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Artigos
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As
grandes estrelas indígenas do cinema ficcional brasileiro foram,
por vários anos, as personagens de José de Alencar, expoente
da vertente indianista da literatura brasileira. Do momento em que nosso
cinema se inicia até 1971, ano em que foi produzido O Meu
Francês, foram realizados 15 filmes de longa-metragem que
tomaram o índio como tema, dos quais nove se basearam na obra
de José de Alencar, sobretudo Iracema e O Guarani,
o que significa mais da metade da produção em questão.
A profusão de filmes baseados nesses dois romances é um
indicativo de seu papel de destaque no imaginário nacional. José
de Alencar, na verdade, significa muito mais do que um grande escritor,
constituindo-se num dos ideólogos da nacionalidade brasileira.
Os filmes baseados nesse autor, realizados até o final da década
de 40, não sobreviveram até os nossos dias. Apesar de
termos apenas algumas notícias sobre essa produção,
sua importância para o tema em tela nos leva a obra de José
de Alencar. O
que está em questão em torno do pares românticos
de O Guarani – o índio Goitacá Peri e Cecília,
filha de fidalgos portugueses – e Iracema – a índia
Tabajara Iracema e o fidalgo português Martim Soares Moreno -
é a constituição da nação. O indianismo
de José de Alencar, vai desempenhar um papel fundamental na construção
da identidade brasileira, exigência gerada pela ruptura da colônia
com a metrópole. Os índios têm um papel fundamental
na moldagem da brasilidade e, embora, como argumenta Alfredo Bosi, fosse
razoável que ele ocupasse, no imaginário pós-colonial,
o papel de rebelde, já que era o habitante originário
do território invadido pelo colonizador, o índio de José
de Alencar entra em íntima comunhão com o colonizador
(Bosi, 1992:177). Peri e Iracema fazem parte daquele grupo de índios,
colocados na categoria de “índios bons”; eles sucumbem
de paixão por brancos - sentimento estanho ao seu universo[1]
-, colocando-se à mercê dos mesmos, numa condição
que Machado de Assis, em artigo a respeito de Iracema, lançado
por ocasião de sua publicação, descreveu como uma
espécie de servidão voluntária, uma “doce
escravidão” (Machado de Assis, apud Bosi, 1992:179).
O comentário feito a respeito da personagem de Iracema vale para
Peri, seu equivalente do sexo masculino. Peri
abandona sua gente a fim de servir Ceci, aprende a falar português,
torna-se cristão para poder salvar sua adorada senhora. Iracema
chega mesmo a se voltar contra seu povo para proteger e se unir a Martim,
inimigo dos Tabajara. Peri é a representação do
bom selvagem, ele é forte, altivo, belo, livre, nobre, fala português.
Na verdade, suas qualidades positivas pertencem ao mundo civilizado,
sua força e coragem reproduzem os valores medievais dos romances
de cavalaria (Ortiz, 1988:265). Este é o índio que entra
em comunhão com o colonizador e que vai constituir a nação
brasileira; a união de Peri e Ceci na floresta, que gera a brasilidade,
simboliza o cruzamento de uma determinada cultura com uma natureza domesticada.
(Ortiz, 1988:262) Não
se fala em violência do colonizador face às populações
indígenas que habitavam o Novo Mundo, afinal, como lembra Bosi
(1992: 179-180), a prosa de Alencar não é uma crônica
realista, não tendo, por conseguinte, nenhuma preocupação
com a verossimilhança: ela tece o mito. Os conflitos entre o
colonizador e os índios são atribuídos à
ferocidade de alguns povos indígenas, ferocidade essa reconhecida
por Peri[2] e Iracema. Parafraseando
um dito que se popularizou na cultura brasileira, Peri e Iracema são
“índios de alma branca”: seu encontro com o colonizador
só é possível porque eles têm consciência
de sua inferioridade e respeitam a hierarquia quando se unem ao branco.
Considerando que estamos sob a égide do conceito de raça,
Peri e Iracema não podendo “branquear” o corpo, se
dispõem a uma espécie de “branqueamento cultural”
e com isso se habilitam à união com o colonizador, contribuindo
para a formação de uma nação mestiça,
que se quer cada dia mais branca. O
paradigma romântico mantém sua hegemonia durante grande
parte do século XX, permanecendo como substrato até mesmo
das visões contidas nos filmes que não se constituem em
versões de José de Alencar, os quais, entretanto, não
apresentam modificações substanciais. Destaco, dentre
esses filmes, Descobrimento do Brasil (1937), dirigido por Humberto
Mauro, um de nossos maiores cineastas, que é uma encenação
da fundação da nação, baseada na carta de
Pero Vaz de Caminha. Os índios se mostram inteiramente afinados
com o projeto com o projeto do colonizador, bem como receptivos à
cristianização; tudo se passa como se os portugueses e
os índios fossem partícipes de um mesmo projeto, é
como se estivessem a espera do colonizador que chega para ensiná-los
a se tornarem adultos, uma civilização madura. Casei-me
com um Xavante, chanchada dirigida por Alfredo Palácios,
em 1957, é o único filme que de certa forma valoriza a
forma de vida dos índios, retratada como tranqüila, harmônica,
edênica, por oposição à civilização
com suas mazelas. Isso não impede, entretanto, que os índios
sejam ridicularizados por seu primitivismo, por sua proximidade com
o mundo animal. Sintetizando
o perfil do índio da ficção cinematográfica
até o final da década de 60: antes de mais nada é
um solo comum a idéia de que os índios são seres
selvagens, primitivos, ainda na infância da humanidade; faz-se
distinção entre o mau e o bom selvagem, sendo que este
último é aquele que assume uma condição
de inferioridade face ao branco, que se dispõe a abrir mão
de sua cultura e absorver a cultura do colonizador, mantendo-se apenas
como uma raça distinta que contribui para a formação
da nação. Em
nenhum dos filmes há preocupação em retratar grupos
indígenas específicos, em mostrar a diversidade das culturas
indígenas, mas sim falar do índio genérico. Mesmo
quando são mencionados determinados grupos indígenas,
esse fato não passa de um efeito de superfície, uma vez
que o nome do grupo acaba reduzido a um rótulo sem qualquer conteúdo.
Não se recorre ao conhecimento sobre o universo dos diversos
povos indígenas brasileiros, acumulado pela antropologia, e a
caracterização dos índios, sejam Xavante ou Nhambiquara,
é completamente distanciada da realidade. A
idéia de que os índios são seres primitivos vai
se cristalizando na sociedade brasileira como um todo, e no ambiente
cinematográfico: Brasil Ano 2000 (1968), direção
de Walter Lima Jr., vai acionar o significante índio para dar
corpo a um dos significados que o filme quer trabalhar, a noção
de primitivo, que se contrapõe à sua questão central:
a modernidade. O índio não é o tema do filme, ele
mais uma vez é evocado em meio à discussão da identidade
nacional. Apropriando-se do significado “primitivo” impingido
aos grupos indígenas, o filme constrói a teoria, segundo
a qual, esse dado endêmico, renitente, é a fonte de todos
os nossos males. Ser primitivo, qualidade atribuída aos índios,
significa falta de avanço em termos da tecnologia, critério
usado pela visão para distinguir as sociedades civilizadas das
primitivas, sendo que estas últimas em algum momento de sua trajetória
alcançariam o estágio da civilização. Já
a teoria elaborada pelo filme se mostra mais perversa, pois considera
o primitivismo algo que está no nível da essência,
impossível pois de ser superado. O
que prevalece até esse momento é a visão do colonizador,
numa palavra: os índios não têm voz na produção
cinematográfica realizada nesse período. É importante
lembrar que nenhum dos longas-metragens de ficção brasileiros
que tomaram o índio como tema foram realizados por cineastas
indígenas, essa filmografia fala do “outro”. Não
temos índios diretores de cinema no Brasil, eles se constituem
num grupo social que, até o presente momento, não teve
a possibilidade de se auto-representar cinematograficamente.
[1]
Eduardo Viveiros de Castro e Ricardo B. de Araújo (1977)
analisam o amor romântico, mostrando que esse sentimento é
uma construção própria de um determinado tipo
de sociedade e surge num contexto bem específico, o da sociedade
ocidental moderna. [2] Enquanto Peri é tido como um homem valoroso, os Aimoré são descritos como selvagens, bárbaros, sinistros, obcecados pela idéia da vingança, “único princípio de direito e justiça que reconheciam”. O próprio Peri afirma que “conhecia a ferocidade desse povo sem pátria e sem religião, que se alimentava de carne humana e vivia como feras, no chão e pelas grutas e cavernas...” (Alencar, 1997:76). |
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