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A respeito de Chiapas, do Exército Zapatista de Liberación
Nacional e de seu Sub-Comandante Marcos, muito se tem falado e a partir
de diferentes pontos de vista. Diria que isto se fez quase até
à exaustão - não porque considere que se tenha dito
tudo sobre eles, mas pelo fato de que o tema tornou-se passível
de entrar e sair de moda. No entanto, acredito na necessidade de insistir
nesse assunto em função da seriedade que o envolve, como
acontece com todas as sinceras tentativas de transformação
social.
Com o intuito de contextualizar o presente artigo, é importante
resumir quais os supostos fundamentais que se elaboraram na análise
completa, da qual ele faz parte.
1. Os Movimentos Sociais constituem fenômenos compostos por elementos
que correspondem tanto às instâncias de índole objetiva,
coletiva, racional, como às de natureza subjetiva, individual,
emocional. Por isso, é indispensável que as abordagens que
se realizem sobre aqueles, visando à sua maior compreensão,
de fato assim os considerem, a fim de não perpetuarem a antiga
cisão estabelecida entre estas esferas, pela epistemologia dominante.
2. O Movimento Zapatista é um excelente exemplo de como fatores
de caráter afetivo dão consistência a uma poderosa
força capaz de motivar, manter e desenvolver a existência
de uma organização social.
3. No caso do EZLN, esses aspectos de ordem emocional transitaram por
um processo que abrange desde a experiência - secular a partir dos
antepassados de seus membros e ainda presente para estes - relativa a
terem sofrido uma humilhação com raízes e faces múltiplas,
até a vivência de fazer valer sua dignidade e assim alcançar
a verdadeira condição humana.
4. Essa dinâmica é expressa tanto na prática como
no discurso do EZ, através das vias do confronto ou do encontro
solidário, conforme o lugar que os outros sujeitos com os quais
se relaciona ocupam na estrutura social. Conseqüentemente, tal posição
orienta, por sua vez, a atitude que os outros adotam em relação
aos Zapatistas, bem como a qualidade dos afetos surgidos entre estes atores.
Uma vez esclarecido o anterior, agora é factível desenvolver
o aqui projetado, tendo como proposição inicial - fruto
da exploração bibliográfica e pesquisa de campo precedentes
- que tanto a filosofia de Espinosa, como a teoria crítica da Escola
de Frankfurt, e a prática social do Zapatismo (cada uma desde seus
respectivos lugares e guardando as devidas diferenças) estão
preocupadas com a questão da servidão humana.
Em decorrência, estas efetuam as correspondentes críticas
seja à ética, seja às formas de conhecimento, seja
ao modo de produção da sociedade hegemômicos e procuram,
nas suas maneiras características, os caminhos que conduzam à
emancipação dos homens, todas curiosamente contemplando
e até falando, em algum momento ou outro, sobre o ideal de felicidade.
Tento ir mais longe ao perceber nessas buscas -com suas peculiaridades-
a tentativa de transpor a impregnada oposição colocada tradicionalmente
entre Objetividade vs Subjetividade, Coletivo vs Indivíduo, Razão
vs Emoção.
Dentre a ampla produção do Espinosismo e da Teoria Crítica,
procurei esclarecer especificamente quais dos seus pontos resultam especialmente
pertinentes, para focalizar o Movimento Zapatista. Retomarei apenas alguns
daqueles que considero, no momento, fundamentais.
Conforme Olgaria Matos (1993), fonte essencial consultada para o item
referente à Escola de Frankfurt, observamos que os filósofos
que empreenderam esta corrente, ao indagarem a respeito da mencionada
libertação, salientam a necessidade de não esquecer
o passado e, principalmente, de identificar nele as marcas do sofrimento.
Tal reconhecimento deve ser efetuado não abstratamente como julgam
que o Materialismo Histórico faz, "tornando mudo" o padecimento,
através de uma atitude "dissimuladora" que não
leva em conta como se singulariza em cada homem suas "feridas interiores"
(p.56).
Nesse sentido, Adorno (DATA), ao refletir sobre a educação
depois de Auschwitz, chega a deduzir que a condição psicológica
básica que está por detrás de atrocidades como as
ocorridas nesse âmbito é a incapacidade de identificação
de um humano com outro. Tal autor considera a identificação
como indispensável para se sentir compaixão - que sempre
é despertada por um ser particular - e a reconhece, junto com a
não repressão da própria angústia, como crucial
para a possibilidade de emancipação (p.57).
Paralelamente, é bastante curioso observar, tanto no processo do
EZ como em seus documentos, como foi determinante para sua motivação
a consciência do sofrimento não unicamente próprio,
mas também o dos antepassados. O EZ realizou isto não de
forma difusa, mas circunscrevendo esse padecimento na pessoa dos pais,
dos avós ou dos "seus mortos", pelos quais se tem uma
profunda reverência.
Carta
al Consejo 500 Años de Resistencia Indígena
1o de febrero de 1994
...Hablamos con nosotros, miramos hacia adentro nuestro y miramos nuestra
historia: vimos a nuestros más grandes abuelos sufrir y luchar,
vimos a nuestros padres con la furia en las manos, vimos que no todo nos
había sido quitado, que teníamos lo más valioso,
lo que nos hacía vivir, lo que hacía que nuestros pasos
se levantaram sobre plantas y animales, y vimos hermanos, que era Dignidade
todo lo que teníamos, y vimos que era grande la vergüenza
de haberla olvidado, y vimos que era buena la dignidad para que los hombres
fueran otra vez hombres, así volvió a habitar en nuestro
corazón, y fuimos nuevos todavía, y nuestros muertos nos
llamaron, otra vez, a la dignidad y a la lucha. (EZLN. Documentos y Comunicados,
p. 119)
Quanto
à compaixão, há um caso em que se expressa veladamente:
numa das múltiplas passagens relatadas por Marcos e que compõem
a vivência do Zapatismo.
...
Eran 16 horas de camino, y en la mitad había un río y un
poblado muy pequeño, muy pobre. Ahí había un compañero
zapatista que nos cruzaba en cayuco por esas aguas, y tenía una
hija como de tres o cuatro años que siempre lo acompañaba
y nos llevaba una cantimplora con café. Le preguntábamos
como se llamaba y ella contestaba: "Paticha", era como podía
pronunciar su nombre que era Patricia. Nos decía que cuando creciera
iba a ser como su papá, que sería sargento.
Paticha nunca fallaba, siempre venía junto. Una vez que se nos
hizo tarde pasamos la noche ahí y Paticha empezó com una
fiebre como a las seis de la tarde, la temperatura iba subiendo más.
Buscamos antipiréticos con los trabajadores de la salud del pueblo,
no había nada en esse puesto, tampoco nosotros traíamos
algo que sirviera para eso. Le echamos agua fria, la bañábamos
una y outra vez para bajarle la fiebre y...nada. Debe haber sido una temperatura
de 39 grados, y a esa edad nadie la aguanta. A las no sé cuantas
horas de la noche, Paticha se me murió en los brazos.
Paticha nunca tuvo acta de nacimiento, es decir que para el país
nunca existió, por lo tanto su muerte tampoco ocurrió. Y
así han habido miles de casos (Durán, 1994, ps. 28 e 29).
Por
se tratar de um caso feminino, torna-se oportuno voltar à Profa.
Matos quando indica que Horkheimer, em "Autoridade e Família",
distingue, na figura clássica de Antígona, de que maneira
o senso de compromisso com um ente familiar, ainda que morto, concede-lhe
a força para enfrentar o poder arbitrário. O mais velho
frankfurtiano vai mais longe em seu raciocínio, chegando ao ponto
de afirmar que a mulher havendo transformado o luto anterior, torna-se
o símbolo por excelência do anti-autoritarismo, do princípio
não utilitário e do amor (p.59).
Penso que é exatamente isto que verificamos repetidas vezes na
informação encontrada a respeito das mulheres em Chiapas;
alguns dos seus depoimentos são apresentados em seguida, apenas
como uma pequena amostra disso.
La Mayor insurgente Ana María, uno de los máximos mando
militares, a sus veitinueve años, hace una descripción de
lo que el EZLN significa para ellas. En la entrevista que reporteras le
hicimos en la catedral de San Cristóbal durante el diálogo
de paz, explicó: "Muchas mujeres se deciden a esto porque
ven que no tienen ningún derecho... esse olvido dentro del olvido,
se vive como un sacrificio, com una gran tristeza..."
Cuál debe ser la sensación de la madre al alimentar cada
día a los suyos con la misma escasez...como siempre son ellas las
que se sacrifican más, las del plato menos lleno, las que luego
sufren los grados más alarmantes de desnutrición adulta.
Rosario es una muchacha de un pueblo indígena. Está embarazada
por segunda vez a sus dieciocho años. El hijo mayor tiene casi
dos años y todavía mama. Ella tiene que exponer sus pechos
a la boca voraz del pequeño, lleva otro hijo en la barriga que
le chupa todo lo que come... Cuántos de sus hijos se "lograrán",
como dicen aquí de los niños que consiguen pasar de los
seis años?
Ver "lograrse" a un hijo es una ilusión tremenda
para estas madres, es su pequeña victoria contra el entorno. El
desgarramiento de las mujeres que no consiguen salvar a sus retoños
puede convertirse en rebeldía: "Si no fuera tan pobre, mi
hijo se hubiera logrado, no tenemos para medicinas, ni buena alimentación,
ni nada", cuenta Filiberta, "por eso estoy en la lucha"
(Rovira, 1996,p.74)
... Las cuatro mil mujeres que invadieron San Cristóbal el
8 de Marzo de 1996, provenían de los puntos más recónditos
de la geografía rebelde de Chiapas... com todos los colores del
mundo a cuestas, colores intensos y sin recato, ofensivos ante el gris
de la vestimenta de los ladinos... estaban en marcha y de fiesta. Salían
a conocer, a encontrarse entre ellas y desafiar el mundo. Qué importaban
el frío, el largo camino o los hijos en la espalda...
Una criatividad desbocada amanece entre estas indias que buscan rimas
en todas sus demandas. Todas a una: "Las mujeres tinen ya consigna,
queremos para todos una vida digna"..."Mujeres de valiente corazón,
pronto cambiaremos la nación"..."Las mujeres zapatistas
tomamos el candil y si fuera necesario tomaremos el fusil" (p.233)
El acto fue maratónico, como todas las demostraciones de vigor
zapatista. "Estas indias ya se van, pero pronto volverán".
Olas de mujeres se dispersaban por las calles como poseídas por
una fuerza centrífuga que en la manãna había sido
centrípeta... Com el "corazón más fuerte",
las nujeres indígenas, regresaron a sus comunidades, a sus cocinas.
Ahora ya más seguras de que algo se ha roto en Chipas, y les ha
permitido a ellas salir. (p.234)
Também
em Matos (1993), vimos que Benjamin no seu ensaio "Paris, capital
do século XIX", por outro lado, propõe um conceito
de revolução como restituição, uma vez que
ela devolve aos homens algo que lhes foi tirado. Este termo também
se liga ao que ele chama de "instante da redenção",
para o qual se requer "presença de espírito".
Desse modo, trata-se de uma experiência que implica certa sensibilidade,
sendo conseqüentemente um tanto corpórea (p.68). Essa concepção
do meio revolucionário como algo que conduz à reparação,
principalmente de natureza moral, é noção poderosa
na luta do Zapatismo, ainda que este não fale mais em revolução
de uma forma explícita.
Algo disso se deixa ver num dos primeiros comunicados lançados
pelos zapatistas. Este se publicou em razão de que foi anunciada,
por parte do governo federal, uma espécie de anistia, num tom que
salientava sua "generosidade" diante daqueles "delinqüentes".
Na realidade, a anistia constituía-se em estratégia que
naquele momento mais convinha aos interesses do então poder executivo,
diante da pressão exercida pela sociedade civil nacional e internacional.
"De
qué nos van a perdonar?"
18 de enero de 1994
Senõres:
...Hoy hemos tenido conocimiento de la formalización del "perdón"
que ofrece el gobierno federal a nuestras fuerzas. De qué tenemos
que pedir perdón? De no haber aceptado humildemente la gigatesca
carga historica de desprecio y abandono? De habernos levantado en armas
cuando encontramos todos los caminos cerrados?...De haber demostrado que
la dignidad vive aún en los más empobrecidos del país?
De haber llamado al pueblo mexicano todo a luchar, de todas las formas
posibles, por lo que en verdad les pertence?
...Quién tiene que pedir perdón y quién puede otorgarlo?
Los que durante años y anõs, se sentaron ante una mesa llena
y se saciaron mientras con nosotros se sentaba la muerte, tan cotidiana,
tan nuestra, que acabamos por dejarle de tener miedo?... Los que nos negaron
el respeto a nuestro color, a nuestra lengua, a nuestro costumbre?...
Los que nos apresaron, torturaron, desparecieron y asesinaron por el grave
"delito" de querer un pedazo de tierra, no un pedazo grande,
solo un pedazo al que se le pudiera sacar algo para llegar al estómago?
Quién puede puede pedir perdón y quién puede otorgarlo?
El presidente de la república?...El ejército federal? Los
grandes senõres de la banca, la industria y la tierra? Los partidos
políticos... Quién tiene que pedir perdón y quién
puede otorgarlo? (EZLN, Documentos y Comunicados, p.89)
A
partir daquela referência corporal, dirijo-me à reflexão
de Marcuse, especialmente em Eros e Civilização, onde menciona
reiteradas vezes que quando o corpo não for mais instrumento de
trabalho em tempo integral, portanto, também, não alienado,
trabalhando seja para atender à "attraction passionnée´"
ou à aptidão de cada um, poderá haver uma plena manifestação
do valorizado Impulso de Vida (1999, p.188).
Esta última situação supõe a existência
prévia da chamada "sociedade madura", nas palavras do
próprio Marcuse, que por sua vez não parecem deixar claro
qual seria o caminho para alcançá-la. Nesse sentido, penso
que seriam convenientes as formulações de Espinosa, embora
esta passagem entre marcos teóricos que usualmente não são
percebidos com algum nexo possa parecer estranha, ou não exatamente
adequada.
Foi nesse filósofo, embora pertencente ao século XVII, que
encontrei uma definição explícita de afeto, a matéria-prima
do fenômeno que estudo, onde se faz menção a esse
corpo como algo não cindido daquela outra parte que recebe o nome
de alma, de maneira que esse conjunto aparece sempre atingido pelas "afecções"
(Etica III, Demonstração xiv). Elas são definidas,
segundo a interpretação aguçada de Marilena Chaui
(1983), não apenas como a possibilidade de sentir - como usualmente
se faz -, mas também como forças que segundo sua natureza
cercearão ou potencializarão a capacidade de atuar do ser
humano (p.xvii)
Esta propriedade assinalada por Espinosa é aquela que sempre imaginei
como extremamente relevante na afetividade dos homens e, por essa razão,
quando a descobri assim concebida por este autor, e também devido
à sua repercussão, senti-me bastante identificada.
Estou me referindo à dinâmica iniciada pela existência
do Conatus, esse poder imanente a cada homem - sobre o que Gilles Deleuze
reflete particualmente em "Expressionism in Philosofy: Spinoza"
- que é qualificado com precisão como "sensibilidade",
e em última instância como o "motor que anima o ser
e o mundo". Essa mesma força, que ao ter um bom encontro com
o conatus de outrem, devido à semelhança de suas relações
internas e à consciência de tudo o que partilham, gera uma
"noção comum": momento que transforma o conteúdo
inicial com forma de paixão em ação, como descreve
Michael Hardt (1996, p.149-158).
Dessa maneira, ao se unirem as "multiplicidades" constitui-se
a "multidão", agindo sempre para ampliar sua potência.
Dito de outro modo, o conatus de cada um, ao vivenciar um encontro alegre,
ou seja, um encontro não conflitivo que o diminua ou aniquile,
aumenta sua capacidade, mesmo que em certas ocasiões se deva renunciar
a alguma tendência particular, visando desenvolver o poder comum
(p.168-170). Lembremos ainda que este possui uma conotação
diferente da tradicional, pois no sistema espinosiano é entendido
como reunião de potências, onde cada uma conserva sua singularidade
e se torna "constituinte" de uma ação mais eficaz.
Se lançarmos um novo olhar sobre o EZ, podemos observar acontecendo
nele algo do que acaba de ser descrito, desde o momento do contato entre
seu núcleo original e as comunidades indígenas, até
seu trabalho conjunto com aquela porção da sociedade nacional
e internacional interessada, também, na democratização
de um país e na construção de uma ética autêntica
para se viver em qualquer parte. Os seguintes trechos foram escolhidos
por pertencerem a dois dos cinco documentos considerados pedras angulares
do discurso zapatista.
Cuarta
Declaração da Selva Lacandona
1o de enero de 1996
Al pueblo de México, a los pueblos y gobiernos del mundo:
...La guerra zapatista es sólo una parte de esa gran guerra que
es la lucha entre la memoria que aspira a futuro... Esta lucha es por
la vida... Nuestra sangre y palabra encendieron un fuego pequeñito
en la montaña...Hermanos y hermanas de otras razas y de otras lenguas
y mismo corazón protegieron nuestra luz y en ella bebieron sus
respectivos fuegos...
Quinta
Declararação da Selva Lacandona
19 de junlio de 1998
Hermanos:
...Nuestra es la casa de la luz y la alegría. Asi la nacimos, así
la luchamos, así la creceremos. Nuestra es la tierra de la vida
y la esperanza. Nuestro es el camino de la paz que se siembra con dignidad
y se cosecha con justicia y libertad.
...Vimos a esos todos que son los otros como nosotros, buscarse...construir
y lanzar iniciativas, los vimos crecerse. Los vimos llegar hasta nuestras
comunidades com ayuda haciéndonos saber que no estamos solos.
...Vimos a hombres y mujeres nacidos en otros suelos sumarse a la lucha
por la paz, los vimos imaginar y realizar reclamos de justicia, marchar
como quien canta, escribir como quien grita, hablar como quien marcha.
...Los vimos con todos los nombres con que José se nombra, con
los rostros de los todos que en todos los mundos lugar para todos quieren...(EZLN,
Página na Internet - Declarações, 1998)
Permitam-me
abrir um longo parêntese, para colocar um exemplo que considero
mais integralmente capza de mostrar que esse processo explicado por Espinosa
esteve presente já no início do Zapatismo.
O comunicado Mandar Obedeciendo, cujo título se tornou uma das
palavras de ordem mais significativas para o Movimento Zapatista e um
dos lemas que o identificou cada vez mais no mundo afora, expõe
sua concepção e proposta do que há de ser a autêntica
democracia. Também é onde começa a manifestar-se
mais claramente sua não pretensão "ao poder oficial".
O texto é a própria explicitação da maneira
mais adequada de exercer um governo, procurando assinalar aqueles que
seriam os mais capazes de realizá-lo, aqueles que o EZ reconheceria
e através dos quais poderia abandonar a condição
de exército. Este comunicado constitui uma excelente amostra de
como é possível abordar os conteúdos emocionais do
discurso zapatista, a partir de perspectivas como a de Espinosa.
"Mandar Obedecendo
26 de febrero de 1994
Al pueblo de México:
A los pueblos y Gobiernos del mundo:
A la prensa nacional e internacional:
Hermanos:
El CCCRI-CG del EZLN se dirige con respeto y honor a todos ustedes para
decir su palabra, lo que hay en su corazón y en su pensamiento...
Las palabras justicia, libertad y democracia eran sólo eso: palabras.
Apenas un sueño que los ancianos de nuestras comunidades, guardianes
verdaderos de las palabras de nuestros muertos, nos habían entregado
en el tiempo justo en el que el día cede paso a la noche, cuando
el odio y la muerte empezaban a crecer en nuestros pechos...Cuando los
tiempos se repetían sobre sí mismos, sin salida...sin manãna...
hablaron los sin rostro, los que en la noche andan, los que son montaña
y así dijeron:
"Es razón y voluntad de los hombres y mujeres buenos buscar
y encontrar la manera mejor de gobernar y gobernarse, lo que es bueno
para los más para todos es bueno. Pero que no se acallen las voces
de los menos, sino que sigan en su lugar, esperando que el pensamiento
y corazón se hagan común...así los pueblos de los
hombres y mujeres verdaderos crecen hacia dentro y se hacen grandes y
no hay fuerza de fuera que los rompa o lleve sus pasos a otros caminos...
Era esa voluntad mayoritaria el camino en el que debía andar el
paso del que mandaba. Si se apartaba su andar de lo que era razón
de la gente, el corazón que mandaba debía cambiar por otro
que obedeciera. Así nació nuestra fuerza en la montanã,
el que manda obedece si es verdadero, el que obedece manda por el corazón
comun de los hombres y mujeres verdaderos. Otra palabra vino de lejos
para que este gobierno se nombrara "democracia", este camino
nuestro que andaba antes que caminaran las palabras...
Vemos que son los menos los que ahora mandan. Mandan sin obedecer...se
pasan el poder del mando, sin escuchar a los más...Y vemos que
esta sinrazón de los que mandan mandando es la que conduce el andar
de nuestro dolor y la que alimenta la pena de nuestros muertos. Y vemos
que los que mandan mandando deben irse lejos para que haya otra vez razón
y verdad en nuestro suelo...
Es el mundo otro mundo...somos olvidados, encima nuestro caminan la muerte
y desprecio, somos pequeños, nuestra palabra se apaga, el silencio
lleva mucho tiempo habitando nuestra casa. Llega ya la hora de hablar
para nuestro corazón y para otros corazones, de la noche y la tierra
deben venir nuestros muertos, los sin rostro, los que son montaña,
que se vistan de guerra para que su voz se escuche...que hablen a otros
hombres y mujeres que caminan otras tierras...
Que busquen a los hombres y mujeres que mandan obedeciendo, a los que
tienen fuerza en la palabra...y les entreguen el bastón de mando...que
si vuelve la razón a estas tierras se calle la furia del fuego,
que los sin rostro que en la noche andan descansen por fin junto a la
tierra..." (EZLN. Documentos y Comunicados, 1994, pags.175 e176)
Este
conteúdo chama a atenção - entre outras razões
- porque se inicia com um cumprimento que se faz com respeito para com
o outro e com honra de si, ou seja, reconhecendo a dignidade equivalente
de ambos, o que já é um sinal de congruência, pois
justamente falará em democracia, e não apenas o que pensa,
senão o que sente a respeito.
A dignidade é apresentada não unicamente como essa exigência
que tem caracterizado os movimentos revolucionários ao longo dos
tempos e espaços, mas algo entendido como necessário para
a existência das outras demandas essenciais do EZ: justiça
e liberdade. Trata-se de uma condição tão almejada
que é qualificada de sonho e não como o objetivo frio de
projetos políticos tradicionais. Neste caso, constitui um velho
desejo, que foi transmitido como herança dos antepassados e lembrado
pelos sábios que estas comunidades indígenas respeitam,
precisamente quando, diante da secular morte imposta, os conseqüentes
ressentimento e desesperança começavam a imperar.
Assim, aquelas afeções não permaneceram como paixões
(ou seja, apenas como sendo sofridas), mas foram reavivando o conatus
próprio destes sujeitos individuais e coletivos, o que os chamou
a sobreviver. Mais do que isso, impulsionou-os à ação
dirigida primeiro à circunstância que, acreditavam, desencadearia
o restante do bem-estar. Assim, animou estes homens e mulheres a saírem
da obscuridão da tristeza e da clandestinidade em busca da melhor
forma de governo, que contempla a maioria mas não anula as singularidades,
não desconhecendo também o guia da razão e da emoção
que lhes são comuns: mandar obedecendo. Trata-se desse modo de
governar que, afirmam, já era uma realidade interna no contexto
indígena quando chegou do exterior como uma abstração
nomeada "democracia".
A ausência de tal prática no contexto regional, por séculos,
traduziu-se em exclusão, humilhação e repressão
que acabaram provocando a rebelião dos sem rosto. Estes eram justamente
assim autodenominados devido - entre outros motivos - ao sofrimento a
eles infligido por cada uma das situações recém enumeradas.
Em conseqüência, trata-se de uma luta não só
para sair desse círculo, senão para conseguirem, finalmente,
ser escutados e escutar os outros, aqueles que atinjam o exercício
do mandar obedeciendo, para desistir da raiva das armas e deixar presente
apenas sua palavra, e então voltar para o lugar que constitui não
unicamente sua origem, mas sua identidade: a montanha.
Saindo
dos limites desse parêntese, acredito que todo o anterior tem sido
veiculado por meio, não só de uma dessas, mas de todas aquelas
potencialidades presentes em cada um dos homens e mulheres envolvidos
no Zapatismo. O movimento passa a ser visto já não só
como próprio dos índios de Chiapas, nem só dos Zapatistas
do México, mas como dos inúmeros homens e mulhesres preocupados
com os rumos deste mundo que se tenham identificado com suas propostas,
enriquecendo-as. Assim, tal força, denominada por "Conatus",
"Impulso de Vida" ou "Dignidade" - podendo ainda ser
chamada de outras formas que designem esse "algo" que é
inerente e definitório da essência humana - impulsiona não
apenas a sua conservação, mas também o seu pleno
desenvolvimento, agindo não de forma isolada ou egoísta,
dado que é possível justamente por causa dos outros, através
dos outros e contemplando os outros.
Isso fica mais claro retomando o elemento da Dignidade. Para tanto, há
de se apontar que Adolfo Gilly, em Chiapas: la razón ardiente,
deduz que ela é a motivação essencial do EZ (p.47).
No entanto, se de novo levamos em conta o discurso e a prática
desta organização, é possível notar que o
intuito de viver dignamente existe não apenas no princípio,
mas também na trajetória e no projeto da mesma.
Condenso esta perspectiva numa frase: o Movimento Zapatista se viabiliza
a partir, através e em direção do ser verdadeiramente
digno. O que me entusiasma mais não é estar procurando salientar
isto para quem o aprecia, mas para quem, na realidade, encontra-se dentro
ou pode fazer parte dele. É sobretudo alentador que, de algum modo,
isso já seja perceptível para parte dos mais pobres em Chiapas,
que não são integrantes do EZLN. Pode-se ver isso nitidamente
expresso por uma vendedora que circula, como outras tantas, pelas ruas
de San Cristóbal, quando comenta: Los zapatistas nos devolvieron
la dignidad. Tal constatação, suponho, deve ter sido fruto
não tanto de explicações racionais que pudesse ter
recebido acerca dos zapatistas, mas sim do que essa mulher sente vindo
deles.
O aspecto concernente à relevância do digno também
está presente entre os motivos da atração que o Zapatismo
exerce em âmbitos bem distantes dele. A memória nos diz que
ele irrompeu no cenário mundial, por um lado, fazendo uso das armas
e, por outro, falando em dignidade. Esta palavra agora tem sido utilizada
de maneira diferente e insistente por diversos atores sociais, a ponto
de, hoje, poder parecer um tanto trivial ou até vazia, mas na época
- começo dos anos 90, logo após a queda do Muro de Berlim
- parecia trazer de volta mais do que a possibilidade de outra revolução,
o questionamento dos valores dominantes nas vésperas do novo milênio,
dos quais os genuinamente humanos foram banidos.
Assim, o EZ foi ganhando repercussão e apoio, acredito que devido
a essa coincidência de convicções éticas e
outras, também porque veio ao encontro de múltiplas inquietações
geradas, não só no México (pela crise do seu Estado,
que provocou o aprofundamento da insegurança, desânimo ou
cetismo de seus cidadões, como aponta Gilly, p.83) mas em lugares
distantes que seguiram a direção do tempo moderno. Tal época
é caracterizada como assinala Benjamin (DATA), pela difundida sensação
de desenraizamento, desamparo e perda de sentido. Trata-se, porém,
da mesma etapa da história sobre a qual se fala, com orgulho contraditório,
que está entrando na dita pós-modernidade.
Então, muitos daqueles que resistiram a esse engano e que se permitiram
sentir a decorrente angústia (inclusive ao imaginar o completo
fracasso das tentativas, neste século, de contradizer tal ritmo
e suas injustas conseqüências) começaram a rever na
ação zapatista um sinal de que vale a pena lutar, a esperança
de que é possível mudar e o gosto do contato com "outro
lado da vida". Refiro-me a essa face, que longe de ser reprimida,
foi conservada pelas civilizações indígenas através
do mito, e que afinal imagino há de ser parte da experiência
desejada, tanto pelos mexicanos tirados dela quanto por todo humano. Trata-se
daquilo que Yvon Le Bot chama reencantamiento del mundo (1997, p.11) que
também conforma uma orientação peculiar ao EZLN e
que explica parte do seu atrativo.
Acho que algo disso pode ser representado pela manifestação
de um membro das tantas associações civis nacionais e internacionais,
conhecidas como "Zapatizantes" - modo como, no jargão
local, se chamam todos aqueles que simpatizam com o Zapatismo e se aglutinam
ao redor dele - com o qual pude conviver, estando em Chiapas:
...Mira,
creo que yo de modo parecido a otra gente, vengo a México, no sólo
porque buscamos contribuir en toda la labor que requiere este rincón,
como necesitan otros en el mundo. Es que aquí encuentro algo que
no hallo en outro lugar...como ya te conté, soy de la generación
que era joven en el 68, luchamos entonces como pudimos, unos continuaron
haciéndolo, algunos desistieron y otros tantos... se olvidaron
de aquellos ideales. Nosotros, en realidad, no hemos conseguido cambiar
mucho la situación, incluso nos hemos aislado, estamos cotidianamente
dentro de un ambiente general y un conjunto de personas con las que no
tenemos nada que ver... yo la verdad, a veces me veo muy dislocado; todo
eso es insatisfactorio... da miedo. Aunque cada vez que salgo de España,
para trabajar aquí junto com alguien que piensa o tiene una experiencia
más o menos igual, pero sobre todo com quien puedo relacionarme
de manera distinta, me siento... como más entre iguales, me gusta,
estoy bién. En fin, por eso te digo que lo mío es una especie
de... de "solidaridad egocéntrica"! (Entrevista a "Rodrigo"
-San Cristóbal de las Casas - 1998)
Creio
que isso não é egoísmo nenhum. Foram as palavras
de que este homem dispôs para exprimir que, em tal projeto, ele
pode participar não tendo que esconder suas frustrações
e temores, nem abrir mão das suas necessidades ou desejos. Estes
constituem, em lugar de um empecilho, precisamente, a fonte de onde provém
seu impulso. Ou seja, talvez consista no mesmo processo que tanto afirmo
dar-se através da força das emoções, desencadeando
aqui o mecanismo dito identificação, que se concretiza no
tão falado reflexo dos "espelhos" devolvido pelos insurgentes,
sintetizado nesta frase certeira: Al sueño zapatista, cada quien
lleva el suyo.
Essa dinâmica não poderia de modo algum ser adjetivada de
"egocêntrica", pois confio que exatamente a correta consciência
de si é que capacita a respeitar o outro. Assim, paralelamente
ao que à primeira vista parece relativo só a um indivíduo,
encontra-se, na verdade, o coletivo, assim como um suposto que nasce como
singular pode terminar sendo prolongação do universal. Para
esta idéia que em mim permaneceu difusa por muito tempo, descobri
um reforço esclarecedor no que se resume a seguir:
Hoy
la figura más acabada de lo universal no es la del ciudadano que
se defiende intentando suturar las fisuras del Estado-Nación, sino
la del actor que combina la lucha contra las fuerzas de dominación
a través de la afirmación de una identidad individual y
colectiva, con el reconocimiento del Otro. El Zapatismo es portador de
una triple exigência -política, ética y de afirmación
del sujeto- que resume en su formula: democracia, justicia, libertad,
y más aún: dignidad (Le Bot, 1997, p.23)
Vemos
que esse ponderado cuidado, em última instância do direito
próprio, não implica ferir o alheio e sim desemboca na imprescindível
consideração mútua. Esse é um objetivo para
o qual o EZ faz tempo se exercita. Um dos seus primeiros momentos fica
representado na comunicação entre o Sub-Comandante Marcos
e o Velho Antônio , na qual as correspondentes cosmovisões
não se contrapuseram uma à outra, nem se anularam a si mesmas,
mas se encontraram e gestaram algo que resultou produtivo para ambas,
ao construir o ideário do novo EZLN. Cabe ressaltar como isto exemplifica
que algo, eventualmente, pode alcançar grande escala, começar
e ser possível por meio do contato pessoal, do cara a cara e do
poder de todos os afetos passíveis de aparecerem. Isto é
claramente mostrado no relato de Marcos sobre as longas conversas que
teve com esse ancião, dos seus diálogos com as crianças
das comunidades com as quais convive, dos seus encontros com o personagem
quixotesco "Durito". Para entender como estas figuras foram
entrando no discurso zapatista, assim como as referências à
mitologia indígena, aos símbolos nacionais e ocupando a
afetividade seu espaço, é necessário abrir outro
parêntese considerável onde o próprio Sub-Comandante
o explica.
Dentro da citada entrevista realizada por Le Bot, há um momento
em que Marcos fala a respeito da linguagem utilizada pelo Zapatismo, que
me permitiu chegar a algumas deduções sobre o porquê
e como aquele se constituiu, até do que não se encontra
dito nele. Quando o grupo político-militar, na época da
montanha, começou a receber as pessoas que se tornariam as fileiras
do EZLN, a quem teria de proporcionar uma formação, compreendeu
que não devia fazê-lo através da substituição
de uma doutrina por outra (que no caso seria a religiosa aí bem
arraigada, pela marxista que poderia ser tão dogmática quanto
a primeira). Por outro lado, dizia ser um exército com inspiração
em líderes populares como Emiliano Zapata, porém, sem ainda
ter experiência de luta ou um discurso que assim o caracterizasse.
Haveria portanto que criar sua própria linguagem, que lhe garantisse
não só estabelecer um eficaz contato com a nova realidade,
mas também conservar a essência da anterior. A inicial bagagem
branca foi assimilada, transmitida e depurada desde a confluente perspectiva
indígena, produzindo algo novo.
Mais tarde, quando o EZ atuou já publicamente, tendo antes aprendido
o manejo dos símbolos índios, como os de Ik'al e Votán
- divinidades mayas da noite e o dia, que por serem protetoras foram equiparadas,
nas lendas chiapanecas, à pessoa de Zapata - acabou acrescentando
outros símbolos em seu discurso, digamos de caráter pátrio,
como a bandeira, a constituição e heróis nacionais.
Creio que com isto teve a intenção de estabelecer também
um bom enlace com o restante da nação mexicana.
Não se tratava precisamente de uma linguagem diferente da utilizada
por diversos atores sociais como o governo, mas sim de outorgar outro
significado não apenas às palavras, senão à
história na política. Por exemplo, penso que não
se interpreta do mesmo modo quando um camponês moreno, portanto
de origem social e racial semelhante à de Emiliano Zapata, o evoca
e quando o Presidente da República coloca esse nome no seu avião
particular. Na primeira situação é como alimentar
o imaginário novo com o familiar velho, de tal modo que se consiga
ser entendido por uma mulher não escolarizada ou por um prestigiado
intelectual. Tal confrontação entre os dois estilos fica
acentuada uma vez que a retórica oficial tem desgastado essas imagens
pelo seu abuso demagógico.
Além disso, o discurso do Movimento Zapatista, na busca de vias
não preenchidas ou bloqueadas por parte das autoridades, descobriu
bem a tempo o filão da Internet que, ainda não explorada
por nenhuma outra organização similar, resultou bastante
eficiente para sua difusão.
O último traço da linguagem do EZ, que aqui vai ser comentado
e que fecha o círculo atrás aberto, é o de sua versatilidade
que, em certas ocasiões, tem sido mal compreendida. Isto porque,
como já vimos, conforme a situação social em que
aparece, a linguagem modifica-se, porém em forma e não em
essência. Isto me parece lógico e até necessário,
uma vez que essa comunicação muda dependendo de a quem se
dirige e segundo a natureza da sua emissão. Não seria, portanto,
possível que o Zapatismo mantivesse inalterado o que dizia naquele
período em que abriu fogo - por sinal, tempo curto de duas semanas
- em relação ao que falou posteriormente, apesar de que
nunca pôde esquecer, em todas suas ações, que entrou
numa guerra. Então, tal discurso também varia se o propósito
é se estampar como declaração, comunicado, carta
ou pós-data. Em geral, é neste último formato - com
o que conclui um documento oficial - que o Sub-Comandante Marcos sai mais
do esquema esperado num porta-voz, tornando-se mais pessoal e expressando
nitidamente os conteúdos emotivos mencionados ou até justificados
por ele no que segue:
El Viejo Antonio muere em 1994, en junio, y yo lo conocí en
1984. Antes de morir, mandó un mensaje, pues ya estaba grave...
es su legado, es la historia del origen, de los dioses que se sacrifican
para hacer el Sol y la Luna, de por qué el carbón es negro
y sin embargo de ahí viene la luz... Entonces me la manda, la saco
en una postdata, y empiezo a acordarme de él, de las otras historias
que después escribí. (p.153)
Así lo que hacía el Viejo Antonio, que traducía el
mundo indígena para Marcos, lo hizo Marcos para el exterior, usando
los mismos recursos...
En cuanto al escarabajo Durito, todo comenzó por un cuento que
le mandé a una niña de 10 años que me escribió.
Era una vieja história que databa de la época de la guerrilla
solitaria. Lo publican y tiene éxito... Entonces, cuando vino la
ofensiva de febrero, tuvimos que replegarnos a aquellos territorios en
los que habíamos estado antes, y encontramos de nuevo aquellos
escarabajos... Decidí retomar a Durito y explicar, a través
del corazón, conceptos que van a la cabeza. Tenía que buscar
la forma de explicar, lo que queríamos y lo que pensábamos.
Y Durito era un personaje, como se convirtieron el viejo Antonio o los
niños zapatistas que aparecen en los cuentos, que permitían
explicar la situación en la cual estábamos y hacer que se
sintiera antes que se entendiera. Nosostros no podíamos dirigir
un discurso al bolsillo de la gente. No teníamos nada que vender.
Ni a la cabeza, porque no podíamos aportar nada al análisis
que ya existía, pero sí a su corazón, que era la
parte más olvidada. No estamos hablando de que queríamos
construir un discurso sentimental, apolítico, ateórico,
sino que queríamos bajar la teoría al ser humano, de lo
vivido, queríamos compartir con la gente las experiencias para
poder reflexionar en seguida. (p.356)
Chama
minha atenção que, mesmo no momento em que o Sub-Comandante
foi tão explícito em relação à linguagem
do EZLN, não chega a dizer abertamente que toda ela ganhou um teor
afetivo, como se não percebesse o grande significado disto, nem
de que a partir de certo ponto uma forte característica do Zapatismo
é ser discurso Daí minha insistência em seu poderoso
componente subjetivo, ainda que não esteja querendo reduzi-lo a
ele.
Voltando especificamente a essa disposição que contempla
o outro, podemos observar que ela buscou ser colocada em prática
também na relação do EZ com essa porção
da sociedade nacional e internacional que se aproximou dele. Vimos anteriormente
alguns dos motivos para que esse encontro acontecesse - assim como, ao
longo de outra descrição completa dos episódios em
que este se efetuou -, no qual não apenas uma das partes deu ou
recebeu. Isso porque o lado externo teve avivado o alento e sentido de
sua procura de uma vida distinta daquela em que se encontrava imerso,
coisificada pelas leis do mercado e provocando o desejo nele por um "mundo
reencantado", o que exatamente acompanha a prática do Movimento
Zapatista. O EZLN, por sua vez, através de cada um dos seus integrantes,
sentiu que os de "fora" voltaram o olhar para ele, escutaram
o que tinha a dizer, protegeram-no nas horas perigosas, atenderam-no em
suas convocatórias e, de alguma forma, até hoje, seguem-no
ou nele se inspiram . Desse modo, contribuem para o processo de reparação
através do qual estes índios secularmente negados não
apenas se afastam do perigo de deixar de existir, mas chegam, na realidade,
a ser, a ponto de dizer: Finalmente existimos!.
Em suma, vemos que a Dignidade é constituída ou fortalecida
por confrontação ou confirmação de um Outro.
Em outras palavras, enquanto o governo federal, a oligarquía chiapaneca
ou até parte da sociedade geral - ainda sob o influxo dos preconceitos
de raça ou de classe - nega os zapatistas, paradoxalmente, estes
mais se identificam e lutam pelo direito de definir não só
a si mesmos, mas o próprio contexto em que querem estar incluídos
com outros. É, também, bastante curiosa a maneira peculiar
como o fazem: com armas mais difíceis de vencer que as militares,
propagando, ao mesmo tempo, a rebeldia, a solidariedade e a alegria. Isto
fica sintetizado na denominação que se deu ao conjunto deles
como La Tierna Furia, ou numa passagem relatada por uma das participantes
na chamada "Consulta pelo Reconhecimento dos Direitos dos Povos Índios
e pelo Fim da Guerra de Extermínio :
Mi
esposo y yo estuvimos en una mesa de Morelia, respondiendo las preguntas
de los que tenían dudas o de los que no muy bién entienden
de que se trata eso de la consulta. De repente se acercó una mujer
y empezó a hablar conmigo. Yo le expliqué sobre derechos
y cultura indígena, también de los derechos de mujeres.
Luego llenó la boleta y la puso en la urna. Estaba tan contenta
que me regaló sus zapatos, "disque" para que pueda seguir
mi andada hasta lejos, yo como tenía mi par que "de por si"
siempre uso, pues se los regalé. Ahora ya me regreso a Chiapas,
al Aguacalientes de Morelia con los zapatos de esa compañera y
los míos se quedaron con ella en su Morelia. (Maribel y Juan Diego,
delegados del EZLN en Morelia, Michoacán).
Esse
testemunho me parece que exprime o espírito fundamental que valorizo
no Zapatismo: apesar da sua miséria material, ou talvez por causa
dela, de maneira semelhante a outros pobres do mundo, é capaz de
dar o melhor de si ou o único que possui, algo que só pode
gerar no Outro a vontade de retribuir com o mesmo. Certamente, isto se
dá dentro de um ambiente permeado por todos os afetos humanos possíveis,
entre os quais há de ser relevante o do Amor, esse que não
fica apenas contemplando os que lhe estão próximos, mas
que atua por eles e com eles para sair à frente - às vezes
indo longe. Neste caso, personificado na simples e rica figura de um par
de sapatos, sobre o que não posso deixar de terminar falando em
meu próprio idioma, eles são: zapatos para ponerse de pie,
zapatos para buscar, zapatos para trabajar, zapatos para luchar, pero
tambiém zapatos para aproximarse al Otro, zapatos para discutir
o compartir y hasta bailar con él, en fin... zapatos de zapatista!
Resumo:
Este texto, sendo originalmente o último item de uma tese em torno
do Zapatismo surgido em Chiapas (México), procura fortalecer a
hipótese de que nesse movimento - como em outros fenômenos
sociais - existe, entre múltiplos elementos já reconhecidos,
um não reconhecido mas bastante poderoso: a afetividade. O trabalho
visa compreender a função que têm desempenhado os
afetos no âmbito zapatista, transitando por algumas reflexões
de pensadores diversos como Espinosa, os representativos da Escola de
Frankfurt e outros; também pretende sublinhar a função
positiva dessas forças, que tais autores têm referido como
"conatus", "impulso de vida", "dignidade",
etc.
Palavras-chave:
Movimentos Sociais, Chiapas, EZLN, Afetividade.
Abstract:
This text, the last part of a thesis on the Zapatista movement originated
in Chiapas (Mexico), supports the idea that in said movement just as in
other social phenomena there is a very powerful element among others already
acknowledged that still calls for acknowledgement: affection. This work
is focused on the understanding of this element of affection in the Zapatista
environment while resorting to a few thoughts of different philosophers,
like Espinosa and those of the School of Frankfurt, among others. It also
intends to underscore the positive influence of such forces the authors
previously mentioned referred to as "conatus", "life impulse",
"dignity", etc.
Key
words: social movements, Chiapas, EZLN, affection.
Referências
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Milenio, 1994.
LE
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