Universidade de São Paulo Faculdade de Engenharia de Sorocaba Banco Credibel S/A
 
Sobre o Labi Arte e Imagem Contato Agenda Cidadania e Movimentos Sociais Links Artigos e Publicações
Artigos e Publicações


Reconhecimento do papel da afetividade na ação zapatista
por Laura Beatriz Ramírez García



A respeito de Chiapas, do Exército Zapatista de Liberación Nacional e de seu Sub-Comandante Marcos, muito se tem falado e a partir de diferentes pontos de vista. Diria que isto se fez quase até à exaustão - não porque considere que se tenha dito tudo sobre eles, mas pelo fato de que o tema tornou-se passível de entrar e sair de moda. No entanto, acredito na necessidade de insistir nesse assunto em função da seriedade que o envolve, como acontece com todas as sinceras tentativas de transformação social.

Com o intuito de contextualizar o presente artigo, é importante resumir quais os supostos fundamentais que se elaboraram na análise completa, da qual ele faz parte.

1. Os Movimentos Sociais constituem fenômenos compostos por elementos que correspondem tanto às instâncias de índole objetiva, coletiva, racional, como às de natureza subjetiva, individual, emocional. Por isso, é indispensável que as abordagens que se realizem sobre aqueles, visando à sua maior compreensão, de fato assim os considerem, a fim de não perpetuarem a antiga cisão estabelecida entre estas esferas, pela epistemologia dominante.

2. O Movimento Zapatista é um excelente exemplo de como fatores de caráter afetivo dão consistência a uma poderosa força capaz de motivar, manter e desenvolver a existência de uma organização social.

3. No caso do EZLN, esses aspectos de ordem emocional transitaram por um processo que abrange desde a experiência - secular a partir dos antepassados de seus membros e ainda presente para estes - relativa a terem sofrido uma humilhação com raízes e faces múltiplas, até a vivência de fazer valer sua dignidade e assim alcançar a verdadeira condição humana.

4. Essa dinâmica é expressa tanto na prática como no discurso do EZ, através das vias do confronto ou do encontro solidário, conforme o lugar que os outros sujeitos com os quais se relaciona ocupam na estrutura social. Conseqüentemente, tal posição orienta, por sua vez, a atitude que os outros adotam em relação aos Zapatistas, bem como a qualidade dos afetos surgidos entre estes atores.

Uma vez esclarecido o anterior, agora é factível desenvolver o aqui projetado, tendo como proposição inicial - fruto da exploração bibliográfica e pesquisa de campo precedentes - que tanto a filosofia de Espinosa, como a teoria crítica da Escola de Frankfurt, e a prática social do Zapatismo (cada uma desde seus respectivos lugares e guardando as devidas diferenças) estão preocupadas com a questão da servidão humana.

Em decorrência, estas efetuam as correspondentes críticas seja à ética, seja às formas de conhecimento, seja ao modo de produção da sociedade hegemômicos e procuram, nas suas maneiras características, os caminhos que conduzam à emancipação dos homens, todas curiosamente contemplando e até falando, em algum momento ou outro, sobre o ideal de felicidade.

Tento ir mais longe ao perceber nessas buscas -com suas peculiaridades- a tentativa de transpor a impregnada oposição colocada tradicionalmente entre Objetividade vs Subjetividade, Coletivo vs Indivíduo, Razão vs Emoção.

Dentre a ampla produção do Espinosismo e da Teoria Crítica, procurei esclarecer especificamente quais dos seus pontos resultam especialmente pertinentes, para focalizar o Movimento Zapatista. Retomarei apenas alguns daqueles que considero, no momento, fundamentais.

Conforme Olgaria Matos (1993), fonte essencial consultada para o item referente à Escola de Frankfurt, observamos que os filósofos que empreenderam esta corrente, ao indagarem a respeito da mencionada libertação, salientam a necessidade de não esquecer o passado e, principalmente, de identificar nele as marcas do sofrimento. Tal reconhecimento deve ser efetuado não abstratamente como julgam que o Materialismo Histórico faz, "tornando mudo" o padecimento, através de uma atitude "dissimuladora" que não leva em conta como se singulariza em cada homem suas "feridas interiores" (p.56).

Nesse sentido, Adorno (DATA), ao refletir sobre a educação depois de Auschwitz, chega a deduzir que a condição psicológica básica que está por detrás de atrocidades como as ocorridas nesse âmbito é a incapacidade de identificação de um humano com outro. Tal autor considera a identificação como indispensável para se sentir compaixão - que sempre é despertada por um ser particular - e a reconhece, junto com a não repressão da própria angústia, como crucial para a possibilidade de emancipação (p.57).

Paralelamente, é bastante curioso observar, tanto no processo do EZ como em seus documentos, como foi determinante para sua motivação a consciência do sofrimento não unicamente próprio, mas também o dos antepassados. O EZ realizou isto não de forma difusa, mas circunscrevendo esse padecimento na pessoa dos pais, dos avós ou dos "seus mortos", pelos quais se tem uma profunda reverência.

Carta al Consejo 500 Años de Resistencia Indígena
1o de febrero de 1994

...Hablamos con nosotros, miramos hacia adentro nuestro y miramos nuestra historia: vimos a nuestros más grandes abuelos sufrir y luchar, vimos a nuestros padres con la furia en las manos, vimos que no todo nos había sido quitado, que teníamos lo más valioso, lo que nos hacía vivir, lo que hacía que nuestros pasos se levantaram sobre plantas y animales, y vimos hermanos, que era Dignidade todo lo que teníamos, y vimos que era grande la vergüenza de haberla olvidado, y vimos que era buena la dignidad para que los hombres fueran otra vez hombres, así volvió a habitar en nuestro corazón, y fuimos nuevos todavía, y nuestros muertos nos llamaron, otra vez, a la dignidad y a la lucha. (EZLN. Documentos y Comunicados, p. 119)

Quanto à compaixão, há um caso em que se expressa veladamente: numa das múltiplas passagens relatadas por Marcos e que compõem a vivência do Zapatismo.

... Eran 16 horas de camino, y en la mitad había un río y un poblado muy pequeño, muy pobre. Ahí había un compañero zapatista que nos cruzaba en cayuco por esas aguas, y tenía una hija como de tres o cuatro años que siempre lo acompañaba y nos llevaba una cantimplora con café. Le preguntábamos como se llamaba y ella contestaba: "Paticha", era como podía pronunciar su nombre que era Patricia. Nos decía que cuando creciera iba a ser como su papá, que sería sargento.
Paticha nunca fallaba, siempre venía junto. Una vez que se nos hizo tarde pasamos la noche ahí y Paticha empezó com una fiebre como a las seis de la tarde, la temperatura iba subiendo más. Buscamos antipiréticos con los trabajadores de la salud del pueblo, no había nada en esse puesto, tampoco nosotros traíamos algo que sirviera para eso. Le echamos agua fria, la bañábamos una y outra vez para bajarle la fiebre y...nada. Debe haber sido una temperatura de 39 grados, y a esa edad nadie la aguanta. A las no sé cuantas horas de la noche, Paticha se me murió en los brazos.
Paticha nunca tuvo acta de nacimiento, es decir que para el país nunca existió, por lo tanto su muerte tampoco ocurrió. Y así han habido miles de casos (Durán, 1994, ps. 28 e 29).

Por se tratar de um caso feminino, torna-se oportuno voltar à Profa. Matos quando indica que Horkheimer, em "Autoridade e Família", distingue, na figura clássica de Antígona, de que maneira o senso de compromisso com um ente familiar, ainda que morto, concede-lhe a força para enfrentar o poder arbitrário. O mais velho frankfurtiano vai mais longe em seu raciocínio, chegando ao ponto de afirmar que a mulher havendo transformado o luto anterior, torna-se o símbolo por excelência do anti-autoritarismo, do princípio não utilitário e do amor (p.59).

Penso que é exatamente isto que verificamos repetidas vezes na informação encontrada a respeito das mulheres em Chiapas; alguns dos seus depoimentos são apresentados em seguida, apenas como uma pequena amostra disso.

La Mayor insurgente Ana María, uno de los máximos mando militares, a sus veitinueve años, hace una descripción de lo que el EZLN significa para ellas. En la entrevista que reporteras le hicimos en la catedral de San Cristóbal durante el diálogo de paz, explicó: "Muchas mujeres se deciden a esto porque ven que no tienen ningún derecho... esse olvido dentro del olvido, se vive como un sacrificio, com una gran tristeza..."

Cuál debe ser la sensación de la madre al alimentar cada día a los suyos con la misma escasez...como siempre son ellas las que se sacrifican más, las del plato menos lleno, las que luego sufren los grados más alarmantes de desnutrición adulta. Rosario es una muchacha de un pueblo indígena. Está embarazada por segunda vez a sus dieciocho años. El hijo mayor tiene casi dos años y todavía mama. Ella tiene que exponer sus pechos a la boca voraz del pequeño, lleva otro hijo en la barriga que le chupa todo lo que come... Cuántos de sus hijos se "lograrán", como dicen aquí de los niños que consiguen pasar de los seis años?

Ver "lograrse" a un hijo es una ilusión tremenda para estas madres, es su pequeña victoria contra el entorno. El desgarramiento de las mujeres que no consiguen salvar a sus retoños puede convertirse en rebeldía: "Si no fuera tan pobre, mi hijo se hubiera logrado, no tenemos para medicinas, ni buena alimentación, ni nada", cuenta Filiberta, "por eso estoy en la lucha" (Rovira, 1996,p.74)

... Las cuatro mil mujeres que invadieron San Cristóbal el 8 de Marzo de 1996, provenían de los puntos más recónditos de la geografía rebelde de Chiapas... com todos los colores del mundo a cuestas, colores intensos y sin recato, ofensivos ante el gris de la vestimenta de los ladinos... estaban en marcha y de fiesta. Salían a conocer, a encontrarse entre ellas y desafiar el mundo. Qué importaban el frío, el largo camino o los hijos en la espalda...

Una criatividad desbocada amanece entre estas indias que buscan rimas en todas sus demandas. Todas a una: "Las mujeres tinen ya consigna, queremos para todos una vida digna"..."Mujeres de valiente corazón, pronto cambiaremos la nación"..."Las mujeres zapatistas tomamos el candil y si fuera necesario tomaremos el fusil" (p.233)

El acto fue maratónico, como todas las demostraciones de vigor zapatista. "Estas indias ya se van, pero pronto volverán". Olas de mujeres se dispersaban por las calles como poseídas por una fuerza centrífuga que en la manãna había sido centrípeta... Com el "corazón más fuerte", las nujeres indígenas, regresaron a sus comunidades, a sus cocinas. Ahora ya más seguras de que algo se ha roto en Chipas, y les ha permitido a ellas salir. (p.234)

Também em Matos (1993), vimos que Benjamin no seu ensaio "Paris, capital do século XIX", por outro lado, propõe um conceito de revolução como restituição, uma vez que ela devolve aos homens algo que lhes foi tirado. Este termo também se liga ao que ele chama de "instante da redenção", para o qual se requer "presença de espírito". Desse modo, trata-se de uma experiência que implica certa sensibilidade, sendo conseqüentemente um tanto corpórea (p.68). Essa concepção do meio revolucionário como algo que conduz à reparação, principalmente de natureza moral, é noção poderosa na luta do Zapatismo, ainda que este não fale mais em revolução de uma forma explícita.

Algo disso se deixa ver num dos primeiros comunicados lançados pelos zapatistas. Este se publicou em razão de que foi anunciada, por parte do governo federal, uma espécie de anistia, num tom que salientava sua "generosidade" diante daqueles "delinqüentes". Na realidade, a anistia constituía-se em estratégia que naquele momento mais convinha aos interesses do então poder executivo, diante da pressão exercida pela sociedade civil nacional e internacional.

"De qué nos van a perdonar?"
18 de enero de 1994

Senõres:
...Hoy hemos tenido conocimiento de la formalización del "perdón" que ofrece el gobierno federal a nuestras fuerzas. De qué tenemos que pedir perdón? De no haber aceptado humildemente la gigatesca carga historica de desprecio y abandono? De habernos levantado en armas cuando encontramos todos los caminos cerrados?...De haber demostrado que la dignidad vive aún en los más empobrecidos del país? De haber llamado al pueblo mexicano todo a luchar, de todas las formas posibles, por lo que en verdad les pertence?
...Quién tiene que pedir perdón y quién puede otorgarlo? Los que durante años y anõs, se sentaron ante una mesa llena y se saciaron mientras con nosotros se sentaba la muerte, tan cotidiana, tan nuestra, que acabamos por dejarle de tener miedo?... Los que nos negaron el respeto a nuestro color, a nuestra lengua, a nuestro costumbre?... Los que nos apresaron, torturaron, desparecieron y asesinaron por el grave "delito" de querer un pedazo de tierra, no un pedazo grande, solo un pedazo al que se le pudiera sacar algo para llegar al estómago?
Quién puede puede pedir perdón y quién puede otorgarlo? El presidente de la república?...El ejército federal? Los grandes senõres de la banca, la industria y la tierra? Los partidos políticos... Quién tiene que pedir perdón y quién puede otorgarlo? (EZLN, Documentos y Comunicados, p.89)

A partir daquela referência corporal, dirijo-me à reflexão de Marcuse, especialmente em Eros e Civilização, onde menciona reiteradas vezes que quando o corpo não for mais instrumento de trabalho em tempo integral, portanto, também, não alienado, trabalhando seja para atender à "attraction passionnée´" ou à aptidão de cada um, poderá haver uma plena manifestação do valorizado Impulso de Vida (1999, p.188).

Esta última situação supõe a existência prévia da chamada "sociedade madura", nas palavras do próprio Marcuse, que por sua vez não parecem deixar claro qual seria o caminho para alcançá-la. Nesse sentido, penso que seriam convenientes as formulações de Espinosa, embora esta passagem entre marcos teóricos que usualmente não são percebidos com algum nexo possa parecer estranha, ou não exatamente adequada.

Foi nesse filósofo, embora pertencente ao século XVII, que encontrei uma definição explícita de afeto, a matéria-prima do fenômeno que estudo, onde se faz menção a esse corpo como algo não cindido daquela outra parte que recebe o nome de alma, de maneira que esse conjunto aparece sempre atingido pelas "afecções" (Etica III, Demonstração xiv). Elas são definidas, segundo a interpretação aguçada de Marilena Chaui (1983), não apenas como a possibilidade de sentir - como usualmente se faz -, mas também como forças que segundo sua natureza cercearão ou potencializarão a capacidade de atuar do ser humano (p.xvii)

Esta propriedade assinalada por Espinosa é aquela que sempre imaginei como extremamente relevante na afetividade dos homens e, por essa razão, quando a descobri assim concebida por este autor, e também devido à sua repercussão, senti-me bastante identificada.

Estou me referindo à dinâmica iniciada pela existência do Conatus, esse poder imanente a cada homem - sobre o que Gilles Deleuze reflete particualmente em "Expressionism in Philosofy: Spinoza" - que é qualificado com precisão como "sensibilidade", e em última instância como o "motor que anima o ser e o mundo". Essa mesma força, que ao ter um bom encontro com o conatus de outrem, devido à semelhança de suas relações internas e à consciência de tudo o que partilham, gera uma "noção comum": momento que transforma o conteúdo inicial com forma de paixão em ação, como descreve Michael Hardt (1996, p.149-158).

Dessa maneira, ao se unirem as "multiplicidades" constitui-se a "multidão", agindo sempre para ampliar sua potência. Dito de outro modo, o conatus de cada um, ao vivenciar um encontro alegre, ou seja, um encontro não conflitivo que o diminua ou aniquile, aumenta sua capacidade, mesmo que em certas ocasiões se deva renunciar a alguma tendência particular, visando desenvolver o poder comum (p.168-170). Lembremos ainda que este possui uma conotação diferente da tradicional, pois no sistema espinosiano é entendido como reunião de potências, onde cada uma conserva sua singularidade e se torna "constituinte" de uma ação mais eficaz.

Se lançarmos um novo olhar sobre o EZ, podemos observar acontecendo nele algo do que acaba de ser descrito, desde o momento do contato entre seu núcleo original e as comunidades indígenas, até seu trabalho conjunto com aquela porção da sociedade nacional e internacional interessada, também, na democratização de um país e na construção de uma ética autêntica para se viver em qualquer parte. Os seguintes trechos foram escolhidos por pertencerem a dois dos cinco documentos considerados pedras angulares do discurso zapatista.

Cuarta Declaração da Selva Lacandona
1o de enero de 1996

Al pueblo de México, a los pueblos y gobiernos del mundo:
...La guerra zapatista es sólo una parte de esa gran guerra que es la lucha entre la memoria que aspira a futuro... Esta lucha es por la vida... Nuestra sangre y palabra encendieron un fuego pequeñito en la montaña...Hermanos y hermanas de otras razas y de otras lenguas y mismo corazón protegieron nuestra luz y en ella bebieron sus respectivos fuegos...

Quinta Declararação da Selva Lacandona
19 de junlio de 1998

Hermanos:
...Nuestra es la casa de la luz y la alegría. Asi la nacimos, así la luchamos, así la creceremos. Nuestra es la tierra de la vida y la esperanza. Nuestro es el camino de la paz que se siembra con dignidad y se cosecha con justicia y libertad.
...Vimos a esos todos que son los otros como nosotros, buscarse...construir y lanzar iniciativas, los vimos crecerse. Los vimos llegar hasta nuestras comunidades com ayuda haciéndonos saber que no estamos solos.
...Vimos a hombres y mujeres nacidos en otros suelos sumarse a la lucha por la paz, los vimos imaginar y realizar reclamos de justicia, marchar como quien canta, escribir como quien grita, hablar como quien marcha.
...Los vimos con todos los nombres con que José se nombra, con los rostros de los todos que en todos los mundos lugar para todos quieren...(EZLN, Página na Internet - Declarações, 1998)

Permitam-me abrir um longo parêntese, para colocar um exemplo que considero mais integralmente capza de mostrar que esse processo explicado por Espinosa esteve presente já no início do Zapatismo.

O comunicado Mandar Obedeciendo, cujo título se tornou uma das palavras de ordem mais significativas para o Movimento Zapatista e um dos lemas que o identificou cada vez mais no mundo afora, expõe sua concepção e proposta do que há de ser a autêntica democracia. Também é onde começa a manifestar-se mais claramente sua não pretensão "ao poder oficial". O texto é a própria explicitação da maneira mais adequada de exercer um governo, procurando assinalar aqueles que seriam os mais capazes de realizá-lo, aqueles que o EZ reconheceria e através dos quais poderia abandonar a condição de exército. Este comunicado constitui uma excelente amostra de como é possível abordar os conteúdos emocionais do discurso zapatista, a partir de perspectivas como a de Espinosa.

"Mandar Obedecendo
26 de febrero de 1994

Al pueblo de México:
A los pueblos y Gobiernos del mundo:
A la prensa nacional e internacional:
Hermanos:

El CCCRI-CG del EZLN se dirige con respeto y honor a todos ustedes para decir su palabra, lo que hay en su corazón y en su pensamiento...
Las palabras justicia, libertad y democracia eran sólo eso: palabras. Apenas un sueño que los ancianos de nuestras comunidades, guardianes verdaderos de las palabras de nuestros muertos, nos habían entregado en el tiempo justo en el que el día cede paso a la noche, cuando el odio y la muerte empezaban a crecer en nuestros pechos...Cuando los tiempos se repetían sobre sí mismos, sin salida...sin manãna... hablaron los sin rostro, los que en la noche andan, los que son montaña y así dijeron:
"Es razón y voluntad de los hombres y mujeres buenos buscar y encontrar la manera mejor de gobernar y gobernarse, lo que es bueno para los más para todos es bueno. Pero que no se acallen las voces de los menos, sino que sigan en su lugar, esperando que el pensamiento y corazón se hagan común...así los pueblos de los hombres y mujeres verdaderos crecen hacia dentro y se hacen grandes y no hay fuerza de fuera que los rompa o lleve sus pasos a otros caminos...
Era esa voluntad mayoritaria el camino en el que debía andar el paso del que mandaba. Si se apartaba su andar de lo que era razón de la gente, el corazón que mandaba debía cambiar por otro que obedeciera. Así nació nuestra fuerza en la montanã, el que manda obedece si es verdadero, el que obedece manda por el corazón comun de los hombres y mujeres verdaderos. Otra palabra vino de lejos para que este gobierno se nombrara "democracia", este camino nuestro que andaba antes que caminaran las palabras...
Vemos que son los menos los que ahora mandan. Mandan sin obedecer...se pasan el poder del mando, sin escuchar a los más...Y vemos que esta sinrazón de los que mandan mandando es la que conduce el andar de nuestro dolor y la que alimenta la pena de nuestros muertos. Y vemos que los que mandan mandando deben irse lejos para que haya otra vez razón y verdad en nuestro suelo...
Es el mundo otro mundo...somos olvidados, encima nuestro caminan la muerte y desprecio, somos pequeños, nuestra palabra se apaga, el silencio lleva mucho tiempo habitando nuestra casa. Llega ya la hora de hablar para nuestro corazón y para otros corazones, de la noche y la tierra deben venir nuestros muertos, los sin rostro, los que son montaña, que se vistan de guerra para que su voz se escuche...que hablen a otros hombres y mujeres que caminan otras tierras...
Que busquen a los hombres y mujeres que mandan obedeciendo, a los que tienen fuerza en la palabra...y les entreguen el bastón de mando...que si vuelve la razón a estas tierras se calle la furia del fuego, que los sin rostro que en la noche andan descansen por fin junto a la tierra..." (EZLN. Documentos y Comunicados, 1994, pags.175 e176)

Este conteúdo chama a atenção - entre outras razões - porque se inicia com um cumprimento que se faz com respeito para com o outro e com honra de si, ou seja, reconhecendo a dignidade equivalente de ambos, o que já é um sinal de congruência, pois justamente falará em democracia, e não apenas o que pensa, senão o que sente a respeito.

A dignidade é apresentada não unicamente como essa exigência que tem caracterizado os movimentos revolucionários ao longo dos tempos e espaços, mas algo entendido como necessário para a existência das outras demandas essenciais do EZ: justiça e liberdade. Trata-se de uma condição tão almejada que é qualificada de sonho e não como o objetivo frio de projetos políticos tradicionais. Neste caso, constitui um velho desejo, que foi transmitido como herança dos antepassados e lembrado pelos sábios que estas comunidades indígenas respeitam, precisamente quando, diante da secular morte imposta, os conseqüentes ressentimento e desesperança começavam a imperar.

Assim, aquelas afeções não permaneceram como paixões (ou seja, apenas como sendo sofridas), mas foram reavivando o conatus próprio destes sujeitos individuais e coletivos, o que os chamou a sobreviver. Mais do que isso, impulsionou-os à ação dirigida primeiro à circunstância que, acreditavam, desencadearia o restante do bem-estar. Assim, animou estes homens e mulheres a saírem da obscuridão da tristeza e da clandestinidade em busca da melhor forma de governo, que contempla a maioria mas não anula as singularidades, não desconhecendo também o guia da razão e da emoção que lhes são comuns: mandar obedecendo. Trata-se desse modo de governar que, afirmam, já era uma realidade interna no contexto indígena quando chegou do exterior como uma abstração nomeada "democracia".

A ausência de tal prática no contexto regional, por séculos, traduziu-se em exclusão, humilhação e repressão que acabaram provocando a rebelião dos sem rosto. Estes eram justamente assim autodenominados devido - entre outros motivos - ao sofrimento a eles infligido por cada uma das situações recém enumeradas. Em conseqüência, trata-se de uma luta não só para sair desse círculo, senão para conseguirem, finalmente, ser escutados e escutar os outros, aqueles que atinjam o exercício do mandar obedeciendo, para desistir da raiva das armas e deixar presente apenas sua palavra, e então voltar para o lugar que constitui não unicamente sua origem, mas sua identidade: a montanha.

Saindo dos limites desse parêntese, acredito que todo o anterior tem sido veiculado por meio, não só de uma dessas, mas de todas aquelas potencialidades presentes em cada um dos homens e mulheres envolvidos no Zapatismo. O movimento passa a ser visto já não só como próprio dos índios de Chiapas, nem só dos Zapatistas do México, mas como dos inúmeros homens e mulhesres preocupados com os rumos deste mundo que se tenham identificado com suas propostas, enriquecendo-as. Assim, tal força, denominada por "Conatus", "Impulso de Vida" ou "Dignidade" - podendo ainda ser chamada de outras formas que designem esse "algo" que é inerente e definitório da essência humana - impulsiona não apenas a sua conservação, mas também o seu pleno desenvolvimento, agindo não de forma isolada ou egoísta, dado que é possível justamente por causa dos outros, através dos outros e contemplando os outros.

Isso fica mais claro retomando o elemento da Dignidade. Para tanto, há de se apontar que Adolfo Gilly, em Chiapas: la razón ardiente, deduz que ela é a motivação essencial do EZ (p.47). No entanto, se de novo levamos em conta o discurso e a prática desta organização, é possível notar que o intuito de viver dignamente existe não apenas no princípio, mas também na trajetória e no projeto da mesma.

Condenso esta perspectiva numa frase: o Movimento Zapatista se viabiliza a partir, através e em direção do ser verdadeiramente digno. O que me entusiasma mais não é estar procurando salientar isto para quem o aprecia, mas para quem, na realidade, encontra-se dentro ou pode fazer parte dele. É sobretudo alentador que, de algum modo, isso já seja perceptível para parte dos mais pobres em Chiapas, que não são integrantes do EZLN. Pode-se ver isso nitidamente expresso por uma vendedora que circula, como outras tantas, pelas ruas de San Cristóbal, quando comenta: Los zapatistas nos devolvieron la dignidad. Tal constatação, suponho, deve ter sido fruto não tanto de explicações racionais que pudesse ter recebido acerca dos zapatistas, mas sim do que essa mulher sente vindo deles.

O aspecto concernente à relevância do digno também está presente entre os motivos da atração que o Zapatismo exerce em âmbitos bem distantes dele. A memória nos diz que ele irrompeu no cenário mundial, por um lado, fazendo uso das armas e, por outro, falando em dignidade. Esta palavra agora tem sido utilizada de maneira diferente e insistente por diversos atores sociais, a ponto de, hoje, poder parecer um tanto trivial ou até vazia, mas na época - começo dos anos 90, logo após a queda do Muro de Berlim - parecia trazer de volta mais do que a possibilidade de outra revolução, o questionamento dos valores dominantes nas vésperas do novo milênio, dos quais os genuinamente humanos foram banidos.

Assim, o EZ foi ganhando repercussão e apoio, acredito que devido a essa coincidência de convicções éticas e outras, também porque veio ao encontro de múltiplas inquietações geradas, não só no México (pela crise do seu Estado, que provocou o aprofundamento da insegurança, desânimo ou cetismo de seus cidadões, como aponta Gilly, p.83) mas em lugares distantes que seguiram a direção do tempo moderno. Tal época é caracterizada como assinala Benjamin (DATA), pela difundida sensação de desenraizamento, desamparo e perda de sentido. Trata-se, porém, da mesma etapa da história sobre a qual se fala, com orgulho contraditório, que está entrando na dita pós-modernidade.

Então, muitos daqueles que resistiram a esse engano e que se permitiram sentir a decorrente angústia (inclusive ao imaginar o completo fracasso das tentativas, neste século, de contradizer tal ritmo e suas injustas conseqüências) começaram a rever na ação zapatista um sinal de que vale a pena lutar, a esperança de que é possível mudar e o gosto do contato com "outro lado da vida". Refiro-me a essa face, que longe de ser reprimida, foi conservada pelas civilizações indígenas através do mito, e que afinal imagino há de ser parte da experiência desejada, tanto pelos mexicanos tirados dela quanto por todo humano. Trata-se daquilo que Yvon Le Bot chama reencantamiento del mundo (1997, p.11) que também conforma uma orientação peculiar ao EZLN e que explica parte do seu atrativo.

Acho que algo disso pode ser representado pela manifestação de um membro das tantas associações civis nacionais e internacionais, conhecidas como "Zapatizantes" - modo como, no jargão local, se chamam todos aqueles que simpatizam com o Zapatismo e se aglutinam ao redor dele - com o qual pude conviver, estando em Chiapas:

...Mira, creo que yo de modo parecido a otra gente, vengo a México, no sólo porque buscamos contribuir en toda la labor que requiere este rincón, como necesitan otros en el mundo. Es que aquí encuentro algo que no hallo en outro lugar...como ya te conté, soy de la generación que era joven en el 68, luchamos entonces como pudimos, unos continuaron haciéndolo, algunos desistieron y otros tantos... se olvidaron de aquellos ideales. Nosotros, en realidad, no hemos conseguido cambiar mucho la situación, incluso nos hemos aislado, estamos cotidianamente dentro de un ambiente general y un conjunto de personas con las que no tenemos nada que ver... yo la verdad, a veces me veo muy dislocado; todo eso es insatisfactorio... da miedo. Aunque cada vez que salgo de España, para trabajar aquí junto com alguien que piensa o tiene una experiencia más o menos igual, pero sobre todo com quien puedo relacionarme de manera distinta, me siento... como más entre iguales, me gusta, estoy bién. En fin, por eso te digo que lo mío es una especie de... de "solidaridad egocéntrica"! (Entrevista a "Rodrigo" -San Cristóbal de las Casas - 1998)

Creio que isso não é egoísmo nenhum. Foram as palavras de que este homem dispôs para exprimir que, em tal projeto, ele pode participar não tendo que esconder suas frustrações e temores, nem abrir mão das suas necessidades ou desejos. Estes constituem, em lugar de um empecilho, precisamente, a fonte de onde provém seu impulso. Ou seja, talvez consista no mesmo processo que tanto afirmo dar-se através da força das emoções, desencadeando aqui o mecanismo dito identificação, que se concretiza no tão falado reflexo dos "espelhos" devolvido pelos insurgentes, sintetizado nesta frase certeira: Al sueño zapatista, cada quien lleva el suyo.

Essa dinâmica não poderia de modo algum ser adjetivada de "egocêntrica", pois confio que exatamente a correta consciência de si é que capacita a respeitar o outro. Assim, paralelamente ao que à primeira vista parece relativo só a um indivíduo, encontra-se, na verdade, o coletivo, assim como um suposto que nasce como singular pode terminar sendo prolongação do universal. Para esta idéia que em mim permaneceu difusa por muito tempo, descobri um reforço esclarecedor no que se resume a seguir:

Hoy la figura más acabada de lo universal no es la del ciudadano que se defiende intentando suturar las fisuras del Estado-Nación, sino la del actor que combina la lucha contra las fuerzas de dominación a través de la afirmación de una identidad individual y colectiva, con el reconocimiento del Otro. El Zapatismo es portador de una triple exigência -política, ética y de afirmación del sujeto- que resume en su formula: democracia, justicia, libertad, y más aún: dignidad (Le Bot, 1997, p.23)

Vemos que esse ponderado cuidado, em última instância do direito próprio, não implica ferir o alheio e sim desemboca na imprescindível consideração mútua. Esse é um objetivo para o qual o EZ faz tempo se exercita. Um dos seus primeiros momentos fica representado na comunicação entre o Sub-Comandante Marcos e o Velho Antônio , na qual as correspondentes cosmovisões não se contrapuseram uma à outra, nem se anularam a si mesmas, mas se encontraram e gestaram algo que resultou produtivo para ambas, ao construir o ideário do novo EZLN. Cabe ressaltar como isto exemplifica que algo, eventualmente, pode alcançar grande escala, começar e ser possível por meio do contato pessoal, do cara a cara e do poder de todos os afetos passíveis de aparecerem. Isto é claramente mostrado no relato de Marcos sobre as longas conversas que teve com esse ancião, dos seus diálogos com as crianças das comunidades com as quais convive, dos seus encontros com o personagem quixotesco "Durito". Para entender como estas figuras foram entrando no discurso zapatista, assim como as referências à mitologia indígena, aos símbolos nacionais e ocupando a afetividade seu espaço, é necessário abrir outro parêntese considerável onde o próprio Sub-Comandante o explica.

Dentro da citada entrevista realizada por Le Bot, há um momento em que Marcos fala a respeito da linguagem utilizada pelo Zapatismo, que me permitiu chegar a algumas deduções sobre o porquê e como aquele se constituiu, até do que não se encontra dito nele. Quando o grupo político-militar, na época da montanha, começou a receber as pessoas que se tornariam as fileiras do EZLN, a quem teria de proporcionar uma formação, compreendeu que não devia fazê-lo através da substituição de uma doutrina por outra (que no caso seria a religiosa aí bem arraigada, pela marxista que poderia ser tão dogmática quanto a primeira). Por outro lado, dizia ser um exército com inspiração em líderes populares como Emiliano Zapata, porém, sem ainda ter experiência de luta ou um discurso que assim o caracterizasse. Haveria portanto que criar sua própria linguagem, que lhe garantisse não só estabelecer um eficaz contato com a nova realidade, mas também conservar a essência da anterior. A inicial bagagem branca foi assimilada, transmitida e depurada desde a confluente perspectiva indígena, produzindo algo novo.

Mais tarde, quando o EZ atuou já publicamente, tendo antes aprendido o manejo dos símbolos índios, como os de Ik'al e Votán - divinidades mayas da noite e o dia, que por serem protetoras foram equiparadas, nas lendas chiapanecas, à pessoa de Zapata - acabou acrescentando outros símbolos em seu discurso, digamos de caráter pátrio, como a bandeira, a constituição e heróis nacionais. Creio que com isto teve a intenção de estabelecer também um bom enlace com o restante da nação mexicana.

Não se tratava precisamente de uma linguagem diferente da utilizada por diversos atores sociais como o governo, mas sim de outorgar outro significado não apenas às palavras, senão à história na política. Por exemplo, penso que não se interpreta do mesmo modo quando um camponês moreno, portanto de origem social e racial semelhante à de Emiliano Zapata, o evoca e quando o Presidente da República coloca esse nome no seu avião particular. Na primeira situação é como alimentar o imaginário novo com o familiar velho, de tal modo que se consiga ser entendido por uma mulher não escolarizada ou por um prestigiado intelectual. Tal confrontação entre os dois estilos fica acentuada uma vez que a retórica oficial tem desgastado essas imagens pelo seu abuso demagógico.

Além disso, o discurso do Movimento Zapatista, na busca de vias não preenchidas ou bloqueadas por parte das autoridades, descobriu bem a tempo o filão da Internet que, ainda não explorada por nenhuma outra organização similar, resultou bastante eficiente para sua difusão.

O último traço da linguagem do EZ, que aqui vai ser comentado e que fecha o círculo atrás aberto, é o de sua versatilidade que, em certas ocasiões, tem sido mal compreendida. Isto porque, como já vimos, conforme a situação social em que aparece, a linguagem modifica-se, porém em forma e não em essência. Isto me parece lógico e até necessário, uma vez que essa comunicação muda dependendo de a quem se dirige e segundo a natureza da sua emissão. Não seria, portanto, possível que o Zapatismo mantivesse inalterado o que dizia naquele período em que abriu fogo - por sinal, tempo curto de duas semanas - em relação ao que falou posteriormente, apesar de que nunca pôde esquecer, em todas suas ações, que entrou numa guerra. Então, tal discurso também varia se o propósito é se estampar como declaração, comunicado, carta ou pós-data. Em geral, é neste último formato - com o que conclui um documento oficial - que o Sub-Comandante Marcos sai mais do esquema esperado num porta-voz, tornando-se mais pessoal e expressando nitidamente os conteúdos emotivos mencionados ou até justificados por ele no que segue:

El Viejo Antonio muere em 1994, en junio, y yo lo conocí en 1984. Antes de morir, mandó un mensaje, pues ya estaba grave... es su legado, es la historia del origen, de los dioses que se sacrifican para hacer el Sol y la Luna, de por qué el carbón es negro y sin embargo de ahí viene la luz... Entonces me la manda, la saco en una postdata, y empiezo a acordarme de él, de las otras historias que después escribí. (p.153)
Así lo que hacía el Viejo Antonio, que traducía el mundo indígena para Marcos, lo hizo Marcos para el exterior, usando los mismos recursos...
En cuanto al escarabajo Durito, todo comenzó por un cuento que le mandé a una niña de 10 años que me escribió. Era una vieja história que databa de la época de la guerrilla solitaria. Lo publican y tiene éxito... Entonces, cuando vino la ofensiva de febrero, tuvimos que replegarnos a aquellos territorios en los que habíamos estado antes, y encontramos de nuevo aquellos escarabajos... Decidí retomar a Durito y explicar, a través del corazón, conceptos que van a la cabeza. Tenía que buscar la forma de explicar, lo que queríamos y lo que pensábamos. Y Durito era un personaje, como se convirtieron el viejo Antonio o los niños zapatistas que aparecen en los cuentos, que permitían explicar la situación en la cual estábamos y hacer que se sintiera antes que se entendiera. Nosostros no podíamos dirigir un discurso al bolsillo de la gente. No teníamos nada que vender. Ni a la cabeza, porque no podíamos aportar nada al análisis que ya existía, pero sí a su corazón, que era la parte más olvidada. No estamos hablando de que queríamos construir un discurso sentimental, apolítico, ateórico, sino que queríamos bajar la teoría al ser humano, de lo vivido, queríamos compartir con la gente las experiencias para poder reflexionar en seguida. (p.356)

Chama minha atenção que, mesmo no momento em que o Sub-Comandante foi tão explícito em relação à linguagem do EZLN, não chega a dizer abertamente que toda ela ganhou um teor afetivo, como se não percebesse o grande significado disto, nem de que a partir de certo ponto uma forte característica do Zapatismo é ser discurso Daí minha insistência em seu poderoso componente subjetivo, ainda que não esteja querendo reduzi-lo a ele.

Voltando especificamente a essa disposição que contempla o outro, podemos observar que ela buscou ser colocada em prática também na relação do EZ com essa porção da sociedade nacional e internacional que se aproximou dele. Vimos anteriormente alguns dos motivos para que esse encontro acontecesse - assim como, ao longo de outra descrição completa dos episódios em que este se efetuou -, no qual não apenas uma das partes deu ou recebeu. Isso porque o lado externo teve avivado o alento e sentido de sua procura de uma vida distinta daquela em que se encontrava imerso, coisificada pelas leis do mercado e provocando o desejo nele por um "mundo reencantado", o que exatamente acompanha a prática do Movimento Zapatista. O EZLN, por sua vez, através de cada um dos seus integrantes, sentiu que os de "fora" voltaram o olhar para ele, escutaram o que tinha a dizer, protegeram-no nas horas perigosas, atenderam-no em suas convocatórias e, de alguma forma, até hoje, seguem-no ou nele se inspiram . Desse modo, contribuem para o processo de reparação através do qual estes índios secularmente negados não apenas se afastam do perigo de deixar de existir, mas chegam, na realidade, a ser, a ponto de dizer: Finalmente existimos!.

Em suma, vemos que a Dignidade é constituída ou fortalecida por confrontação ou confirmação de um Outro. Em outras palavras, enquanto o governo federal, a oligarquía chiapaneca ou até parte da sociedade geral - ainda sob o influxo dos preconceitos de raça ou de classe - nega os zapatistas, paradoxalmente, estes mais se identificam e lutam pelo direito de definir não só a si mesmos, mas o próprio contexto em que querem estar incluídos com outros. É, também, bastante curiosa a maneira peculiar como o fazem: com armas mais difíceis de vencer que as militares, propagando, ao mesmo tempo, a rebeldia, a solidariedade e a alegria. Isto fica sintetizado na denominação que se deu ao conjunto deles como La Tierna Furia, ou numa passagem relatada por uma das participantes na chamada "Consulta pelo Reconhecimento dos Direitos dos Povos Índios e pelo Fim da Guerra de Extermínio :

Mi esposo y yo estuvimos en una mesa de Morelia, respondiendo las preguntas de los que tenían dudas o de los que no muy bién entienden de que se trata eso de la consulta. De repente se acercó una mujer y empezó a hablar conmigo. Yo le expliqué sobre derechos y cultura indígena, también de los derechos de mujeres. Luego llenó la boleta y la puso en la urna. Estaba tan contenta que me regaló sus zapatos, "disque" para que pueda seguir mi andada hasta lejos, yo como tenía mi par que "de por si" siempre uso, pues se los regalé. Ahora ya me regreso a Chiapas, al Aguacalientes de Morelia con los zapatos de esa compañera y los míos se quedaron con ella en su Morelia. (Maribel y Juan Diego, delegados del EZLN en Morelia, Michoacán).

Esse testemunho me parece que exprime o espírito fundamental que valorizo no Zapatismo: apesar da sua miséria material, ou talvez por causa dela, de maneira semelhante a outros pobres do mundo, é capaz de dar o melhor de si ou o único que possui, algo que só pode gerar no Outro a vontade de retribuir com o mesmo. Certamente, isto se dá dentro de um ambiente permeado por todos os afetos humanos possíveis, entre os quais há de ser relevante o do Amor, esse que não fica apenas contemplando os que lhe estão próximos, mas que atua por eles e com eles para sair à frente - às vezes indo longe. Neste caso, personificado na simples e rica figura de um par de sapatos, sobre o que não posso deixar de terminar falando em meu próprio idioma, eles são: zapatos para ponerse de pie, zapatos para buscar, zapatos para trabajar, zapatos para luchar, pero tambiém zapatos para aproximarse al Otro, zapatos para discutir o compartir y hasta bailar con él, en fin... zapatos de zapatista!

Resumo: Este texto, sendo originalmente o último item de uma tese em torno do Zapatismo surgido em Chiapas (México), procura fortalecer a hipótese de que nesse movimento - como em outros fenômenos sociais - existe, entre múltiplos elementos já reconhecidos, um não reconhecido mas bastante poderoso: a afetividade. O trabalho visa compreender a função que têm desempenhado os afetos no âmbito zapatista, transitando por algumas reflexões de pensadores diversos como Espinosa, os representativos da Escola de Frankfurt e outros; também pretende sublinhar a função positiva dessas forças, que tais autores têm referido como "conatus", "impulso de vida", "dignidade", etc.

Palavras-chave: Movimentos Sociais, Chiapas, EZLN, Afetividade.

Abstract: This text, the last part of a thesis on the Zapatista movement originated in Chiapas (Mexico), supports the idea that in said movement just as in other social phenomena there is a very powerful element among others already acknowledged that still calls for acknowledgement: affection. This work is focused on the understanding of this element of affection in the Zapatista environment while resorting to a few thoughts of different philosophers, like Espinosa and those of the School of Frankfurt, among others. It also intends to underscore the positive influence of such forces the authors previously mentioned referred to as "conatus", "life impulse", "dignity", etc.

Key words: social movements, Chiapas, EZLN, affection.

Referências Bibliográficas

ESPINOSA. Coleção Os pensadores, seleção e tradução de textos: Marilena Chauí, 3a. edição, São Paulo, Abril Cultural, 1983.

EZLN. Documentos e Comunicados. México, Era, 1994.

_____ . Declaraciones - Página Internet. 1998.

GILLY, Adolfo. La razón ardiente, México, Era, 1997.

HARDT, Michael. Gilles Deleuze: um aprendizado em filosofia, São Paulo, editora 34, 1996.

HUERTA, Marta Durán(copiladora). Yo, Marcos, México, Ediciones del Milenio, 1994.

LE BOT, Yvon. El Sueño Zapatista. Barcelona, Plaza & Janés Editores S.A, 1997

MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização, Rio de Janeiro, LTC Editora, 1999.

MATOS, Olgária C.F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do Iluminismo, São Paulo, Moderna, 1993.

ROVIRA, Guiomar. Mujeres de Maíz, México, Era, 1997.

 
  Indicar esta página a um amigo

Artigos e Publicações | Links | Cidadanias e Movimentos Sociais | Arte e Imagem | Sobre o Labi
Agenda | Contato | Últimas Novidades | Banco de Dados NIME/LABI