável quanto ao mercado de trabalho, moradia, comparados com os migrantes mais recentes que vêm fechadas as portas para se engajarem em ocupações não qualificadas. Encontramos, então, uma diferença entre a migração daqueles que ajudaram a construir a cidade de São Paulo, em relação aos novos migrantes que lutam por um espaço na capital paulista.

O salto da lavoura para o trabalho urbano produz basicamente um olhar para fora, um olhar de “sonhos de posse”( Fanon.1979), sonhos estimulados pela associação entre “Sul Maravilha” e trabalho, pois trabalho significa, nesse mesmo contexto, “segurança”. Entretanto, a realização desses “sonhos de posse” muda quanto à questão da globalização e da crise financeira do país, refletida já na migração de retorno e na dificuldade dos novos migrantes de São Severino de se instalarem em São Paulo, onde, ao longo do tempo, avolumam-se com outros povos às margens de uma sociedade excludente e altamente dividida pela dicotomização da riqueza e da pobreza.

A sociedade brasileira, ao enfatizar os sonhos de um bem-estar material a todo custo comparados aos países do Primeiro Mundo, produz a ilusão, nos indivíduos, de que o destino está concebido por ele próprio. A solidariedade e a reciprocidade passam a fazer parte do passado, pois o importante é ser tecnicamente eficiente e esperto. Ter vontade e realizá-la, ser senhor da vontade, induz a classe dominante a desenvolver um amor narcísico por si e o respeito por seus pares e iguais, e o desprezo e a intolerância pelos desiguais, pelos diferentes. Mas essa confiança no mercado começa a ficar insustentável, trazendo consigo um vazio de propósitos. Cenas de violência atingem toda a sociedade e despertam uma guerra sem fundamentação ideológica, vazia de legitimidade, como chama a atenção Enzensberger (1995).

Dentro desse clima de desconfiança e falta de propósitos coletivos, surge o drama de conviver com o diferente, com o outro que não é referido como um sujeito igual a um nós, mas sim como outra coisa que deve ser eliminada(Todorov. 1993). Algumas “tribos” urbanas, como os grupos de skinhead, são o exemplo mais radical da manifestação desses ressentimentos represados contra o diferente, à medida que propõem uma limpeza étnica, tendo como base um discurso próximo da ideologia fascista. Seus protagonistas são geralmente jovens, que desprezam a integração cultural e cultuam a violência. Portanto, uma violência que tem alvos específicos: os negros, os judeus, os índios, os nordestinos.

Nessas circunstâncias, a população trabalhadora, na qual o migrante se encontra, percebe que não há como confiar no próximo, quando assiste à sua geração enfrentar diariamente a morte, uma situação de guerra civil molecular, que é traduzida pelo líder do movimento Hip Hop, Mano Brown: “A minha geração, a grande maioria morre. Sou um sobrevivente!”. Outro integrante do Grupo Rappa, Marcelo Yuka, proclama sua indignação contra a exclusão social ao esbravejar nos quatro cantos a realidade dos negros brasileiros ao dizer que: “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro.”

Essa intolerância parece ser gestada dentro de cada um de nós como uma forma de compensar a própria impotência , e é também uma resposta ao cerco da modernização, que ameaça retirar os poucos benefícios de grupos ameaçados como, por exemplo, a possibilidade de emprego na cidade.

Essas travessias impõem aos migrantes nordestinos uma nova percepção dos vários contextos de sua exclusão no solo urbano, e por entre os quais eles procuram ajustar-se, adaptando suas práticas às novas conjunturas, tentando experimentar ser outro num universo de inúmeras diferenciações, onde a experiência do criar e inventar as situações preenche e estrutura o desejo de sobreviver.


Resumo: Este trabalho buscou ressignificar os movimentos migratórios que estão presentes na História do Brasil, sob o ponto de vista do migrante. Centrou-se a análise nos movimentos de trabalhadores nordestinos que se dirigiram para a Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial, e a São Paulo nas décadas de 80 e 90. Em ambos os momentos, privilegiou-se a discussão dos processos subjetivos que os migrantes enfrentaram para estabelecer novas territorialidades, bem como o desenraizamento decorrente da migração.

Abstract: The purpose of this work is to reassess migrancy displacements in Brazilian history according to the migrant’s point of view. Special attention has been given on the displacements of northeastern workers bound to the Amazon region during World War II, and to São Paulo, in the 80’s and 90’s. In both cases, emphasis was placed on the subjective processes that migrants had to face in order to establish new territorialities, as well as unrooting resulting from migration.

 
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