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Artigos
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Livro: Memórias da Imigração-libaneses e sírios em São Paulo Autoras:
Betty Loeb Greiber, Lina Saigh Maluf e Vera Cattini Mattar
Edição:
São Paulo: Discurso Editorial, 1998, 772 págs. |
“Vinham
de terceira, tudo de terceira. Traziam com eles: hallaue, traziam
chanclich (queijo árabe), traziam ...zahede (merenda).
A viajem levava um mês naquele tempo, ou 40 dias no máximo.
Nove libras, naquele tempo eram 108 cruzeiros. Era o preço de uma
passagem de terceira classe de Homs para o Brasil.”
(Sr.
Mussa Chacur, data de chegada ao Brasil 1909)
Memórias
da Imigração-libaneses e sírios em São Paulo
reúne 54 entrevistas e 67 entrevistados que contam suas trajetórias
de vida desde o momento em que seus pais ou eles próprios deixam
o Líbano e a Síria, para tentar vida nova no Brasil. Para
quem pesquisa o processo imigratório árabe em direção
ao Brasil (e em especial São Paulo), este livro traz uma coletânea
de entrevistas que não passaram por qualquer processo de análise
ou reflexão. Trata-se do levantamento feito pelas autoras praticamente
em estado bruto! Este tipo de material abre um leque muito grande de
possibilidades de trabalho a respeito desse tema. Do
início das entrevistas até a publicação
do livro passaram-se dezesseis anos. Nesse tempo as autoras reuniram
em um único volume um trabalho belíssimo de resgate da
memória desses primeiros imigrantes árabes – e de
seus descendentes. As
histórias de vida relatadas têm um conteúdo emocional
muito forte. Abrangem a dor da saída da terra natal, da separação
de entes queridos e das paisagens familiares construídas ao longo
de uma vida. A chegada ao Brasil também é retratada. O
‘país do futuro’, onde nada poderia dar errado, a
esperança de reconstrução da vida, em liberdade,
sem o controle do Império Turco-Otomano, preenchem boa parte
das lembranças desses imigrantes. A
maior parte dos depoimentos retratam o cotidiano na cidade de São
Paulo. Eles falam como era viver em São Paulo, das atividades
econômicas que desenvolviam, das formas de lazer que elaboraram.
A montagem de clubes, como o Homs, o Zahle, tinham como objetivo não
só a diversão mas também a possibilidade do encontro
com pessoas das mesmas aldeias, com costumes semelhantes e que pudessem
compartilhar lembranças. Não raro, referem-se aos clubes
como uma maneira de conservar os hábitos, como por exemplo, a
alimentação. Poucos entrevistados mencionam a dificuldade
de ‘acostumarem’ com o novo modo de vida. As diferenças
culturais são muitas vezes mascaradas de alguma forma. A alimentação,
as práticas religiosas, as regras sociais eram muito diferentes
daquelas vividas no Oriente Médio. Vejamos o seguinte trecho: “Alice
Maluf – (...) se você gosta de um vestido meu, eu empresto
para você copiar. Aqui, quando cheguei, eu perguntava: ‘Onde
você faz seus vestidos? Porque eu não sabia de costureira
nem nada! Diziam: Você tem uma família tão grande
e está me perguntando?’ ou ‘Numa costureira’.
Eu até chorava à noite! Como eu perguntei uma coisa dessas?
Perguntavam muita coisa do Líbano mas não me contavam
nada daqui. Eu contava para meu marido, ele dizia: ‘Você
compreendeu errado!’ Ele também não me apoiava!...”(...)
Mas a gente sofre (...) Tínhamos uma vida social muito interessante
(no Líbano). E aqui era muito difícil. Até hoje
é difícil ... Eu chorava muito, eu era nova aqui. Eu achava
muito, muito triste ... (Depoimento de Alice Maluf p. 711-712) Histórias
de vida como esta, nos dão um excelente contraponto com relação
à visão idílica da perfeita adaptação
dos imigrantes de um modo geral, aos locais em que chegavam. Na maior
parte dos casos a chegada e a convivência inicial eram muito difíceis.
A diretora Tizuka Yamazaki mostra muito bem essa dificuldade quando
faz o filme Gaijin-Caminhos da Liberdade. Ela mostra o extremo
dessa dificuldade ao retratar o suicídio de uma das personagens,
que não agüenta viver longe do Japão. Essa personagem
veste seu melhor quimono, e se enforca dizendo estar vendo novamente
o Mar do Japão. Apesar
de sabermos que as dificuldades existiram e que eram muitas, os imigrantes
muitas vezes as negavam e chegavam a afirmar que quem não ‘conseguiu
se fazer’ no Brasil é porque era preguiçoso, vagabundo
e assim por diante. Sentidos como o expresso na seguinte frase: ‘Eu
tratava de subjugar as dificuldades com a vontade de vencer e eu consegui.’
(Sr. Jorge Germanos, p. 733), podem ser encontrados permeando
a fala dos entrevistados. O sucesso no trabalho e o enriquecimento aparecem
obrigatoriamente como forma de compensar as angústias sofridas
pelas mais diversas formas de separação. Assim, com raras
exceções admite-se o ‘fracasso’. Em
alguns poucos momentos os entrevistados chegam a abordar o fato de que
alguns patrícios não se deram bem. E logo em seguida
explicam que a culpa é dele próprio, pelos mais variados
motivos. Os
depoimentos nos dão muitas vezes a sensação de
estarmos entrando no cotidiano daquelas pessoas. Nesse sentido não
podemos deixar de referenciar o papel que o mascate desempenhou para
a colônia e para as pessoas que lhes compravam as mercadorias.
No falar desses entrevistados ele chega a ter a dimensão quase
que de um herói. Apresentado como o verdadeiro bandeirante,
já que percorreu os mais distantes e inóspitos lugares
do Brasil, o mascate é um dos importantes símbolos desse
grupo social. Ele representa o trabalho extenuante, a vontade de vencer
e a coragem desses imigrantes na nova terra. Outra
questão interessante é quanto à discriminação
racial. No Brasil dos sírios e libaneses ela era praticamente
inexistente. Não haviam disputas entre esses imigrantes em função
da religião, das diferentes etnias ou nacionalidades. A primeira
impressão que se tem é todas essas incongruências
ficaram a bordo dos navios que os trouxeram. No país classificado por eles como o do futuro essas coisas eram impensáveis ou impraticáveis. |
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