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Artigos
e Publicações
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Para
lá da encosta
(...)
Quando
Cabo Verde se tornou independente em 1975 a emigração
já fazia parte da história do país há
pelo menos um século e as principais comunidades cabo-verdianas
no exterior se encontravam instaladas em países como Estados
Unidos da América, Portugal, França, Holanda, Angola,
Países Baixos e Itália. A história do país
confunde-se com a história da sua emigração/imigração
e, como outros grandes acontecimentos coletivos, grande parte das
ações políticas orientadas para o projeto de
autonomia e independência ocorreram na diáspora, por
iniciativa de cabo-verdianos emigrantes[1]
ou estudantes na metrópole (Silva, 1995; Margarido, 1994).
De igual modo, após a independência, o governo e o partido
no poder, de inspiração marxista-leninista, encontram
resistências quando as suas decisões[2]
não coincidiam com as aspirações dos emigrantes.
Nestes casos, as reações vêm tanto do exterior
como dos que, no arquipélago, representam os interesses dos
emigrantes. Estes constituem o principal contingente populacional
do país e, ao enviarem a ajuda financeira aos seus familiares,
contribuem significativamente para o equilíbrio econômico
num país assolado por secas cíclicas[3].
A importância da migração fica evidente também
quando, na vigência do regime pluripartidário, a participação
das comunidades no exterior se mostra decisiva nos resultados das
eleições. Os emigrantes e a emigração
têm destaque nos programas dos partidos em disputa que prometem
facilitar as condições para o investimento dos emigrantes
no país e garantem o melhor desempenho das suas representações
no exterior junto às comunidades cuja participação
no diversos pleitos tem sido decisiva. Mas
é sobretudo na poesia e na novelística que a migração
cabo-verdiana melhor é descrita como constitutiva de um traço
importante na formação da identidade nacional e participante
na moldagem das maneiras de ser, de estar, de olhar o mundo à
volta e imaginar o mundo mais longe. Ali projeta-se uma problemática
real, com personagens emprestando a sua carga emocional e nostálgica
determinada pela insularidade, pelo apego à terra, pela ambivalência
do mar e pelo dilema do partir e do ficar. Nos romances, por exemplo,
a substância narrativa valoriza as relações intercontinentais,
o espaço do Eldorado que é o lugar-esperança
de uma ressureição econômica e da redenção
de um passado de penúria e de misérias. As vivências
dos personagens dão espessura humana e cultural, mostram as
ilhas como as bases para partirmos e Cabo Verde como o destino, quer
dizer, o lugar do qual é necessário partir para se regressar,
para construir, para progredir (Baltasar Lopes, 1993). A literatura
e a poesia mostram como a emigração alimenta a ilusão
de todo o cabo-verdiano de conhecer o mundo por intermédio
daqueles que partiram, pelas cartas que vêm de longe e pelo
sentimento obsessional de lugares melhores (Lopes, 1936:5). No campo
da cultura destacam-se as produções musicais, literárias,
do folclore e da culinária que parecem ter o poder de anular
as distâncias e de favorecer a constituição de
uma geografia sentimental que aproxime emigrados/imigrantes e as ilhas.
Em todos os campos da vida social, constróem-se acontecimentos,
coisas, espaços e momentos em que parcelas das histórias
das emigrações pessoais são compartilhadas com
os outros, mas, sobretudo, privilegiam-se os espaços e os eventos
em que melhor se revela “a voz do arquipélago chamando
tenazmente os emigrantes para o canto do mundo de onde partiram”
(Lopes,1993:96). Introdução Em
geral, a independência de Cabo Verde é pensada no seu
caráter de ação política e ideológica
e, sobre o fato migratório cabo-verdiano, o campo tradicional
de conhecimento destaca as causas endógenas (econômicas
e climáticas) e seus efeitos (fome e seca). Abordadas pelos
seus aspectos simbólicos, ambas apresentam múltiplas
significações que se referem, em particular, ao que
move as pessoas, aos laços e relações que criam
e às explicações que encontram no mundo, ao mesmo
tempo em que lhe conferem significados. Apontam, ainda, para a relevância
do mundo cotidiano e a força dos processos não-hegemônicos
e das resistências, esclarecendo, a nosso ver, sobre as especificidades
dos termos nacional, identidade nacional e caboverdianidade quando
atribuídos ao emigrante/imigrante. Contudo,
anos após a proclamação da independência,
não é de todo consensual que as mudanças propostas
na época tenham alcançado as mentalidades, as estruturas
pelas quais agimos e as ações no cotidiano (Lesourd,
1995; Margarido, 1994; Silva,1995). Questiona-se também, se
o processo de autonomia nacional teria atingido o objetivo de desmontar
os símbolos que remetem a Cabo Verde colônia, ou se,
ao contrário, sob a aparência ruidosa da inovação
das estruturas, foram mantidas as regularidades e as recorrências
que fazem da história pouco mais do que um constante recomeço.
Pelo raciocínio da regularidade histórica, também
o fato migratório não teria causas ou momentos distintos
ao longo da história, tratando-se seus diversos modos de apresentação
apenas de faces diferentes, reveladoras das mesmas crises, quer dizer,
de acontecimentos que não teriam um alcance histórico
prolongado por se submeterem rapidamente à busca das regularidades
e da preservação do nosso modus vivendi. Ao
assinalar-se o momento histórico em que independência
e migração se correspondem, tema sobre o qual têm
se debruçado diversos autores contemporâneos (Lesourd,1995;
Margarido,1994; Silva,1995;Cahen,1995;Vieira,1998), é introduzida
uma perspectiva temporalmente significativa, pois sugere o desenrolar
de um movimento histórico contraditório, não-linear
que engendra continuamente novas solicitações existenciais,
sociais, políticas e científicas, em oposição
às justificativas que se mantém presas às mesmas
causas, conseqüências e significados da independência
e da migração para os cabo-verdianos. A nosso ver, traduz-se
assim a dúvida de que, se a história é feita
de regularidades e permanências, pelo menos o nosso olhar sobre
os processos sociais pode mudar ao longo do tempo. E só é
novo o nosso olhar se novo for o objeto que se olha, porque não
poderá haver mudança no olhar sem que nada tenha mudado
no objeto do olhar, ao mesmo tempo em que este não pode ser
pensado sem o olhar que o olha (Santos, 1993). Diante
disso, os entendimentos que no período da independência
sustentaram propostas de mudanças nos campos social e político
resultaram dos entronsamentos e conflitos de interesse dos diferentes
atores sociais (e suas posições sociais) entre si e
do processo pelo qual as propostas de autonomia passaram pelos crivos
da percepção e da interpretação e pelos
caminhos do pensamento que vinculam ou não os acontecimentos
sociais. De uma vez por todas, acrescenta-se à dimensão
política do acontecimento da independência, o fato de
ser um marco na intenção de se estabelecer (novas) posições
ideais para a cultura, a religião e as produções
sociais, em geral, e de se introduzir outros fundamentos existenciais,
opostos aos que vinculam a existência de um ser colonizado.
Considera-se também a evolução conflitiva que
teve por se apresentar como um projeto emancipador, expansivo e renovador,
destaca-se o seu poder de imanar valores, regras, trajetórias,
sentimentos e de sustentar a criação de práticas,
do raciocínio prático e dos fazeres do dia-a-dia realizados
pelas pessoas. Do
mesmo modo, pela perspectiva que considera a migração,
seus múltiplos desdobramentos dentro e fora do país
e em relação a outros processos sociais importantes,
é possível destacar as construções pelas
quais adquire um caráter duradouro e generalizado, tornando-se
um dado estrutural ao institucionalizar-se pela relação
intrínseca entre um mundo de emigração e um mundo
de imigração e ao definir que cada lugar de onde se
ausenta ou para onde se vai torna-se um símbolo poderoso na
vida das pessoas e norteia as suas práticas. Estado-nação
e migração As
estatísticas confirmam que há mais cabo-verdianos no
exterior do que no país[4],
e, portanto, por um paradoxo singular, sustenta-se a afirmação
de que Cabo Verde “existe porque persiste a emigração”
(Saint-Maurice, 1997:47), tais as implicações deste
fato para a vida do país, em particular, para o seu universo
sociológico e cultural, forjado em todos os espaços
objetiva e simbolicamente ocupados pela migração. A
descoincidência entre a territorialidade geográfica (dez
ilhas e 4033 km2) e o nacional (as ilhas e a diáspora)
contudo, contraria o pleonasmo prático e teórico da
modernidade a propósito do Estado e da soberania nacional,
apoiado na presunção de que todas as prerrogativas atribuídas
ao Estado moderno se realizam na área delimitada onde este
reivindica o monopólio dos meios de coerção e
o uso deles (Bauman, 1999). Porém,
é por essa singularidade do caso de Cabo Verde que ficam evidentes
as articulações entre a independência (e a criação
do Estado-nação) e a migração e a possibilidade
de ambas se informarem mutuamente; para que o Estado que nasce com
a independência se legitime como representante de todos os cabo-verdianos,
e, portanto, se vincule à nação, é necessário
que atue além-fronteiras e que as noções sobre
o real espaço de vida dos nacionais se firmem numa perspectiva
de transcendência às fronteiras do arquipélago
e num espaço social que existe dentro dos limites legais de
muitos Estados-nações[5].
As circunstâncias em que nasce o Estado-nação
de Cabo Verde não coincidem com as dos Estados-nações,
tradicionalmente, comunidades rigidamente organizadas e fechadas,
com populações homogêneas e fixadas ao solo, cuja
identificação cria automaticamente o grupo dos não-nacionais
e as restrições específicas a que o deslocamento
dos emigrantes deverá obedecer (Arendt,1989). Em Cabo Verde,
o Estado criado com a independência imediatamente reafirma a
homogeneidade de uma população dispersa pelo mundo e
que, apenas simbolicamente, pode realizar as restrições
que seriam impostas pela fixação a um mesmo solo. Em
síntese, com a independência e a extensão da nacionalidade
aos emigrantes, procura-se constituir uma unidade que desafia o critério
da proximidade geográfica e, também, criar um
grupo fortemente identificado e identificável por causa de
simbolizações comuns dos seus membros. Para que o Estado
possa proclamar-se legitimamente como o representante dos emigrantes/imigrantes
e estes se reconheçam como por ele representados, adotam-se
estratégias que garantam o reforço do prolongamento
dos elos entre o “eu” do migrante e a nação,
num espaço muito mais alargado do que aquele fornecido pelos
limites insulares. Para isso, procura-se o reforço de uma mesma
identidade com base na homogeneidade cultural-linguística,
social, econômica, política e religiosa que pretende
repôr a ilusão de uma ordem nacional perfeita, sem as
conseqüências drásticas da divisão e da diversidade
impostas pela migração. Certamente que estas tentativas
de unidade fazem parte da história da migração
cabo-verdiana mas, com a independência, busca-se o integrismo
nacional e a submissão das ausências (que sempre se querem
e se acreditam provisórias) à competência e à
autoridade do Estado, pois o ideal a ser atingido refere-se a uma
nação indivisa, sem a imperfeição que
a ausência dos seus nacionais- pessoas- impõe, sem o
perigo que a migração representa para a afirmação
e identidade do Estado e como ameaça para o tripé formado
pelas soberanias militar, econômica e cultural em que se apoia.
Esvazia-se, simbolicamente, a categoria de “ausente”,
criam-se metáforas nacionais em torno do mito do retorno (como
um ato desejado e alcançável por todos), da constituição
de uma cultura nacional sem fronteiras e de uma identidade cultural
como sinônimo da identidade nacional. Este processo exige critérios
de afiliação não apenas formais mas sobretudo
simbólicos porque, explicitamente, pretende-se tornar as pessoas
participantes ou partes de um empreendimento conjunto de longo alcance
e abstração. E mesmo que tal afiliação
se refira a um agrupamento abstrato, deve tornar-se guia da ação
e de uma identidade pessoal que considere não apenas a história
pessoal como a história social (Strauss, 1996). Deste modo,
estariam garantidas as formas pelas quais as pessoas se persuadem
e são persuadidas a aceitar (e incorporar) aquilo que está
implícito a uma nova condição de Estado e a fundir
a sua identidade (nacional e regional) em relação aos
novos objetos e instituições políticas emergentes.
Por esta perspectiva, o que poderá garantir tal afiliação
é o fato de independência e a migração
terem como base as mesmas categorias sociais e políticas, nacionais
e nacionalistas que orientam os processos de objetivação
e institucionalização das ideologias de Estado e das
categorias referentes à migração e estão
presentes nas negociações de interesses e de significados
entre classes e pessoas envolvidas. Ao
mesmo tempo, para que a independência, representação
de parte da história objetivada e instituída, se transforme
em ação histórica e seja assumida pelos agentes,
é necessário que os investimentos anteriores destes,
portanto, a sua história, os predisponha a interessar-se por
esta parte da história objetivada (a independência),
e, por serem dotados das aptidões necessárias, se interessem
pelo seu funcionamento e estejam aptos a pô-la a funcionar.
Pelo mesmo processo, a migração feita história
objetivada não depende de uma relação de causalidade
mecânica entre o “meio” e a consciência, mas,
nos moldes descritos acima, de uma cumplicidade ontológica
entre a história “sujeito” e a história
“objeto”, uma relação de pertença
e de posse em que o corpo apropriado pela história se apropria
das coisas habitadas pela história que descreve a migração
cabo-verdiana. As estratégias adotadas para criar e manter
as noções de nacional, nacionalidade e caboverdianidade
que ultrapassem fronteiras, não são apenas políticas,
o mesmo podendo ser dito sobre as categorias pelas quais tais noções
são adotadas pelos agentes. Significa que esta adoção
só se realiza se se instaurar a concordância entre o
que os agentes são e o que fazem, “entre a sua “vocação
subjetiva” (aquilo para que se sentem feitos) e a sua “missão
objetiva” (aquilo que deles se espera), entre o que a história
fez deles e o que ela lhes pede para fazer (Bourdieu, 1985:87). Por
conseguinte, apenas com a concordância entre os agentes e a
história é que o Estado-nação pode transformar
o que era destino para os cabo-verdianos (a partida e a emigração/imigração)
em fator constitutivo de uma identidade nacional poderosa e retomar
os temas tradicionalmente associados à migração:
a saudade, o abandono indesejado da terra-mãe, a vontade constante
de retornar e a solidariedade entre os cabo-verdianos. Procura-se
alcançar as práticas e as mentalidades dos que estão
dentro e fora do país e garantir que os imigrantes se identifiquem
e sejam identificados pelo Estado-nação e transmitam
o sentimento de nacionalidade aos que nascem na diáspora. Entretanto,
cabe verificar se as atividades ordinárias dos imigrantes e
as exigências colocadas pelas suas estadias cada vez mais permanentes
(embora definidas pela provisoriedade) confirmam a intencionalidade
e a adesão à afiliação pretendida após
a independência e asseguram as predisposições
necessárias para sustentar as articulações entre
pessoas (migrantes) e os objetos e instituições que
são objetivações do fato independência.
Uma das dificuldades, aponta Strauss (1996) deve-se à participação
das pessoas em diferentes mundos sociais, em grupos extremamente reais
mas esquivos se comparados ao grupo da nacionalidade e da imigração.
A nosso ver, estas constatações nos remetem ao princípio
mesmo da história e das condições da migração
contemporânea. Próxima
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[2]
Por exemplo, sobre temas como o processo de reforma agrária
e a nacionalização de terras e dos reduzidos empreendimentos
produtivos do país [3]
Estiagens, secas e fomes são traços indissociáveis
da vida insular e sua ocorrência tem sido registrada desde
1580, com diferentes períodos de crise nos séculos
seguintes e interrupção do registro de mortes apenas
a partir de 1970. [4]
Dados preliminares do Instituto Nacional de Estatística
indicavam, para o ano 2000, mais de 500.000 cabo-verdianos emigrantes
e 434.263 habitantes em Cabo Verde. [5] Não nos referimos a uma intervenção que pretenda desafiar a ordem nacional dos países em que se encontram os cabo-verdianos; a participação é sobretudo em relação às formas de estar no exterior que estão implicadas com a ligação do migrante com a sua origem. |
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