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Artigos e Publicações


FRIDA KAHLO: PERSONAGEM DE SI MESMA[*]
por Lígia Assumpção Amaral[**]
Instituto de Psicologia/USP



"A angústia e a dor - o prazer e a morte, não são mais que um processo de existir."

Frida Kahlo

Inicio explicitando o sub-título: quero com ele dizer que o "corpo dolorido" de Frida a faz - muitíssimas vezes em sua obra - personagem de si mesma.

Mas antes compartilho o fato de que o ano de 1987 recém iniciara quando, fascinada, entrei em contato com a obra de Frida Kahlo, ao receber de presente um livro sobre sua vida, de autoria de Hayden Herrera, que descortinou-me o universo expressivo dessa grande pintora mexicana. Acaso? Talvez.

Choque, fascínio, admiração, desconcerto, identificação, enigma... Pobres são as palavras para descrever minhas sensações frente a essa “descoberta”. Por ela me apaixonei e sobre sua vida e sua obra debrucei-me entusiasticamente, desde então. Hoje, ao ser convidada a escrever um artigo, sinto-me sem saber o que selecionar para compartilhar com o leitor em tão poucas páginas. São anos e anos, livros e mais livros, revistas, reproduções, vídeos, visitas a museus... embaralhando-se em minha mente e em minha casa.

O número da revista está dedicado à América Latina e meu primeiro movimento é no sentido de situar Frida a partir de grandes vertentes políticas e artísticas vigentes no México em que nasceu, viveu e morreu. Mas, como sinto que ela não pode e não deve ser pensada como uma simples ilustração de um contexto sócio-cultural, escolho (após muito tempo frente à folha em branco) privilegiar um recorte de cunho biográfico. Todavia, mais do que sintetizar sua vida-obra, desejo lançar, na alma do leitor, a semente do desejo de melhor conhecer essas maravilhosa mulher.

FALEMOS, POIS, DE FRIDA

Pensei, inicialmente, em apresentá-la através de alguns adjetivos utilizados por seus biógrafos: “feminista”, “ativista política”, “mexicanista”, “surrealista”, “pioneira”...

Depois decidi compartilhar os títulos e sub-títulos de alguns dos livros que falam sobre a artista e que, de alguma forma, a nomeiam, desde simplesmente “Frida” até “O pincel da angústia”, passando por “Mulher, ideologia e arte”, “Fantasia de um corpo ferido”, “Uma vida aberta”, “Dor e paixão”...

Seja por trás dos adjetivos, seja por trás dos títulos, o que se vislumbra é uma mulher plena de ambivalência: energia e fragilidade, entusiasmo exaltado e dor, coragem e recuo, conquistas e retrocessos, altos e baixos, exposição e resguardo. E como pano-de-fundo, por um lado, certa “impermeabilidade” a elogios e críticas e, por outro, a constante presença da DOR.

De sua biografia alguns pontos se sobressaem: a ascendência mesclada; a deficiência precoce, o escamoteamento inicial e as calças compridas; o acidente, a subseqüente limitação, a eleição pelas vestes de tehuana; as ligações e os rompimentos; a vivência de traições; a busca incessante de amores; a entrega à Arte; a identificação com os marginalizados e com os dramas humanos; o constante rodear-se de pessoas, o “narcisismo”...

Com esse pano-de-fundo convido-os a fazer comigo um breve percurso pela vida/obra de Frida Kahlo, detendo-nos, especialmente, na vivência e retratação da DOR e da SOLIDÃO.

Pontuo, antes, três frases que nos falam de “bastidores”. Nas palavras de Raquel Tibol (1985: 10):

Nos quadros de Frida o óleo se mescla com o sangue de seu monólogo interior.[***]

E:

Não é a tragédia o que preside a obra de Frida. Isso foi muito mal entendido por muita gente. A treva de sua dor é apenas o fundo aveludado para a luz maravilhosa de sua força biológica, sua sensualidade, sua sensibilidade finíssima, sua inteligência esplendorosa. Disse Diego de Rivera, conforme a autora citada.

Ou ainda, à pergunta: “Sabes que és bonita e por isso te pintas?”, formulada por Maria Monteforte Toledo, Frida respondeu:

Não. É que estou quase sempre só e me pareço com muita gente e com muitas coisas

Um pouco de muita vida

De acordo com todas as biógrafas e estudiosas consultadas, a 6 de Julho de 1907 nasce Magdalena Carmen Frieda Kahlo Calderon, na “Casa Azul” da Rua de Londres, em Coyoacan, cidade do México. É a terceira filha de Matilde Calderón y González Kahlo e Guilhermo (Wilhelm) Kahlo - este em seu segundo casamento.

Frida porém insiste, durante toda sua vida, em afirmar que nasceu em 1910, ano memorável na história mexicana. Por sua versão, portanto, teria nascido com o espoucar dos tiros do movimento zapatista (Zamora, 1987: 7)- veremos mais à frente o profundo sentido dessa reivindicação, uma vez que desde muito jovem Frida irá se ligar a ideários socialistas e de caráter libertário.

Matilde, sua mãe, nascida na cidade do México é, pelo lado materno, descendente de um general espanhol e, pelo paterno, de nativos mexicanos. Guillermo, o pai, nasceu em Baden-Baden, na Alemanha, filho de um casal de judeus húngaros que para lá emigraram. Após a morte da mãe, Guillermo, aos dezenove anos, embarca com destino ao México, ali se firma profissionalmente, como fotógrafo, ali se casa por duas vezes e ali vem a morrer.

Durante muitos anos Frida grafa seu terceiro prenome com “e” (Frieda), mas com o advento do nazismo, na década de 30, deixa de fazê-lo (Herrera, 1985: 22). A parcial ascendência alemã será desde então causa de uma dentre suas inúmeras ambivalências.

Em sua obra de 1936 “Mis abuelos, mis padres y yo” dispõe os rostos dos avós maternos sobre uma paisagem montanhosa e os dos paternos flutuando sobre o oceano. Anos depois, na década de 50, Frida faz outra versão de sua ascendência, que fica inacabada.

Na infância cursou os anos elementares na Escola Alemã, ali permanecendo até ingressar na Escola Preparatória.

Frida pata de palo”: um corpo desconfortável

Em 1913, 1914 ou 1916 (os biógrafos divergem quanto à data), Frida contrai poliomielite, ficando com ligeiro encurtamento e atrofia na perna direita - que ela disfarça usando duas ou três meias, uma sobre a outra, para engrossar a parte mais delgada (Zamora, 1985: 11). Coxeia.

Em função disso as crianças de Coyoacan zombam dela. Para superar o sofrimento que essas zombarias lhe causam, Frida circula pelas ruas e jardins fazendo verdadeiras acrobacias em bicicleta ou patins, conforme relatam algumas de suas biógrafas, como Raquel Tibol (1985: 15).

A esse respeito sua amiga de infância Aurora Reys declara: “Éramos bastante cruéis por causa de sua perna. Quando passava em sua bicicleta gritávamos: Frida, pata de palo, e ela costumava revidar, furiosa, com muitas maldições.” (Apud Herrera, 1985: 26)

Todas as biógrafas afirmam, também, que numa fase posterior usará “roupas de homem”: calças compridas, colete, paletó... escolhendo-as, inclusive, para ser retratada.

Em 1922 ingressa na Escola Nacional Preparatória, com vistas a formar-se em Medicina. É uma das 35 moças num contingente de 2.000 rapazes! (Zamora, 1985: 14)

Passa a integrar um grupo de estudantes, todos eles extremamente politizados e ávidos de conhecimentos, que buscam nas leituras e em longas discussões sobre as mesmas conhecer cada vez mais, e melhor, questões relacionadas a temas tão variados como: política, artes plásticas, filosofia, literatura... (Zamora, 1985: 16). São os Cachuchas.

Nessa ocasião “espreita” Diego Rivera, que ali está para pintar o afresco “Criação”. Diverte-se, com as colegas de escola, provocando ciúmes em Lupe Marin, a então mulher do pintor (Zamora, 1985: 30). Ao que tudo indica nessa fase Frida não mostra pelo homem Rivera mais que enorme curiosidade, assim como por sua obra muralista.

Em 1924 e 1925 tem aulas de desenho dadas por um tipógrafo (vizinho da “Casa Azul”) e cobiça a caixa de tintas do pai que, além de fotógrafo oficial do Governo, é pintor. Nesse atelier lhe é dada sistematicamente a tarefa de copiar obras de Zorn, especialmente como treino para gravação em metal (Zamora, 1985: 250).

Um corpo mutilado e uma obra que se inicia

O ano de 1925 trará consigo o colorido da tragédia no fato que mudaria sua vida: a 19 de setembro sofre um acidente quando - pela colisão do ônibus (onde está em companhia do namorado Alejandro Gómez Arias) com um bonde - tem o corpo atravessado pelo corrimão.

Em algumas ocasiões Frida afirmou que o ferro entrou pela vagina e saiu pelas costas, atravessando sua coluna vertebral. Depoentes relatam como mais acima, ainda que na região pélvica, a trajetória do corrimão por seu corpo (Zamora, 1985: 24). De qualquer forma o trauma físico é fortíssimo e ela passa um mês no Hospital da Cruz Vermelha.

É exatamente nesse período que recebe de presente, e para sua “distração”, a cobiçada caixa de tintas do pai. Começa então a pintar. A esse respeito irá construir várias versões, no decorrer de sua vida. Uma delas é a de que:

Como era jovem, a desgraça não adquiriu um caráter trágico naquele momento: acreditei ter energia suficiente para fazer qualquer coisa que substituísse o estudar para ser doutora. Sem prestar muita atenção, comecei a pintar (...) minha mãe mandou fazer um cavalete num carpinteiro - se assim se pode chamar o equipamento especial que se prendia à cama onde eu estava reclinada, uma vez que por causa do gesso não podia me sentar. (Apud Herrera, 1987: 63)

Pela conveniência dessa condição de imobilidade “escolhe” pintar retratos - que virão a ser, todavia, a própria tônica de toda sua obra, com especial ênfase nos auto-retratos - mais de quarenta, se não incluirmos as obras em que também aparece embora não se caracterizem como auto-retratos propriamente ditos.

Quanto ao acidente, somente um ano depois Frida o reproduz plasticamente. É um desenho, quase esboço, em estilo de obra ex-votiva - sem regras de perspectiva etc. - tão caro ao povo mexicano. Interessantemente muitos anos depois - mais precisamente em 1943 - encontra um retábulo com tema tão parecido com o acidente que sofrera que são precisos apenas alguns retoques para fazer sua a experiência: acrescenta alguns escritos no bonde e no ônibus, coloca sobrancelhas unidas na vítima e compõe uma dedicatória dos pais, dando graças pelo milagre de sua sobrevivência.

Em seu percurso de pintora, sua primeira obra “séria” é o “Autorretrato con traje de terciopelo” de 1926. De acordo com suas declarações, foi pintado como presente a Arias, o namorado à época do acidente, numa tentativa de reconciliação. Explica a ele, em bilhete que acompanha o quadro, que o mar ao fundo é “um símbolo de vida - de minha vida” (Herrera, 1987: 60) e pede que o coloque numa altura baixa para que possa olhá-la nos olhos. Formalmente o quadro reflete tanto o interesse de Frida pela pintura italiana renascentista como por Modigliani.

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[*] Este artigo corresponde a um recorte da pesquisa que resultou em minha tese de Livre-Docência (AMARAL, 1998)

[***] Esta citação e as posteriores foram por mim traduzidas.

 
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