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Artigos e Publicações

Os resultados da escolarização entre os Kaiowá e Guarani no Mato Grosso do Sul
"Será o letrao ainda um dos nossos?"
por Veronice Lovato Rossato


Capítulo I
Os Kaiowá e Guarani

1.1 Contexto Histórico[12]

Os Guarani[13] vivem hoje espalhados pelo Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. São divididos em três grupos: os Mbyá, no litoral, com uma população estimada em 10 a 11 mil pessoas; os Avá-Chiripá ou Ñandéva, no interior dos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraguai, estimados em cerca de 9 mil pessoas; e os Pãi Tavyterã ou Kaiowá, no Paraguai e Mato Grosso do Sul. Estes últimos são cerca de 35 a 40 mil pessoas, dos quais 24.523 (ROSSATO e NANTES, 1999, p.15) residem na região da Grande Dourados/MS, incluindo a presença, em pequeno número, de Guarani Ñandéva, únicos na região que se autodenominam, simplesmente, como Guarani[14].

Os atuais Kaiowá/Guarani do Mato Grosso do Sul são considerados descendentes dos Itatim, “descobertos” em 1548. Os que não foram atingidos pelos “encomendeiros”[15], ou pelos bandeirantes, ou reduzidos nas Missões pelos jesuítas a partir de 1632, preferiram esconder-se no mato. Eles eram conhecidos como Caaguá (habitantes da mata), denominação dada pelos colonizadores para grupos guarani bem distintos: “Substituye las autodenominaciones de las parcialidades para no retener sino el aspecto de marginalidad de quien vive fuera del espacio ‘politico’ colonial” (MELIÁ, GRÜNBERG e GRÜNBERG, 1976, p.169). São aqueles Itatin “no colonizados ni misionados, pero en contacto con la colonia y la misión; ahí estribaría su identidad y su diferencia” (idem, p.168), os quais seguiram nas matas até o século 20.

Ocupavam, desde o século 18, um território (ñane retã) bastante amplo e fértil, que se estendia pela região oriental do Paraguai e pelo cone sul do Mato Grosso do Sul, região da Grande Dourados (até o Rio Apa), numa área de, aproximadamente, 40 mil km2, habitat dos Pãi/Kaiowá, atual configuração dos antigos Caaguá. Estabeleceram contato com os “brancos” a partir da definição dos limites entre portugueses e espanhóis, por volta de 1777 e, com mais intensidade, após a guerra do Paraguai, que terminou em 1870.

Os Kaiowá/Guarani viviam em aldeias - tekoha - que congregavam uma ou várias famílias extensas, sendo chefiadas por um líder religioso (tekoaruvicha) [16]. Tekoha é o lugar (ha) onde se realiza o teko – sistema[17], cultura, lei, costumes, modo de ser e de viver específico dos Kaiowá/Guarani –, ou ainda “o lugar e o meio em que se dão as condições de possibilidade do modo de ser guarani” (MELIÁ, 1989, p.336), e “fundador de sua identidade” (BRAND, 1997, p.124). Este lugar específico, para ser viável, supõe uma terra específica, não qualquer terra nem de qualquer tamanho, boa para a agricultura e suficiente para abrigar a/as famílias extensas com toda sua parentela[18], tendo, para cada uma, espaço para a roça nova e antiga[19], para as casas com seus pátios, e mais mata, capoeira ou campo e água. A terra é para os Kaiowá/Guarani “uma instituição divina oferecida pelo deus criador com exclusividade à comunidade que nela reside” (AZEVEDO, 1991, p.17), sustentada pela inter-relação de espaços e valores econômicos, sociais, religiosos e políticos próprios, que compõem o ñande reko (“nosso jeito de ser e de viver”), ou nosso sistema tradicional. Esta concepção de terra é “o esteio da identidade deste povo” (idem, p.18), cujos princípios vêm sendo negados e inviabilizados pela espoliação de seus tekoha tradicionais e pelo confinamento a que estão submetidos.

Em 1882 instalou-se em todo território pãi/kaiowá a Cia. Mate Laranjeiras, usando os índios como mão-de-obra[20] para a extração da erva-mate, que é nativa nesta região. Esta Companhia dominou na região até 1943, mas significou “importante elemento de proteção do território kaiowá”, pois era “um grande empecilho para a penetração de outros contingentes de colonizadores” (BRAND, 1993, p.51). Também no final do século 19 chegaram os primeiros migrantes gaúchos, iniciando a instalação de fazendas de gado, mas, como se fixaram nos campos, eles não interferiram diretamente onde estavam os índios, pois estes ocupavam as matas. Começava, assim, a disputa pelas terras que faziam parte do território kaiowá/guarani.

Com objetivo de liberar as terras para a colonização, de 1915 a 1928 o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), órgão do governo federal[21] reservou oito pequenas áreas de terra para os Kaiowá/Guarani de, no máximo, 3600 hectares cada, em toda região da Grande Dourados, somando 18.297 hectares. A escolha destas áreas não levou em conta “a localização dos tekoha tradicionais, mas sim a concentração maior de índios, muitas vezes em função dos trabalhos da Cia. Mate Laranjeiras” (idem, 1993, p.67) e estrategicamente próximas a um núcleo urbano[22]. A primeira reserva demarcada foi a de Amambai, com 3.600 ha, mas logo sofreu a primeira redução, perdendo mais de 1000 ha. As demais são: Dourados, Caarapó, Limão Verde, Takuapery, Sassoró, Porto Lindo e Pirajuí. Estas duas últimas foram reservadas para os Guarani-Ñandéva e as demais para os Kaiowá[23].

Entretanto, as aldeias tradicionais começaram a ser realmente atingidas e “atropeladas”, a partir da década de 1940, com o início do desmatamento sistemático em toda região – os próprios índios eram a mão-de-obra para as derrubadas – para a implementação definitiva da colonização nas terras dos Kaiowá/Guarani. Primeiro foi a instalação da Colônia Agrícola Nacional (CAN), pelo então Presidente Getúlio Vargas, em 1943, na região da Grande Dourados, que atingiu em cheio as aldeias onde moravam os Kaiowá do Panambizinho[24]. As demais aldeias, localizadas nas outras regiões de mata, começaram a ser destruídas a partir de 1950/1960, principalmente para a instalação das fazendas de gado. Enquanto necessários como mão-de-obra barata e disponível, os Kaiova/Guarani podiam ficar tranqüilos em suas terras; mas concluído o desmatamento, eram simplesmente expulsos.

Empreendeu-se, então, com o apoio dos órgãos oficiais (SPI e depois FUNAI), um processo relativamente violento de redução territorial e confinamento compulsório, que durou até o início da década de 1980, com a transferência sistemática e forçada das diversas aldeias kaiowá/guarani para dentro das oito pequenas reservas demarcadas pelo governo. Mas, tal como na época dos encomendeiros e das reduções, algumas aldeias resistiram ao confinamento das reservas, instalando-se nos fundos das fazendas que ainda não haviam sido desmatadas.

No entanto, o impacto do confinamento se torna insuportável quando, a partir da década de 1970, com a segunda migração de gaúchos para esta região, começa a mecanização das lavouras para o plantio de soja, provocando “o fim das aldeias refúgio [...] nas últimas matas onde os Kaiowá se refugiavam” (idem, 2000, p.5).

Mas é também nesta década, mais precisamente a partir de 1978, com o apoio da Igreja Católica e de organizações não governamentais (ONGs), que começa a luta para interromper essa prática histórica. Após muitos anos de expulsões e retornos, finalmente, em 1984, duas comunidades kaiowá conseguem o reconhecimento de suas terras, as primeiras demarcadas depois de 1928. Desta data até hoje, os Kaiowá/Guarani já recuperaram 15 áreas tradicionais, perfazendo um total de 23 áreas, o que equivaleria a 47.728 hectares (CIMI/CPI/SP, 2000, p.15-17), se os processos estivessem concluídos e os índios com a posse plena das terras. Reivindicam mais 110 áreas tradicionais (BRAND, 1997, p.302-338), das quais, cinco áreas aguardam providências da Funai (Ver mapa das áreas indígenas dos Kaiowá/Guarani no Mato Grosso do Sul em anexo).

A falta de terra é, obviamente, o grande problema para os Kaiowá/Guarani do Mato Grosso do Sul. O impasse maior para o modo específico dos Kaiowá/Guarani está nas oito reservas demarcadas até 1928, onde hoje se encontra a população das dezenas de aldeias destruídas durante as últimas décadas. É justamente nestas reservas que os índices de suicídios de jovens de até 20 anos se mantêm elevados e constantes. As transformações dentro destas áreas reservadas são algo que desafia o modo-de-ser tradicional (tekoyma) dos Kaiowá/Guarani, causando problemas e alterações na economia, na organização política e familiar e na relação com o sobrenatural, inviabilizando a religião tradicional.

Observa-se, nas reservas, a sobreposição de lideranças, uma vez que estão ali concentradas diversas aldeias e famílias extensas, cada qual com seu sistema de chefia: os capitães[25] se sobrepõem aos líderes religiosos (caciques/rezadores), mas não conseguem ‘administrar’ as reservas e resolver os problemas hoje ali existentes. Antes, os tekoharuvicha garantiam seu poder com apoio da parentela que formava o tekoha. Mas sua autoridade era baseada no prestígio adquirido pelo serviço prestado à comunidade e através da oratória e do convencimento. Hoje os caciques/rezadores estão acuados e desprestigiados, principalmente por causa do esfacelamento da família extensa que lhes dava sustentação[26]. Por outro lado, o poder e o prestígio dos capitães[27] vêm, em grande parte, de relações fora da comunidade, especialmente com o órgão oficial e outros setores externos com os quais mantêm relações de cooperação e de onde vêm os recursos que ele distribui. Atualmente, a elevação do nível de demandas na administração das áreas está exigindo a convocação, para o cargo, de indivíduos com outro tipo de qualificação, o que tem sido buscado entre os jovens escolarizados, os quais estão disputando com os capitães mais tradicionais, e utilizando novos parâmetros de legitimidade, tais como a eleição através do voto[28], e não mais o consenso, como era a prática tradicional.

Estas demandas tanto mais se acentuam, quanto mais mudanças ocorrem na economia tradicional, baseada na agricultura de coivara, na coleta, na caça e na pesca, inviabilizada pelo confinamento. Em decorrência da superpopulação, que reduz o espaço disponível, o ecossistema das reservas está completamente alterado, provocando o esgotamento de recursos naturais importantes para a qualidade de vida numa aldeia kaiowá/guarani. A mata desapareceu por completo, sendo substituída pelo colonião ou braquiária[29], e assim, em alguns lugares não há mais nem lenha para o fogo; a água é pouca ou está poluída e as nascentes comprometidas pela falta de proteção verde. Além de pouca terra para plantar, o solo está enfraquecido e bastante prejudicado pela erosão, sem contar a mecanização das lavouras para o plantio de soja, ocorrendo dentro das reservas problemas de concentração fundiária, especialmente em Dourados, enquanto que para alguns índios só sobra um pequeno lote do tipo urbano. Também começa a se disseminar pelas áreas indígenas a prática da compra e venda de lotes de terra.

Assim, com o comprometimento das condições que viabilizariam a economia própria dos kaiowá/guarani, a miséria, a fome, as doenças e a violência tomam conta de muitas famílias, que, aliadas às alterações no sistema de chefia tradicional, vem gerando, cada vez mais, uma estratificação social entre os Kaiowá/Guarani, algo inimaginável no tekoyma.

“O deslocamento espacial sempre foi a grande estratégia kaiowá [guarani] para a superação de conflitos e tensões internas” (BRAND, 2000, p.6). O fenômeno do “oguata” (caminhar, peregrinar), dentro do território Kaiowá/Guarani (ñane retã), tendo em vista a busca de outro lugar para construir novas aldeias, ocorria “toda vez que determinadas condições tornavam indesejável a permanência naquele local”, tais como, desentendimentos internos, práticas de feitiço, excesso de doenças, [...] desgaste da terra, esgotamento dos recursos naturais e, portanto, das condições de subsistência” (idem, ibidem).

Hoje, no entanto, o deslocamento em busca de novos espaços tem sido quase impossível, uma vez que seu território foi drasticamente reduzido, aumentando, na mesma proporção, as razões para “oguata”. Como não têm mais para onde ir, com a maximização dos conflitos e tensões internas, geradas pelo confinamento, também aumenta, consideravelmente, a violência e os desequilíbrios, principalmente nas reservas.

A falta de condições de subsistência dentro dessas reservas, aos poucos, obrigou os índios, principalmente os mais jovens, a buscarem alternativas na colheita de algodão e braquiárias e, nos últimos anos, nas usinas de álcool. Como conseqüência do assalariamento compulsório, a ausência prolongada dos pais de família[30], provoca o desencadeamento de rupturas dentro da estrutura familiar tradicional e da sociedade como um todo, pois a família é a unidade básica da sociedade kaiowá/guarani onde se articulam questões importantes no campo da economia, da política e da religião. Há muitas separações de casais e é sobre as mulheres que pesa o sustento dos filhos, porque o salário dos pais dificilmente é usado para isso.

Essa instabilidade familiar faz crescer o número de “guachos”, ou seja, de crianças criadas por terceiros. As que ficam na família não recebem, ou não querem mais ouvir, os conselhos dos mais velhos, e isso é visto por muitos índios como causa de suicídios. Por isso também os adolescentes muito jovens se casam ou vão para as destilarias, abandonando a escola. Verifica-se o aumento da incidência de prostituição e de estupros.

Até a década de 1970, a religião kaiowá/guarani (teko marangatu) continuava a afirmar e viabilizar o modo-de-ser tradicional, tekoyma, pois aí o Estado não intervinha. Com a radicalização do confinamento, o crescente impasse no modo de ser tradicional reflete-se, também, na relação dos Kaiowá/Guarani com o sobrenatural, afetando a religião tradicional, “último refúgio de resistência kaiowá/guarani” (BRAND, 1997, p.205). Cresce, em contrapartida, o ingresso em igrejas neopentecostais[31], as quais sinalizam “para um individualismo que se traduz [...] em busca de saídas econômicas individuais para as suas famílias nucleares” (idem, p.270). Traduz-se também na valorização de sinais indicativos do caráter de exterioridade dessa nova fé: roupas melhores, casas e móveis no padrão não-indígena, aparelhos de som e TV e, ultimamente, telefones celulares. Uma vez que a situação econômica nas comunidades kaiowá/guarani vem se deteriorando cada vez mais, estes elementos são entendidos como “melhoria da qualidade de vida”, mesmo que a casa coberta de “eternit” torne insuportável agüentar as mudanças de temperatura e que os aparelhos eletrônicos durem pouquíssimo tempo. As novas igrejas continuam, nos dias de hoje, aquilo que já se propunham os antigos colonizadores: cristianizar para “civilizar” para integrar; ou seja, para ficar fora do sistema tradicional.

Por outro lado, a desestruturação da família extensa, que joga no abandono muitos jovens, faz com que as igrejas abram a “possibilidade de construção de uma nova comunidade, não mais fundada [...] nas relações de parentesco, mas nos irmãos da mesma igreja” (idem, ibidem). Isso é confirmado pelo desabafo de um professor guarani da Reserva Porto Lindo[32]. Em seu depoimento, Elieser Martins disse que entrou na Missão (presbiteriana) porque não conseguia apoio nem da comunidade, nem de sua família e estava “perdido”: bebia, não parava em casa, fazia “bagunça”, não trabalhava direito. Mas, junto aos irmãos da Missão, ele encontrou o apoio que faltava, sentiu-se acolhido, amado e valorizado, ou seja, passou a “pertencer” novamente, encontrou um “lugar”.

O ritmo cada vez mais rápido e complexo das mudanças que marcam a sociedade globalizada, e impostas ao entorno regional[33], provoca um grande descompasso em relação às bases concretas da economia, dos valores e da cosmovisão da sociedade tradicional kaiowá/guarani, provocando desequilíbrios e rupturas. Um exemplo disso é fornecido por Bandeira (1997, p.41):

  O contato cria pressões avassaladoras sobre a cultura indígena, abrindo rachaduras imperceptíveis, com a introdução dos [...] bens industrializados, tão fascinantes em seu brilho, em seu colorido, em sua eficiência (ainda que fugaz), em sua novidade, em seu encantamento. Como a água, a produção simbólica etnocêntrica vai se infiltrando com o tempo, comprometendo paredes [e] alicerces da cultura tradicional.

Em suma, este novo modo de ser, tekopyahu, que “vai entrando aldeia adentro, através da escola, das Igrejas, do rádio, da televisão e, especialmente, pela desintegração da família guarani” e a inviabilização da economia tradicional, constitui “um crescente cerco [...] Não impõe somente um confinamento geográfico mas, acima de tudo, um cerco cultural” (BRAND, 1999, s/p). O tekoyma, vivenciado através do teko porã (bom modo-de-ser) e do teko marangatu[34], vai cedendo lugar ao tekopyahu, que representa aos olhos dos Kaiowá/Guarani mais idosos o tekovai (modo-de-ser ruim). E isso significa a sua perdição, especialmente enquanto inviabiliza o futuro (que é o mundo dos deuses), pois as crianças que crescem sem aprender o sistema tradicional já são frutos de uma educação voltada para fora do sistema kaiowá/guarani. Este não é caso dos sujeitos desta pesquisa.

A situação da língua ilustra este quadro: Batista (1992, p.38), em seu estudo sobre a língua como veículo de resistência cultural, afirma que “a desestruturação familiar seria uma das razões que acelera a perda da língua comum. [...] O afastamento das crianças com relação à mãe, antes de que se concretize a etapa da puberdade, poderia levar uma língua ao extermínio no espaço de duas gerações”. Ou seja, se não acontecer a reviabilização das condições para a vivência do ñande reko, em todos os níveis, a próxima geração já não teria mais os referenciais educativos do tekoyma, apenas os do tekopyahu, caracterizando, então, a “integração” tão almejada pelos velhos e novos colonizadores.

Uma boa parte dos sujeitos da pesquisa são a terceira geração desta história de confinamento. Eles ainda foram educados de acordo com o sistema tradicional, pelo menos até os sete anos, quando, então, entraram na escola e passaram a receber a educação de um modelo escolar voltado para fora, para um sistema não-índio, desacreditando e depreciando o sistema indígena. Entre os que se enquadram neste “perfil”, alguns entendem que ainda têm a chance de “voltar” para as vivências culturais tradicionais, conforme falaram vários informantes desta pesquisa.

No entanto, aqueles que já foram educados desde pequenos, antes mesmo da escola, no novo sistema (tekopyahu), principalmente nas novas igrejas, estes, a meu ver, não mais teriam condições de vivenciar o ñande reko. A não ser que, em contrapartida, o tekopyahu seja ressignificado e apropriado pelos Kaiowá/Guarani, segundo referenciais culturais tradicionais (tekoyma) que permanecem presentes na memória coletiva deles e na vivência daquele grupo que ainda “segura” a reza, como disse o cacique Júlio Lopes para Brand (1997, p.250): “Ainda não acabou totalmente [...]. Tem ainda os que sabem rezar. Nós os donos da reza ainda vivemos como se fosse professor”. Galvão (1979, p.143-144) explica que

 

Esse processo de desestabilização e assimilação funciona no nível individual, porém, para o grupo indígena visto como um todo, dificilmente se completará. Restará sempre um núcleo tradicionalista [grifo meu], constituído por indivíduos emocionalmente inadaptáveis às novas condições e que tentarão manter vivas a língua, as tradições e o sentido da comunidade.

Isso traz esperança de bons tempos (araporã), pois são as belas palavras da tradição (mborahei, porahei)[35], vivenciadas nas rezas, os referenciais que continuam tendo real importância para os Kaiowá/Guarani, que os fazem identificar-se como tais e que constróem o seu futuro. Este futuro é possível de ser vislumbrado na alegria das crianças que participam de eventos tradicionais, de rezas, de festas, como se vê freqüentemente. Neste sentido, parece que a presença dos avós (mesmo que seja crente)[36], em torno dos quais as crianças gravitam, sentindo-se seguras e felizes, poderia ser uma garantia suficiente para que isto aconteça.

O que resta saber é como a escola, enquanto instituição de fora, influiu nas mudanças de comportamento e na vida dos Kaiowá/Guarani. Será que a escola efetivamente tem acelerado a entrada do novo modo de ser, ou, pelo contrário, minimizou as conseqüências do confinamento? A escola pode ajudar a recompor o quadro das vivências tradicionais que ainda seguem presentes e ajudar a compor o que falta? Com que aspectos da tradição os Kaiowá/Guarani escolarizados se identificam melhor? Estas questões serão analisadas no capítulo III.

1.2 Modo de ser e de viver tradicional dos Kaiowá/Guarani – “ñande reko”[37]

Diante deste quadro bastante problemático, parece que os Kaiowá/Guarani, enquanto etnia diferenciada, estariam condenados ao desaparecimento. Mas não é bem assim. Vários autores que estudam este povo descrevem a resistência e a plasticidade com que enfrentam esse processo histórico:

 

[...] longe de serem as inermes vítimas que povoam habitualmente os livros de história, os Guarani desenvolveram estratégias próprias que visavam não apenas a mera sobrevivência mas, também, a permanente recriação de sua identidade e de seu ‘modo de ser’, frente a condições progressivamente adversas” (MONTEIRO apud CUNHA, 1992, p.475).

Muchas veces he pensado que si el pueblo guaraní está todavia presente en el Paraguay, en el Brasil, en Bolívia y en la Argentina, es porque tiene el destino de ser memoria de nuestro futuro (MELIÁ, 1997, p.49).

Singular y asombroso el destino de un pueblo
como los Guaraníes!
Marginados y periféricos,
nos obligam a pensar sin fronteras.
Tenidos como parcialidades,
desafian a totalidade del sistema.
Reducidos,
reclaman cada día espacios de libertad sin limites.
Pequeños,
exigen ser pensados a lo grande.
Son aquellos primitivos cuyo
centro de gravedad ya está en el futuro.
Minorías, que están presentes
en la mayor parte del mundo (idem, ibidem, p.59).

Apesar de desterrados – pois a terra na qual poderiam viver seu modo de ser tradicional não existe mais – e ‘cercados pelo mal’ [...] a atitude que predomina não é a de desespero. Quando os Guarani ouvem o branco dirigir-se a eles como quem não tem mais cultura [...] eles reagem e afirmam que os Guarani existem e que existirão sempre (CHAMORRO, 1999, p.22).

Isso é confirmado nas palavras de um professor kaiowá/guarani, em 1999, durante a primeira etapa do Projeto Ára Verá[38]:

  Apesar das mudanças vindas com a sociedade branca, os Kaiowá e Guarani ainda resistem no tempo. Ainda temos nosso modo de vida, nossas crenças e nossa religião. Estamos conscientes das diversas dificuldades que hoje enfrentamos por culpa de nossos dirigentes, mas ainda temos intactos nossa língua e nossos processos educativos.

Considerando a dinamicidade das culturas[39], apesar de tudo pelo que passaram/passam, os Kaiowá/Guarani, conforme Brand (2000, p.14), “nunca deixaram de definir suas estratégias próprias a partir da análise que fazem de suas possibilidades em cada momento histórico”. Ao longo dessa história de espoliação, preconceito e discriminação, uma das estratégias que eles usaram e ainda usam para sobreviver é, muitas vezes, a de esconder sua identidade: até aproximadamente 1985, escondiam seus rituais e sua língua, outras vezes escondiam a etnia, dizendo-se “paraguaios”. Chamorro (1999, p.23) diz que eles “[...] comportam-se como lhes convém – como ‘civilizados’, católicos ou evangélicos. Fazem isso para se tornar ‘invisíveis’ àqueles que, de outro modo, veriam neles motivo de chacota ou pessoas a serem catequizadas”.

Hoje, no entanto, outras estratégias fazem parte de sua dinâmica histórica e cultural. Juntamente com os movimentos políticos que os índios começaram a realizar – luta pela terra, organização de lideranças, de professores –, a principal meta dos Kaiowá/Guarani, na visão dos caciques e de outras pessoas mais velhas, é a retomada do sistema tradicional e o fortalecimento do papel social dos primeiros.

Em sua pesquisa, Brand (1997, p.266-267) detectou que a preocupação básica e também a esperança dos caciques/rezadores são com a retomada das práticas religiosas, principalmente dos rituais de iniciação, pois, segundo eles, “recuperando a força da palavra, através da ‘reza’, em que se encontra toda a eficácia, o restante dos problemas será superado”. E devem centrar seus ensinamentos sobre as crianças, as quais precisam reaprender as rezas. Segundo Carlos Vilharva, “tem que formar de novo essa criança, ensiná pra ver se melhora de novo nossa vida”. Ele acha que este trabalho deve ser feito principalmente com as crianças mais novas: “[...] tem que trabalhar bastante pra recuperar pelo menos a metade [...]”. Reconhecem, por outro lado, que terão dificuldades com os jovens de 12 a 14 anos para fazê-los retornar à prática tradicional, uma vez que é, justamente nesta idade, quando eles começam a sair para os contratos nas destilarias. Embora a escola seja considerada como “co-responsável pelo abandono do ‘sistema kaiowá’, contraditoriamente, eles “propõem apropriar-se da própria escola”, como espaço para viabilizar o reaprendizado da tradição. Diversos indígenas destacam que o ensino na língua guarani, adotado recentemente nas escolas, “vai ajudá muito pra criança, principalmente, explicá o que religião nossa [...]”. O papel e os resultados da escola frente ao sistema tradicional que define a identidade kaiowá/guarani serão analisados nos próximos capítulos, com mais profundidade, pois é, precisamente, o objeto deste trabalho.

Para que a retomada do sistema realmente aconteça, algumas condições básicas precisam ser reviabilizadas. É necessária antes de tudo, a recuperação de mais terras tradicionais para a reconstrução de novas aldeias, o que já vem sendo feito desde 1984, mas num ritmo muito lento. Isto possibilita a quebra do confinamento, com a diminuição da superpopulação e da sobreposição de chefias nas reservas. Nos novos tekoha, as relações de parentesco se definem melhor e os caciques/rezadores podem voltar a exercer seu papel social específico. Além disso, esses novos espaços podem facilitar a continuidade da dinâmica do oguata, sempre que for exigido pelo modo de ser coletivo.

O próprio movimento de recuperação das terras fez reascender nos Kaiowá/Guarani o seu espírito dinâmico, fazendo-os caminhar novamente em busca de reaver cada vez mais terras perdidas, os caciques/rezadores estão ganhando novo estatus[40] e uma nova consciência começou a surgir resgatando a auto-estima perdida e fazendo reaparecer as expressões da religião tradicional. Mas, além de aumentar os seus espaços, vão necessitar também torná-los viáveis, restaurando suas terras exauridas, recriando uma base ecológica adequada para o desenvolvimento de seu modo de ser tradicional.

1.2.1 Identidade

Para verificar se os Kaiowá/Guarani que passaram pela escolarização formal continuam se identificando com seus valores étnicos, é necessário abordar o que seja a identidade kaiowá/guarani. Paredes (apud MATO GROSSO, 1997, p.186) conceitua identidade como um fenômeno psicológico, social e cultural construído e vivenciado “no interior de cada ser individual (pessoa) ou social (grupo ou sociedade) que faz com que cada um se sinta ele mesmo, único, irrepetível e diferente dos demais, ao mesmo tempo que pertencente a esse grupo social”. Ou seja, a identidade faz parte de um conjunto cultural bem definido, que para os Kaiowá/Guarani, tradicionalmente, é o teko, vivenciado no cotidiano e compartilhado num espaço físico e social, o tekoha[41].

Florestan Fernandes (PEREIRA e FORACCHI, 1978, p.170), ao se referir às sociedades indígenas, fala em “sociedades estáveis”, ou seja, sociedades onde “a ‘pessoa’ não está submersa, sufocada e destruída no todo; apresenta-se [...] como uma realidade moral [...] que se realiza na medida em que se integra dinamicamente numa totalidade psicossocial e sociocultural envolvente ou confluente”. E quando a “pessoa” (de uma sociedade tribal estável) não consegue se integrar nesta totalidade (seja na sua própria ou numa sociedade alheia), ela não se realiza, se frustra e se aliena. Ela não consegue encontrar o seu “lugar” em nenhum dos dois tipos de totalidades: na primeira, porque já não teriam significado os referenciais psicossociais e socioculturais e, na segunda, porque não conhece suficientemente os referenciais que a subsidiam e também porque esta não a aceita. Neste caso, como “ser alguém?”. Como se sentir pertencente? É assim que muitos jovens se sentem, ao não encontrarem um lugar nem dentro, nem fora da aldeia.

Mas, quando os jovens se identificam com a sua totalidade psicossocial e sociocultural, as inovações que aparecem na sociedade estável, não lhes causam transtornos, pois, segundo Florestan Fernandes (PEREIRA e FORACCHI, 1978, p.171),

  [...] toda inovação, por mais radical que seja, lança raízes no passado e se alimenta de potencialidades dinâmicas contidas nas tradições. [...] a inovação já nasce, culturalmente, como tradição, como ‘experiência sagrada’ de um saber que transcende ao indivíduo e ao imediatismo do momento (grifo meu).

Este fenômeno poderia ser denominado de ressignificação dos fatos novos a partir de referenciais culturais tradicionais, do tekoyma. Seria o passado iluminando o futuro. “Transcender ao imediatismo do presente” seria tornar o presente a “ponte por onde o passado transita para o futuro”. No entanto,

  [...] as insuficiências da ordem social sagrada e fechada aparecem quando ela se revela incapaz de ajustar o homem a situações inexoráveis, provocadas por circunstâncias e fatores exteriores à herança socio-cultural e que requerem modalidades de ajustamentos a que ela não pode responder satisfatoriamente. (idem, p.172).

Esses fatores seriam, hoje, a perda da terra, o confinamento, o esgotamento dos recursos naturais, o consumismo, a necessidade de buscar emprego fora, a escola, as igrejas. Caberia perguntar se algum destes fatores estaria efetivamente se revelando como “incapacitantes” para o ajustamento do equilíbrio da ordem social dos Kaiowá/Guarani, na perspectiva apontada por Fernandes, ou quais os que mais facilmente seriam ressignificados por eles. A escola é uma situação inexorável. Mas seria ela um fator “incapacitante” e até que ponto, ou, ao contrário, um fator ressignificado e apropriado pelos índios e sob que aspectos?

Para Cunha (1986, p.99-103), a identidade étnica se estabelece através da diferença:

  A cultura original de um grupo étnico, na diáspora ou em situação de intenso contato, [...] tende ao mesmo tempo a se acentuar, tornando-se mais visível, e a se simplificar e enrijecer, reduzindo-se a um número menor de traços que se tornam diacríticos.[...] a escolha de tipos de traços culturais que irão garantir a distinção do grupo enquanto tal depende dos outros grupos em presença da sociedade em que se acham inseridos [...] Poderão ser a religião, [...] roupas características, línguas ou dialetos, ou muitas outras coisas.

Quais os “traços” que os Kaiowá/Guarani querem realçar para se distinguir, marcar sua identidade? A análise que se faz neste sentido acaba esbarrando na tensão entre a ambivalência e as ambigüidades em que vivem hoje os Kaiowá/Guarani, principalmente os mais jovens e, mais ainda, os escolarizados. Nos últimos anos, através do movimento indígena, seja dos professores ou das lideranças, refletindo sobre sua própria realidade, deram-se conta da importância de “mostrar” alguns “traços” identitários, marcando a diferença perante a sociedade mais ampla, o que lhes garante recursos para a sobrevivência, principalmente a terra, além de benefícios em geral (saúde, estudo, alimentação, aposentadoria, recursos para agricultura e outros projetos econômicos). É o que Cunha (idem, p.103) identifica como “[...] adequação da identidade étnica como autoconsciência de grupos”. Segundo esta autora, a “etnicidade pode ser melhor entendida [...] como uma forma de organização política”. Ou então, “uma categoria ‘nativa’, isto é, usada por agentes sociais para os quais ela é relevante”.

Além destes aspectos utilitários, através desses movimentos e da própria educação escolar, que passam a reivindicar o direito à diferença, alguns professores e lideranças Kaiowá/Guarani começam a assumir sua identidade étnica perante a sociedade mais ampla, também como um elemento de prestígio e de orgulho étnico. Mas Cunha (ibidem, p.107) não deixa esquecer que

  A construção da identidade étnica extrai [...] da chamada tradição, elementos culturais que, sob a aparência de serem idênticos a si mesmos, ocultam o fato essencial de que, fora do todo em que foram criados, seu sentido se alterou. Extraídos de seu contexto original, eles adquirem significações que transbordam das primitivas .

Muitos jovens, por outro lado, parece que querem ocultar sua identidade frente à sociedade mais ampla, tendo em vista o enorme preconceito que esta sociedade tem em relação a eles, mesmo que dissimulado. No entanto, como não podem esconder-se, por causa de sua aparência física, talvez o recurso que lhes resta seja o da resignação (não sem ressentimento): “não podemos negar que somos índios, está na nossa cara, na cor da nossa pele”. Mas alguns Kaiowá/Guarani logram esconder isso também, dizendo-se “paraguaios”, acobertados pela semelhança física com nossos vizinhos mestiços, como também pelo sotaque identificador dos falantes guarani do Paraguai. Silva e Gonçalves (1993, p.28) analisam que, “para serem reconhecidas pela sociedade, é preciso negar sua maneira de ser e adotar, ou, pelo menos, arremedar, a dos que detêm o poder de mandar e de estabelecer o que é bom, correto, humano “[...] e cristão, civilizado e progressista. Por uma questão de sobrevivência, para não serem discriminados, os jovens kaiowá/guarani procuram igualar alguns “traços” culturais com os da sociedade mais ampla, tais como: as casas, alimentação, roupas e outros bens de consumo, estudo, língua portuguesa, religiões cristãs, empregos. As mesmas autoras alertam que “a tendência à massificação, ao modo de agir igual e repetido, [embota] a capacidade crítica e criadora e transforma o incorporar cultura em ser assimilado por uma cultura” (idem, p.30). No entanto, estes ítens também têm a ver com outro valor cultural, já que significam elementos de prestígio, característica importante nesta sociedade. Ou seja, apropriam-se de alguns “traços” culturais exógenos, mas ressignificados, segundo seus próprios valores. Às vezes são apropriados de uma forma peculiar, também no seu aspecto exterior, fazendo com que, afinal, os índios continuem sendo diferentes.

Mas, em alguns casos, até mesmo a diferença exterior, que teima em se manter, corre o risco de ser anulada por algumas instituições religiosas cristãs mais tradicionais, utilizando-se de recursos mais sedutores junto aos jovens, agora não mais só através da escola e da doutrina, mas entrando no interior de seus lares, ou, ao contrário, trazendo-os, como fator de prestígio, para lares cristãos, onde procura-se anular os valores recebidos na educação e no modo de vida tradicional. Pode-se perceber isso entre alguns jovens ligados às missões: facilitam-lhes os estudos até graus superiores, dão-lhes moradia (no padrão urbano), assistência e emprego (geralmente como professores, enfermeiros ou agentes de saúde - com a obrigação de fazer um trabalho missionário), facilitam-lhes o casamento e a nova família, desde que seja com alguém ligado à mesma igreja[42]. Mas os filhos dessas novas famílias – estes sim – são mais facilmente educados (e monitorados) dentro de outros parâmetros culturais, diluindo e até mesmo anulando a “diferença” que dificultava a conversão para o padrão ocidental de sociedade.

Esta diferença hoje também começa a ser “quebrada” por meio de outra instituição que invade os lares indígenas: a televisão. Por enquanto não se sabe ainda qual o impacto que este veículo está fazendo junto aos jovens kaiowá/guarani, pois nenhuma pesquisa foi feita para descobrir isso.

Considero, como Capacla (1995, p.25), que “a preservação da identidade cultural significa a garantia da própria existência, mas não implica no congelamento de certas práticas”. Dito de outra forma, um tanto tautológica, Tsupal (CAPACLA, 1995, p.46), explica que “o caráter dinâmico da cultura indígena, [...] a mudança de aspectos culturais, não implica necessariamente a perda da identidade indígena”. Ou seja, a identidade indígena é o reflexo de sua cultura, embora cheia de contradições e ambigüidades decorrentes, exatamente, de sua inserção na dinâmica da própria humanidade, na qual funcionam tantas lógicas quantas são as suas culturas.

Segundo Brand (1997, p.37-38), duas lógicas se inter-relacionam e se confrontam na vida dos Kaiowá/Guarani atuais: uma tradicional e outra resultante do entorno, tentando negar a primeira e gerando uma série de contradições. Apesar das ambigüidades decorrentes desse confronto, ou por isso mesmo, o autor afirma que “são as categorias culturais próprias do ñande reko kaiowá/guarani que ainda parecem seguir orientando, iluminando e buscando enquadrar o novo que vem de fora”, demonstrando, mais uma vez, a enorme capacidade histórica que tem este povo “de recriar seus espaços e de resistir em condições profundamente adversas” (idem, 1995, s/p).

  Se considerarmos que a continuidade de uma etnia depende da capacidade do grupo de manter simbolicamente suas fronteiras de diferenciação, é de esperar que os Guarani, como fizeram até agora, continuem mantendo a codificação das diferenças culturais que os distinguem dos seus vizinhos, renovando-a permanentemente (CHAMORRO, 1999, p.24).

Seguindo as categorias culturais do ñande reko, Chamorro diz que a vontade guarani se enraíza no plano transcendente, “sendo sua religião a melhor expressão dessa vontade de ser o que são”, de sua cidadania, de seu sistema, de sua identidade. Ao longo dos séculos, os Kaiowá/Guarani “escolheram sua religião como afirmação diante da sociedade ocidental, como forma de continuar sendo os mesmos e de evitar ser reduzidos a cidadãos genéricos” (idem, p.19). Esta afirmação pela diferença, tendo a religião como argumento, pode ser verificada na fala de um jovem professor guarani da aldeia Porto Lindo, Eliézer Martins[43] sobre teko marangatu: “Nós Guarani somos muito diferentes dos brancos, mas temos um caminho”, referindo-se à “salvação” pelo caminho da religião tradicional, e acrescenta que “o índio nunca vai alcançar de cumprir as leis daquela religião evangélica”, referindo-se à impossibilidade de alcançar a mesma salvação através de outro caminho, apesar de ele próprio ser evangélico.

Em seus estudos, Brand confirma que há, efetivamente, ainda hoje, o predomínio absoluto de uma leitura cosmológica – teko marangatu – em todos os aspectos da vida dos Kaiowá/Guarani. Azevedo (1991, p.20) explica que se trata de um povo essencialmente religioso, no qual nenhuma esfera do cotidiano está desvinculada com o sagrado e, por isso, agem e interagem em relação aos problemas concretos a partir desta visão de mundo.

Não poderia haver outra razão que melhor justificasse porque os Kaiowá/Guarani sempre se remetem à religião tradicional para explicar sua cultura, suas tradições, seu modo-de-ser. A religião e a língua étnica são os referenciais com que eles identificam “cultura”, “sistema” e “ñande reko”. Não só os velhos, mas também jovens escolarizados, inclusive “crentes”[44], usam esses referenciais, se não em sua operacionalização cotidiana, pelo menos no seu imaginário. Apesar de escamotearem e mesmo criticarem os caciques, na hora do “aperto”, em situações difíceis, acabam recorrendo a eles, ou culpando-os por determinados fatos.

Esta é também a visão dos professores guarani da reserva Porto Lindo numa produção coletiva realizada em setembro de 2000, sobre o que eles entendem por teko marangatu, demonstrando o quanto estes referenciais estão presentes em suas vidas, apesar das contradições e dos impasses que vivem. Primeiro eles explicam qual a função do cacique:

 

Não é só o cacique que deve seguir o marangatu. É também o jovem, e o cacique ensina. Mesmo bêbado, ele ensina o teko marangatu, ele fala e ensina como viver bem, embora ele não mostra o exemplo, pois hoje, até o cacique não vive mais no teko marangatu. Antigamente o rezador não tomava pinga e hoje ele toma e dá mau exemplo. No exemplo ele perde, mas no coração e na sabedoria ele permanece no marangatu. O cacique tem o poder de saber o remédio certo, junto com a reza, e de saber o nome da criança no batizado. O cacique aceita e cuida do doente, de boa vontade e até na sua casa. Se qualquer pessoa tem o marangatu dentro dele, ela também pode fazer isso. O seu poder vem de Tupã, é um dom de Deus, ele sonha[45]. Através do sonho ele recebe mais sabedoria, mas depende também do comportamento dele. Se ele não se comportar bem, ele pode perder o dom e ficar meio “variado”. Não pode seguir outra religião, aí vem o pecado e ele perde o dom, pois mistura”. [Uma das professoras conta o que aconteceu com sua família, quando seus pais mudaram de religião]: “Tem o exemplo do meu pai e minha mãe: vivíamos tudo junto, e então, começou a destruição dentro de casa e se separaram até hoje. É porque confundiu tudo.

Qualquer pessoa, não só o cacique, deve saber as coisas do teko marangatu. As regras do teko marangatu são as mesmas de antigamente, mas as pessoas é que não as seguem mais. Ninguém é obrigado; só tem de segui-las, de coração. O batizado (ñemongarai) da criança não é condição pra atingir o teko marangatu.

Segundo este grupo de professores, as regras são as seguintes:

 

– Amor: é dividir as coisas, não prejudicar, não brigar, não xingar, não querer o mal para o outro, não “reparar”, não tirar sarro do outro, ter boa vontade com o outro, aceitar o outro, receber com boa vontade, ajudar o outro quando pode, não desprezar, não vingar, respeitar as pessoas.

– Não pode matar pessoas. Pra defender sua vida, pode correr, mas mesmo assim, não pode matar. E o animal, só pra comer. Cachorro e gato não pode matar um só, só se matar mais. O dono do cachorro é San Roque, se matar [o cachorro], ele castiga com dor de dente ou ferida braba que não cura mais.

– A mocinha e o rapaz devem cumprir as regras de iniciação: eles têm que se lavar com uma erva especial indicada pela mãe, não comer carne, principalmente carne mal assada, não comer laranja, melancia, ovo. Pode tomar caldo de peixe. Para não serem preguiçosos, têm que tomar banho gelado. Se não fizerem isso, crescem à toa, fazem muita coisa, já vão no baile desde pequeno, as meninas não se interessam por nada, só pensam em baile, e aí a mãe não deixa mais ir pra escola, pois só pensa em casar. A menina e o menino não podem tocar na folha do dorme-dorme para não ficar dorminhoco, preguiçoso, molenga. A menina não pode contar estrelas para não ter muitos filhos. As meninas devem se guardar para o marido.

– Ficar casado com o mesmo parceiro. Rezar antes de levantar e colocar o pé no chão, pra passar o dia bem e alegre. Ir nas rezas, no jeroky [dança ritual]. Não ir no baile. Fazer remédio.

Como já foi mencionado, a auto-identificação dos Kaiowá/Guarani, como grupo social distinto, se expressa através do ñande reko (nosso jeito/modo de ser e de viver), e se concretiza no cotidiano. É o ñande reko que define a qualidade da vida dos Kaiowá/Guarani, a qual, segundo Azevedo (1991, p.22), é “entendida da maneira específica que eles realizam ou desejam realizar”, e que “tem a ver com seus territórios, sua identidade cultural, seus valores e cosmovisão” (BRAND, 2000, p.4). Então, por mais boa vontade que os não-índios tiverem, no sentido de desejar ou oferecer “qualidade” para a vida dos Kaiowá/Guarani, será sempre destes a prerrogativa de definir o que entendem por qualidade de vida, uma vez que só eles vivenciam o ñande reko, principalmente no que se refere a valores e comportamentos (teko porã).

Segundo as concepções tradicionais, que “seguem informando o presente” (SAHLINS apud BRAND, 1997, p.20), o caminho que abre passagem para o mundo dos deuses é o teko porã, jeito de ser bom, bonito. Azevedo (1991, p.22) explica que o teko porã é a concretização, em termos comportamentais, do sistema tradicional dos Kaiowá/Guarani: “São normas e valores éticos que todo homem, mulher e criança devem seguir”, para vivenciarem o teko marangatu. Marangatu é tudo o que é sagrado, que tem relação direta com o sagrado; portanto, teko marangatu é o modo de ser ou estar religioso. Azevedo (idem, ibidem, p.21) explica, resumidamente, como o teko marangatu é entendido pelos Kaiowá/Guarani, tradicionalmente:

  Esse teko é reflexo do modo de ser dos deuses no céu; esta terra, [...] é o espelho do céu, tudo o que há nela existiu primordialmente entre os deuses, que, com seus gestos e ações paradigmáticas, criaram o teko marangatu. Para captarem, ouvirem os deuses, os homens e mulheres cantam e rezam, de maneira que todos podem ao menos, ouvir suas vozes (dos deuses). Os Ñande Ru e os Pa’i (xamãs e sacerdotes) [caciques] podem ver e conversar com os deuses. É então através dos mitos (normas, regras, ações paradigmáticas) e dos rituais (comportamentos, mito vivenciado) que fica fundamentado o teko marangatu.

Este é o único modo de ser que os Kaiowá/Guarani consideram autêntico, verdadeiro e razoável – teko katu -, “como se fosse uma consciência que configura a identidade” (AZEVEDO, idem, ibidem, p.21) deste povo.

Este sistema é viabilizado, tradicionalmente, no tekoha, sustentado por uma “economia, sociedade e religião centradas na família extensa [te’ýi], reunida em torno dos caciques [líderes religiosos], onde a reciprocidade entre os membros era o sinal visível da vigência do teko porã” (BRAND, 1997, p.261), socializados, principalmente, nas rezas, festas e reuniões (aty).

A terra é, para os Kaiowá/Guarani, a grande fornecedora de subsistência, mas, acima de tudo, é o substrato onde podem viabilizar o seu tekoha, isto é, um lugar onde podem viver segundo seus costumes e valores. Segundo Ramos (1986, p.13), para as sociedades indígenas “a terra é muito mais do que simples meio de subsistência. Ela representa suporte da vida social e está diretamente ligada ao sistema de crenças e conhecimento”. É por isso que “sem tekoha não há teko” (MELIÁ, 1989, p.336). Se, conforme Gaston Bachelard, “viver é comemorar o espaço habitado e habitável”[46], sem o seu lugar, a pessoa não vive. Ou seja, “habitar” é um ato de vida, que pressupõe um espaço, um lugar habitável. Neste sentido, para os Kaiowá/Guarani a terra é muito mais que uma porção de terra, é um lugar habitável onde eles possam comemorar a vida, o teko, onde possam festejar e alegrar-se. Por outro lado, “é preciso habitar nele mesmo para poder existir” (idem, CASTRO). Com certeza, “habitar nele mesmo” significa que esse teko, em suas várias formas - teko katu, teko porã, teko marangatu -, precisa morar, ter um lugar, no interior de cada Kaiowá e Guarani, através do conhecimento e da vivência partilhada de seus mitos.

Para ser comemorado, esse teko precisa ser compartilhado por uma comunidade, dentro de um espaço concreto, e que este seja viável, isto é, que ofereça condições concretas para fazer a festa (jajeroky), para exercer a reciprocidade (joja), com chícha, com milho, com comida, com riso e com saúde, com dança e com canto, com pajelança e com a palavra-alma que toma acento na pessoa e a faz humana e divina. Caso contrário, exilados de si mesmos, os Kaiowá/Guarani são sombras errantes sobre a terra[47], e podem chegar ao suicídio, à violência e outras formas de auto-destruição.

Hoje, nas áreas tradicionais retomadas, em que se formam novos tekoha, estes mantêm características bastante semelhantes aos antigos tekoha, especialmente no que se refere à distribuição e à quantidade de famílias. Mas, como já foi dito, o líder religioso perdeu sua função política, ficando apenas com as funções religiosas, sendo o “capitão” o chefe político também dos tekoha retomados, a exemplo de como é nas reservas. Outra instituição que organiza os tekoha, do ponto de vista social e político, são as aty ou reuniões, “onde todos têm o direito à palavra, onde se resolvem, avaliam todos os assuntos” relativos a cada comunidade (AZEVEDO, 1991, p.17). É também através de grandes reuniões, as aty guasu, reunindo líderes políticos e religiosos de várias comunidades, que os Kaiowá/Guarani articulam as diversas comunidades, reafirmam os laços de solidariedade, repensam e refazem o projeto de vida, e afirmam constantemente o ñande reko e o teko marangatu, através de grandes rezas e discussões políticas. Estes eventos têm acontecido com bastante freqüência nos últimos anos, motivados por questões comuns, tais como problemas de terra, suicídios, trabalho. Seguindo esta mesma dinâmica, os professores kaiowá/guarani vêm se reunindo periodicamente, juntamente com suas lideranças, para discutirem problemas ligados à educação escolar.

1.2.2 Espiritualidade

Ainda hoje, como já foi dito, é na vivência e na prática da religião, através da reza, do canto e da dança, que os Kaiowá/Guarani buscam tornar sua vida melhor: “Tem reza pra tudo, não tem o que não tenha reza”, diz um cacique kaiowá (BRAND, 1997, p.241): para benzer a carne da caça, o mel, a fruta, a terra e as sementes antes de plantar, para atrair a caça, para pôr fogo no roçado, para afastar as pragas da lavoura e ter uma boa colheita, para afastar feras, cobras, para atrair a chuva, para proteger a pessoa antes de iniciar uma viagem, uma atividade, o dia que amanhece, e muitos outros aspectos do cotidiano e especiais, como os rituais de iniciação, o nascimento e a morte. Todo cuidado com as crianças está intimamente vinculado às práticas religiosas, orientadas pelo cacique, desde a escolha do seu nome. Os ritos de iniciação – kunumi pepy –, de responsabilidade dos caciques, “garantiam a integração dos jovens dentro da sua comunidade como homens, e os iniciavam no caminho da prática das palavras da tradição” (idem, p.261). Nos últimos 25 anos, a única aldeia que ainda realizava esta prática era o Panambizinho, sendo que a última vez aconteceu em 1993.

Tanto na vida como na morte é a reza que orienta o caminho e protege os Kaiowá/Guarani dos riscos de se perderem neste mundo. A reza também controla as forças da natureza e a doença. A doença de uma pessoa é entendida como desequilíbrio entre o corpo da pessoa, sua alma, seu nome e o meio-ambiente. Apesar de saberem que, para as doenças adquiridas pelo contato, a medicina tradicional não tem força, ainda o maior parte dos insucessos é atribuído à fraqueza dos caciques, que não saberiam mais rezar direito, crença aceita, inclusive, pela quase absoluta maioria dos escolarizados, mesmo entre os crentes.

A reza é o principal instrumento de comunicação com os deuses. Por isso, o cacique Julio Lopez alerta para o perigo que representam as mudanças na língua falada pelos Kaiowá/Guarani: “Os deuses falam do jeito que devemos falar, nossa verdadeira fala. [...] Se nós esquecemos de nossa verdadeira fala, não podemos mais conversá lá com eles” (BRAND, 1997, p.243). O Kaiowá Carlito de Oliveira também dizia, em 1989, em conversa informal, que eles só podem rezar em sua própria língua original, que em outra língua não é reza. Sem a reza, os Kaiowá/Guarani que optam pelo tekopyahu não têm “casa” para se sentirem bem, não têm um “lugar” para se situar, não se encontram consigo mesmos, ou seja, não sabem quem são; não se encontram com seus pares, pois não os reconhecem como um dos seus (“um dos nossos” – oréva); não se encontram com a divindade, pois não a reconhecem mais na face cristã homogênea que lhes impuseram; e, portanto, não dispõem de um espaço e um tempo necessários para o seu equilíbrio de vida. São “sombras errantes pela terra”.

Na religião tradicional dos Kaiowá/Guarani, a palavra (ñe’ë e ayvu) é o centro e a origem de tudo. A palavra existia antes mesmo de se formar qualquer um dos seres da Terra. Segundo Cadogan (apud BRAND, 1997, p.241), a linguagem foi criada por Ñande Ru em meio às trevas originárias, antes de conhecer as coisas. Ela é o germe de vida, a “substância divina” de Ñande Ru (“Nosso Pai”), da qual procedem as pessoas. É pela palavra que os Kaiowá/Guarani organizam sua história e sua identidade. Os diversos etnólogos que estudaram esta sociedade são unânimes quanto a isto. A palavra é voz, fala, linguagem, idioma, alma, nome, vida, origem, personalidade. Palavra e alma (ñe’ë, ayvu) significam a mesma coisa.

Cada pessoa é uma encarnação da palavra: no nascimento essa palavra/alma providencia um lugar para si no corpo da criança. É a palavra que humaniza o novo ser, que o faz diferente dos animais, que o faz ereto. No batismo[48], o cacique enfeita a criança, ao revelar-lhe o seu nome, “marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade” (CHAMORRO, s/d, p.2). Começa a construção da pessoa, da sua identidade pessoal. Como essa palavra é um ser, escutando seu verdadeiro nome (que são os conselhos deste ser/palavra), a criança se acalma. Desde cedo ela aprende que não deve ser brava, irritada, pois “a cólera é a origem de todo mal” (idem, ibidem). Por isso, ser calmo é uma virtude importante para os Kaiowá/Guarani. Quando as crianças não são batizadas, não são enfeitadas, elas crescem tristes, crescem sem escutar ninguém, pensam só em si. Estas críticas a comportamentos considerados reprováveis, supõem regras de bem viver, que devem ser observadas pelos Kaiowá/Guarani: pensar e preocupar-se com os outros, com a família, com a comunidade; respeitar e escutar os conselhos dos mais velhos e dos caciques que detêm a sabedoria das boas palavras herdadas dos antigos. As crises da vida são compreendidas como uma dissociação entre a pessoa e o seu nome, sua palavra-alma, e ela fica doente. É freqüente, ainda hoje, as crianças doentes serem batizadas novamente para receberem outro nome, pois o nome anterior, inadequado, é que as deixava enfermas. Para curá-la, o cacique precisa fazer com que a palavra volte a sentar na pessoa, devolvendo-lhe a saúde e a integridade. Mas quando a palavra/alma não tem mais lugar, a pessoa morre, é um não-ser (CHAMORRO, 1999, p.19).

Quando um Kaiowá ou Guarani, nas várias circunstâncias ao longo da história, em que não tem voz (sem palavra) nem vez (lugar-tempo), ele é ninguém, ou seja, deixa de ser ele. É recorrente a afirmação entre os pais dos escolarizados e mesmo entre estes, de que devem “estudar para ser alguém na vida”. É por isso, talvez, que muitos jovens buscam ser alguém fora de sua sociedade, pois historicamente, sempre lhes foi passado que o seu mundo é um “não-lugar”, e que, somente através da escola, eles encontrariam um caminho para ser alguém, para ter um “lugar”.

Por outro lado, é surpreendente a restauração do ser (Kaiowá ou Guarani) daqueles que recuperam a voz e a vez: pela palavra eles se transfiguram. É o que se pode verificar entre os jovens professores dessas etnias, durante os cursos e encontros, onde eles são respeitados e valorizados e podem expressar-se em suas diversas formas de comunicação. Apesar dos conflitos pessoais e/ou externos, decorrentes da manifestação do modo-de-ser tradicional (tekoyma) num ambiente (escolar) em que o novo modo-de-ser (tekopyahu) sempre foi, até então, o único valorizado, acriticamente, nestas ocasiões mencionadas o que ocorre é uma verdadeira catarse com sua identidade étnica, com as marcas de seu povo, entre as quais, o valor da palavra, vinculado ao modo-de-ser religioso, é visível e contundente. Este modo-de-ser religioso transparece também frente a determinados episódios, condicionando as reações dos jovens, aparentemente contraditórias: Diante da morte de um amigo seu atingido por um raio, mesmo sabendo que este risco aumenta por causa do desmatamento das aldeias, um jovem professor kaiowá atribuiu a culpa a falsos caciques que não sabem as rezas, não conseguindo invocar a proteção divina, chegando mesmo a provocar estes fenômenos.

É pela palavra, em sua manifestação de reza-canto-dança, que os Kaiowá/Guarani encontram o caminho da plenitude e da perfeição, cuja expressão é aguyje (CHAMORRO, 1998, p.151). Eles acreditam que, rezando, cantando e dançando, seu corpo pode perder o peso, tornando-se indelével, podendo, então, voar para uma nova terra de tempo-espaço perfeito, superando a morte. Uma das virtudes imprescindíveis para os Kaiowá/Guarani chegarem à perfeição, à plenitude (ao aguyje), alcançando grandeza de coração, é a reciprocidade. “Todo o sistema social e religioso está estruturado nessa virtude que, por sua vez, estrutura o ideal de pessoa humana” (idem, 1999, p.21). Os principais comportamentos e práticas que indicam a busca e a realização desse ideal de perfeição são, segundo Meliá (1989, p.340 e 1991, p.69): teko porã (bom modo de ser), teko joja (justiça), ñe’ë porã (boas palavras), ñe’ë joja (palavras justas), joayhu (amor recíproco), kyre’ÿ (diligência e a disponibilidade), py’a guapy (paz), teko ñemboro’y (serenidade), py’a potï (coração puro, limpo, sem duplicidade).

Os comportamentos que negam ou contradizem o teko porã são aqueles derivados de um modo de ser irado (ñenupã, ñorairõ, jeahe’i) (MELIÁ; GRÜNBERG e GRÜNBERG, 1976, p.189). Azevedo (1991, p.22) conta que uma grande censura é dizer para alguém que ele está à toa (reko rei), ou “você mente” (nde japu), ou “você é bruto” (nde mbarete). A imperfeição e o mal vêm com a ira e a ignorância, suscitando a violência e afastando a pessoa de sua condição divina (CHAMORRO, 1998, p.145 e 197), não permitindo o exercício da reciprocidade. O mal na terra, segundo Meliá (1989, p.344), “é a festa impossível, a perfeição inalcansável”. Paulito Aquino[49], um dos mais conceituados e tradicionais caciques kaiowá, explica que “só com a reza a gente consegue acalmar a violência, só com o canto a gente consegue esfriar o ânimo das pessoas” (CHAMORRO apud BRAND, 1997, p.201). Nota-se até hoje essa preocupação com a não-violência e o empenho dos Kaiowá/Guarani, em geral, no sentido de incentivar um “estado frio”, através de um comportamento calmo, afável, moderado, não vingativo e não rancoroso. Bernardo Ibañez de Echevárrí (apud MELIÁ; GRÜNBERG e GRÜNBERG, 1976, p.172), Capelão da Comissão de Limites de 1754, já indicava a não-violência como parte das virtudes formadoras da índole “afable, dócil, mansa y de una bondad y rectitud extraordinaria” dos Kaiowá/Guarani daquela época: “Su profesión es no hacer mal a nadie, no reñir entre si, y defenderse de sus enemigos, sin irlos jamás a ofender; y así gozan de una gran paz, pues luego acomodam sus pequeñas diferencias”.

No cotidiano, a reciprocidade se manifesta através da generosidade. Quanto mais generosa, mais prestígio adquire uma pessoa. A pessoa beneficiada retribui, não como obrigação, mas como um outro ato de generosidade. Mas, segundo Meliá (1989, p.339-340), é principalmente nas reuniões políticas e nas festas religiosas que, tradicionalmente, as virtudes que levam à perfeição se socializam, sendo possível a prática da reciprocidade, exercida fundamentalmente através da palavra profetizada, escutada, ritualizada, e “onde se compartilha a alegre bebida da chícha [...], fruto da terra e do trabalho de muitos, unidos em mutirão”. A festa é, sobretudo, “o sacramento do amor mútuo e da participação”.

Nestes encontros festivos (pepy), os Kaiowá/Guarani concretizam o seu tempo-espaço verdadeiro (arete)[50]: “Arete [...] é o ato religioso que dá sustentação ao universo e reintegra todos os seres à sua origem” (CHAMORRO, 1998, p.163). É na festa, através da dança e do canto, que a palavra se torna movimento, caminho, moldando a espacialidade imaginária do grupo: para o alto, com os deuses; para os lados, com a comunidade; e “para dentro do inconsciente coletivo do grupo, evocando neles a memória e a consciência mítica [...]” (idem, p.192). Essa reação pôde ser sobejamente comprovada durante as etapas presenciais do Projeto Ára Verá, por ocasião das atividades festivas tradicionais organizadas pelos rezadores presentes no curso, quando se verificava, entre os professores/cursistas kaiowá/guarani, uma mudança de comportamento, tornando-os mais alegres, participativos, engajados e conscientes. Chamorro explica que o objetivo dos rituais religiosos é enfeitar e alegrar a terra: “Enfeita-se a criança, por ocasião do recebimento do seu nome [indígena]; os meninos, por ocasião do recebimento do seu enfeite labial ou ‘tembetá’ [na festa do kunumi pepy]; o milho, na festa do ‘avatikyry’; a pessoa, numa sessão terapêutica” (ibidem, p.188). E enfeita-se a terra com a poesia das palavras dos Kaiowá/Guarani.

Cantando, dançando e dizendo belas palavras, os Kaiowá/Guarani manifestam uma poética toda feita de bem-estar. Segundo Gaston Bachelard, “a poética retrata o homem feliz”[51]. A poética da palavra-canto-dança kaiowá/guarani é refrescante, alegre, enfeitada, e deve ser partilhada. Por isso ela é recíproca. Para os poetas Kaiowá/Guarani, a linguagem não é um simples instrumento, ela é celebração, pois mantêm “com ela essa relação interior que é já em si mesma aliança com o sagrado” (CHAMORRO, 1998, p.51).

Nota-se esta característica poética também entre os jovens professores kaiowá/guarani: Em seus discursos orais ou em suas expressões escritas, eles se empenham em produzir palavras doces, metaforizando imagens belas, onde o frescor é característica fundamental. “A poesia kaiowá/guarani é metafórica, mas não mascara o sentido real das coisas; ela é a única maneira de dizer o que, em verdade, são as coisas para eles” (idem, p.54). Efetivamente, até hoje, goza de grande prestígio aquele que sabe usar essa linguagem metafórica para dizer as coisas.

Saber dizer as coisas poéticamente e ser alegre, para os Kaiowá/Guarani, é a mesma coisa. A alegria é a manifestação poética da alma guarani. Aliás, ter paciência, tolerância, serenidade, não irar-se e saber rir das circunstâncias faz parte dos comportamentos sociais mais requeridos, que compõem as condições para desenvolver esta característica do modo de ser kaiowá/guarani: ser alegre, leve e aberto e dizer palavras bonitas. É comum os professores kaiowá/guarani fazerem críticas a colegas crentes que, segundo eles, perdem a alegria e a espontaneidade naturais e passam a ser pessoas fechadas, que não riem mais e não sabem divertir-se. Inclusive chama a atenção o fato de que durante os rituais, mesmo os mais sérios, a alegria e a espontaneidade dos participantes estão presentes e nem mesmo o cacique se furta de rir de alguma criança ou participante que provoque o riso.

Estar a caminho (oguata) é um componente essencial para o modo de ser dos Kaiowá/Guarani, os quais têm a migração[52] como história e como projeto, e estão sempre em busca de uma terra sem males, que lhes sirva de base ecológica, com um trabalho ativo que supõe a recriação e a busca das condições ambientais mais adequadas para o desenvolvimento de seu modo de ser. Mas, como nunca, a terra foi tão coberta de males, e acabaram mesmo ficando sem ela (a terra), confinados que foram, neste último século, a diminutos pedaços de “reservas”. Junto com o encolhimento territorial, os Kaiowá/Guarani foram encolhendo também sua liberdade de expressão – que se fazia, principalmente, através da palavra ritualizada - de movimento e de caminho.

“Na motivação que os impulsiona a caminhar aparece claramente a necessidade de ter um lugar [grifo meu] onde lhes seja possível viver em segurança seu antigo modo de ser” (BRAND, 1997, p.14). Esse lugar é uma terra que possa ser cultivada, ocupada, humanizada e aperfeiçoada pela palavra. Para ser humanizada, essa terra requer, além da mata e da roça, um espaço habitável, com casa e pátio aberto, no qual os Kaiowá/Guarani realizam/encontram o seu arete (tempo-espaço verdadeiro). Hoje, porém, na situação de “desterrados”, muitos acreditam que não conseguem mais alcançar essa perfeição, pois também não conseguem aperfeiçoar a terra. Decorre daí um grande desequilíbrio em seu eixo fundador, gerando enormes conflitos, pois não estão mais conseguindo realizar seu sonho: “Recriar a terra no tempo-espaço perfeito [...] ou alcançar a terra sem males” (CHAMORRO, 1998, p.198). Mas, “mesmo ameaçados pelo ‘Mal Sem-Terra’, têm dado um belo testemunho de amor à vida, de que vale a pena interromper a falta de esperança e entoar um canto!” (idem, 1999, 22).

Para Meliá (1989, p.311), “a história da alma Guarani é a história de sua palavra, a série de palavras que formam o hino de sua vida”. Resumindo, a alma kaiowá/guarani é palavra, é poesia, é canto, é dança, é espiritualidade, é celebração, é alegria. Sua vida é um hino que retrata o homem feliz, pois, em seu corpo de sonho, os Kaiowá e Guarani, através da mútua palavra, em comunidade (oñoñe’ë), “querem transformar esta terra cercada pelo mal numa terra de tempo-espaço perfeito, onde possam viver em paz e em liberdade, conforme seu próprio modo de ser” (CHAMORRO, 1998, p.200). Este desejo mostra-se atualizado nas palavras do professor guarani Valentim Pires (10º ENCONTRO DOS PROFESSORES E LIDERANÇAS KAIOWÁ/GUARANI, 2001):

  A nossa vida boa (teko piro’y ou teko porã), cheia de paz, de luz, de moral, de alegria, de solidariedade, de espiritualidade, de respeito mútuo à natureza e à humanidade, estabelecida por Ñande Ru Tupã, foi sufocada pela colonização e pela cultura de fora, escondendo os nossos valores, como a fonte de água que está secando embaixo de muito lixo. Com nosso trabalho em educação, em todos os sentidos, pretendemos ser um instrumento para limpar a sujeira desta fonte, tornando-a novamente fresca, transparente e brilhante com a luz de Tupã e forte suficiente para saciar a sede de sabedoria do nosso povo e de toda a humanidade.

Palavra, alma, caminho, terra, economia, espaço habitável, casa, festa, canto e dança, perfeição e reciprocidade, passado, presente e futuro, homem e deus, fazem parte do mesmo complexo semântico para os Kaiowá/Guarani: teko marangatu (modo-de-viver religioso), e do mesmo modo de ser e de viver que os identifica como um povo único e sempre renovado.

Brand (1997, p.260) assim resume a cosmologia tradicional dos Kaiowá/ Guarani:

  O passado se torna futuro, [...] através da vivência das palavras da tradição, explicitadas pelo modo-de-ser dos ‘antigos’ (o tekoyma), em especial pela prática da religião, em que a ‘reza’ e o canto ocupam o lugar central. Desta forma os Kaiowá/Guarani construíam [constróem], tradicionalmente, a ponte entre o passado e o futuro. A ‘reza’ e o canto ritual permitem a comunicação com o mundo dos deuses, com o sobrenatural, em que está a virtude e o bem. E é onde está o futuro, esperado e desejado pelos Kaiowá/Guarani.

1.2.3 Educação indígena

Para entender o processo educativo entre os Kaiowá/Guarani é preciso, antes de qualquer coisa, clarear os conceitos sobre educação indígena, comunidade étnica e comunidade educativa indígena.

Segundo Darcy Ribeiro (apud DIAS DA SILVA, 1997-c, p.183-184) “a comunidade étnica é aquele lugar em que o homem se produz. Não há homem sem comunidade étnica”. Para este autor, só na comunidade o grupo “guarda sua própria cultura, tem seu próprio modo de ser e tem uma dimensão limitada”. E o que faz uma comunidade permanecer viva? Ribeiro afirma que “o único requisito para que a comunidade persista é que os pais possam criar seus filhos dentro da comunidade”. Neste sentido, é possível dizer que as comunidades kaiowá/guarani, apesar dos violentos processos historicamente vividos, permanecem vivas, por ainda estarem, em sua maioria, criando seus filhos dentro das mesmas, no interior da família grande, pelo menos durante a infância, senão com os pais (que saem para os contratos de trabalho), mas com as mulheres da família e os velhos, avôs e avós, e mais os irmãos e primos.

No entanto – e neste caso, a necessidade de continuar os estudos torna a escola responsável por isso –, a comunidade perde o sentido quando a família nuclear se muda para a cidade para que seus filhos possam continuar os estudos. Os pais ainda voltam para a aldeia/comunidade e se identificam com ela, mas seus filhos dificilmente retornam, pois seu mundo de relações já não é mais a comunidade étnica e sim a comunidade urbana.

“Produzir” o homem na comunidade étnica, conforme Darci Ribeiro (apud DIAS DA SILVA, 1997-c, p.184), nada mais é do que educá-lo para a própria vida nesta comunidade e de acordo com ela, segundo “um complexo coordenado e ordenado para obtenção de fins específicos”. Dito de outra forma por Egon Schaden (apud Meliá, 1979, p.11-12): “[...] a vida em sociedade requer obediência a um conjunto de normas de comportamento aprovadas pela tradição”. Segundo ele, educar é “formar o tipo de homem ou de mulher que, segundo o ideal válido para a comunidade, corresponda à verdadeira expressão da natureza humana”. E como cada sociedade estabelece o seu próprio ideal de pessoa humana, como diz Meliá (1979, p.12), “existem tantos modelos de educação indígena, quantas culturas”. Para este autor, a definição de Florestan Fernandes é ainda bastante válida para analisar educação indígena, como tradicional, sagrada e fechada: “Numa sociedade tradicionalista, sagrada e fechada, o foco da educação deriva, material, estrutural e dinamicamente, das tendências de perpetuação da ordem social estabelecida”. (MELIÁ, idem, ibidem).

Ou seja, é no processo educativo de cada povo indígena que se reproduz aquilo que são ou que pensam de si mesmos. A educação indígena reflete o Nós (“Ore”, para os Kaiowá/Guarani), como componente da identidade, do “nosso modo de ser” (ñande reko). Isto é, ela se inscreve dentro da reprodução e produção da identidade, marcada por um Nós em movimento, histórico, hoje um Nós em tempo de crise[53]. E, obviamente, este Nós só é possível de ser construído na comunidade educativa. Conforme Meliá (apud DIAS DA SILVA, 1997-b, p.61):

  Numa comunidade educativa indígena há três atores principais da educação, a saber: a economia, a casa e a religião. Olhar a economia como elemento pedagógico significa enxergar como circulam os bens, como são os modos de produção, os modos de troca. Neste sentido, a reciprocidade é um valor sumamente educativo. A casa – espaço educativo doméstico – com todas suas características próprias: o pai, a mãe