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Os resultados da escolarização entre os Kaiowá e Guarani no Mato Grosso do Sul
"Será o letrao ainda um dos nossos?"
por Veronice Lovato Rossato


Introdução

O interesse pela questão indígena começou desde a infância, quando observava os índios na reserva do outro lado do rio ou andando pelas ruas de minha cidade, no Rio Grande do Sul. Durante o tempo da faculdade, na pastoral universitária, tive oportunidade de fazer estudos de análise de conjuntura, desde o ponto de vista dos oprimidos, conhecendo, então, um pouco da situação dos povos indígenas brasileiros. Depois, como jornalista, a partir de 1982, conheci o trabalho do Conselho Indigenista Missionário, órgão da igreja católica, no qual me engajei como missionária leiga, em 1985, para trabalhar junto aos Kaiowá/Guarani[1] do Mato Grosso do Sul, especialmente na área da educação escolar.

Desde então, a minha história de vida e profissional passou a ser também a história da luta dos Kaiowá/Guarani pela construção de uma educação escolar de acordo com a sua realidade sócio-cultural, começando pela formação de professores indígenas, atividade na qual estou até hoje, agora como professora concursada da rede estadual de ensino, atuando num curso de nível médio para habilitação de professores kaiowá/guarani.

Não é uma história linear, mas cheia de tensões e conflitos, de ambigüidades e incertezas, na qual os indígenas, antes não-sujeitos de escolhas que envolvessem situações de contato, como a escola, começaram a perceber-se com possibilidades de serem sujeitos de sua história, pela própria via escolar, coisa antes jamais vislumbrada. Até então – como ainda hoje em muitos casos - a escola era tratada pelo poder constituído, seja público, seja das igrejas, como um instrumento privilegiado para a integração dos índios à sociedade nacional, anulando suas identidades como etnias diferenciadas, para torná-los cristãos, ou para incorporá-los à massa de trabalhadores assalariados, liberando suas terras para a oligarquia dominante[2].

Com certeza não era isso que a sociedade envolvente não-indígena veiculava junto aos índios, e sim passava a idéia sedutora de que a escola lhes daria a possibilidade de alcançar o mesmo estatus social e econômico dos brancos[3], de “melhorar de vida”, de “ser alguém”, de “arranjar um emprego”, de serem, enfim, “civilizados”, discurso presente até hoje em muitas comunidades indígenas e mesmo junto a encarregados oficiais da educação escolar, sem o necessário discernimento crítico da situação.
Diante desse tipo de pressão, que entre os Kaiowá/Guarani já dura mais de 70 anos, parecia “óbvia” a hipótese de que a educação escolar para os Kaiowá/Guarani, segundo o modelo colonialista, interfere e altera o ñande reko ou teko katu (nosso modo de ser e de viver - autêntico e verdadeiro) dos Kaiowá/Guarani (religião, língua, valores, comportamento e organização social tradicionais), levando os índios a rejeitarem esse teko katu e, mais, a sua própria identidade étnica, afastando-se, inclusive, de suas comunidades, e procurando integrar-se ao modo de vida da sociedade envolvente.

Por outro lado, apesar das tentativas de implantar uma escola indígena específica, gerenciada pelos próprios Kaiowá/Guarani, adequada à sua realidade e cultura, percebia-se que este novo modelo escolar não apresentava, aparentemente, resultados favoráveis à manutenção do teko katu, nem à melhoria da qualidade de vida. Ou seja, também não estaria conseguindo desenvolver um bilingüismo cultural[4]. Então, seria a escola uma instituição inútil?

Durante este tempo de convivência com os Kaiowá/Guarani, principalmente junto aos professores indígenas, enquanto ia conhecendo-os mais, penetrando em sua intimidade cultural, percebia, porém, que havia algo que escapava ao controle das instituições, gerando outra hipótese, contrária à primeira: os Kaiowá/Guarani, apesar de aparentemente “civilizados” e “letrados”, continuavam identificando-se como Kaiowá ou Guarani e sendo reconhecidos e prestigiados por suas comunidades. Esta percepção parecia estar de acordo com o que afirma Meliá (1991), segundo o qual, apesar de tanto tempo de imposição destas políticas, visando a descaracterização e a extinção dos índios e de suas culturas, principalmente através da escola e das igrejas, os Kaiowá/Guarani “criaram mecanismos para seguir sendo o que são”, ou conforme Monteiro (apud CUNHA, 1992, p.475), para “a permanente recriação de sua identidade e de seu ‘modo de ser’, frente a condições progressivamente adversas”.

Diante de tantas contradições e ambigüidades, percebi a necessidade de fazer uma investigação mais aprofundada sobre o resultado da escola para os Kaiowá/Guarani, o impacto que ela ocasiona na vida deste povo. Olhando para o contexto de sua cultura material e imaterial, algumas questões ajudariam a detectar a influência da escola no modo-de-ser e de viver dos Kaiowá/Guarani: Como vivem os escolarizados hoje e como se relacionam com a sua família? Como educam seus filhos? Continuam identificando-se como Kaiowá/Guarani? Continuam falando e ensinando a língua Guarani para seus filhos? Qual é a sua religião? Dão retorno para suas comunidades, ou simplesmente as abandonam? Como se comportam na e com a comunidade? O que pensam sobre o modo de vida de seus pais e avós e sobre o seu próprio atual? Como passam a ser tratados pelos seus patrícios e qual passa a ser o seu lugar sócio/político e cultural?

Do ponto de vista das expectativas geradas pelas influências externas, destaco as seguintes, para perceber estes resultados: As políticas da educação escolar têm conseguido seus objetivos? Qual estatus que os Kaiowá/Guarani têm alcançado ao passar pela escola? Melhorou sua qualidade de vida? Estão conseguindo “competir” no mercado de trabalho? Conseguem emprego? Que tipo de emprego? Em quê os conteúdos escolares têm contribuído para resolver os seus problemas e necessidades, ou os de sua família ou de sua comunidade, ou, simplesmente, para entender o mundo que os rodeia? Era esse o futuro que esperavam para si próprios e para suas famílias?
Entendi que seria necessário ir além do aparente percebido e buscar compreender as próprias concepções dos escolarizados kaiowá/guarani e como eles mesmos interpretam sua inserção no mundo escolarizado, ou como reagem à inserção da escola em seu mundo sócio-cultural.

Diante do exposto, este trabalho teve como objetivo geral analisar o impacto da escola no modo de ser e de viver dos Kaiowá/Guarani do Mato Grosso do Sul. Ou seja, propus-me a verificar o papel da escola no processo da dinâmica cultural dos Kaiowá/Guarani no MS, descobrindo até que ponto os escolarizados se identificam com sua etnia, com seu modo-de-ser tradicional[5], senão na cultura material, pelo menos no imaginário[6]. Para isso, analisei as concepções que os Kaiowá/Guarani em geral e particularmente os escolarizados têm sobre suas vidas, e como elas são reelaboradas em função de suas vivências (em nível individual, familiar e comunitário), principalmente escolares, mas não exclusivamente, quanto a vários itens como qualidade de vida, mudanças culturais, valorização e preservação da identidade étnica, sua aceitação, enquanto “letrado” (letrao), pela sua família e comunidade.

A escolha dos informantes da pesquisa recaiu, principalmente, sobre sujeitos que passaram pela escola, de preferência com maior escolaridade. A maior parte dos escolarizados é ex-alunos das primeiras turmas (1983-1987) do ensino fundamental completo, formadas na Escola Francisco Meireles, da Missão Evangélica Caiuá[7], em Dourados. Outros são egressos de outras escolas da região. Nestes casos, já decorreu tempo razoável para que tenham encaminhado um “futuro” para eles e para suas famílias. O modelo escolar destas escolas, na época em que estes alunos as freqüentaram, refletiam a política colonialista, que busca integrar os índios à sociedade nacional. Os demais sujeitos escolarizados são ex-alunos da Escola Guarani/Kaiowá da Reserva de Amambai, que passou a oferecer Ensino Fundamental completo a partir de 1993. Esta é uma escola indígena, que pretende ser “diferenciada”[8], construída na esteira do novo paradigma da educação escolar indígena, viabilizada, principalmente, a partir de 1988, sob os auspícios da nova Constituição Brasileira. Os outros depoentes são pessoas mais velhas, geralmente não escolarizados ou com muito pouca escolaridade, entre os quais alguns capitães e ex-capitães, além de caciques kaiowá/guarani[9]. Alguns destes informantes foram sujeitos da pesquisa de Brand (1997), no recorte que aborda a questão escolar.

O principal procedimento utilizado para a coleta dos dados deste trabalho foi através de entrevista, de roteiro aberto, com escolarizados kaiowá/guarani, para detectar seu pensamento a respeito da escola em suas vidas, sua influência no modo-de-ser e de viver tradicional, em sua identidade étnica[10], em sua qualidade de vida, de suas famílias e das suas comunidades de origem, bem como suas expectativas quanto ao futuro desejado. Também foram registradas as condições objetivas em que estes escolarizados e suas famílias se encontram e sua inserção na comunidade. Além disso, procurei fazer um contraponto com o pensamento de pessoas mais velhas, as quais também analisam o papel da escola e as alterações decorrentes deste novo veículo cultural no modo de ser e de viver tradicional do povo kaiowá/guarani.

Foi realizado um total de 41 entrevistas com escolarizados, dos quais, 16 continuaram os estudos além do ensino fundamental. O destaque para a escolha dos informantes é que estes escolarizados são os primeiros que atingiram maior nível de escolaridade entre os Kaiowá/Guarani no Mato Grosso do Sul. Nas entrevistas foram levantadas as suas histórias de vida, além das opiniões de alguns deles a respeito das questões propostas na pesquisa. Os dados gerais sobre a vida dos entrevistados escolarizados constam de quadro em anexo.

Para a análise dos depoimentos foi utilizada a técnica de “análise de conteúdo”, como proposta por Bardin (1977, p.9), por ser:

 

um conjunto de instrumentos metodológicos cada vez mais subtis em constante aperfeiçoamento, que se aplicam a ‘discursos’ (conteúdos e continentes) extremamente diversificados” e que oscila entre dois pólos do rigor da objetividade e da fecundidade da subjetividade.


Segundo esta autora, o fundamental não é o que a mensagem diz à primeira vista, mas o que ela veicula, dados o seu contexto e as suas circunstâncias” (idem, p.21). E o que o comportamento e os discursos dos Kaiowá/Guarani dizem está influenciado pelo lugar que eles ocupam no tempo e no espaço histórico e geográfico, considerando seus referenciais culturais e suas relações internas e externas. Este lugar ocupado pelos Kaiowá/Guarani está descrito nos dois primeiros capítulos, segundo estudos já realizados anteriormente e acrescidos das observações etnográficas e análises da pesquisadora.

O trabalho está organizado da seguinte forma: No primeiro capítulo consta o contexto histórico dos Kaiowá/Guarani atuais do Mato Grosso do Sul, situando o processo de confinamento territorial e cultural a que foram submetidos pela sociedade envolvente, cuja lógica não é a mesma que a deles. Esclarece também as conseqüências deste processo em seu modo de ser e de viver (ñande reko) peculiar e único, enquanto uma identidade étnica que busca na tradição os referenciais para iluminar o presente alterado pelas circunstâncias e torná-lo viável, tendo em vista a busca de um futuro que se situa não só na dimensão material, mas também imaterial.

No segundo capítulo aparece o contexto escolar em que esta sociedade indígena está inserida, considerando a conjuntura histórica educacional do Brasil e do Mato Grosso do Sul, com seus modelos político-ideológicos e suas influências na legislação da educação escolar indígena e nas práticas das escolas que atendem os Kaiowá/Guarani. Para ilustrar estas práticas, é descrito o contexto das duas escolas em áreas indígenas que oferecem ensino fundamental completo a alunos indígenas: a Escola Francisco Meireles, de Dourados (durante a década de 80), e a Escola Guarani/Kaiowá Coroa Sagrada, de Amambai (durante a década de 90), que são também as escolas por onde passou a maioria dos escolarizados informantes desta pesquisa.

No terceiro capítulo são analisados os resultados da escola junto aos Kaiowá/Guarani, considerando as concepções dos velhos, que se espelham na tradição e, particularmente, as concepções dos próprios escolarizados e o seu modo de vida. Finalmente, tento responder a questão proposta no título do trabalho: “Será o letrao[11] ainda um dos nossos?”, ou seja, continuam os escolarizados identificando-se como Kaiowá ou Guarani?

Determinados termos usados pelos informantes, tais como cacique, rezador, capitão, crente, branco e outros, além das palavras ou expressões na língua Guarani, estão escritos em itálico.

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[1] Estas duas etnias pertencem à grande nação Guarani, da qual fazem parte as três parcialidades atuais: os Mbyá; os Ñandéva ou Ava Chiripá que, no Mato Grosso do Sul, se autodenominam simplesmente Guarani; e os Kaiowá que, no Paraguai, se autodenominam de Pãi Tavyterã. Alguns autores também incluem os Chiriguano, da Bolívia, como uma parcialidade Guarani. Para a ortografia das etnias uso as iniciais maiúsculas quando estas palavras forem sujeitos (ex.: os Kaiowá/Guarani) e minúsculas quando forem adjetivos (ex.: professores kaiowá/guarani).

[2] As políticas de educação escolar no contexto das sociedades indígenas serão apresentadas no capítulo 2.

[3] Brancos, para os índios, são todos os não-índios, independente da raça a que pertencem.

[4] Bilingüismo cultural é a situação em que a pessoa utiliza-se de dois códigos culturais, não necessariamente na mesma intensidade, nem ao mesmo tempo. Pode ser entendido também como “diálogo intercultural” ou, simplesmente, “interculturalidade”.

[5] As expressões “tradicional” ou “tradição” estão sendo consideradas, neste trabalho, como aquele modo de ser, próprio dos Kaiowá/Guarani, que busca seus referenciais no passado (tekoyma), o qual, conforme Brand, “segue informando o presente”. “Modo de ser tradicional” ou, como dizem os próprios Kaiowá/Guarani, ñande reko, é um conceito usado como sinônimo para as expressões teko katu (modo de ser e de viver autêntico e verdadeiro), teko marangatu (modo de ser religioso), ou teko porã (modo de ser bom). Para Sahlins e Barros, “tradições” são “compreensões preexistentes da ordem cultural”, que podem ser “reinventadas através da adequação do passado ao presente, [...] ressignificadas” (MATO GROSSO, 1997, p. 28-29). Não se trata, portanto, de algo estático no passado, mas constantemente reinventado pelos sujeitos.

[6] Segundo a antropóloga Maria de Lourdes Beldi, da USP, em conversa informal (2002), “imaginário” são as representações que determinam a subjetividade cultural de um indivíduo ou de um grupo.

[7] A Missão Evangélica Caiuá, de origem norte-americana, instalou-se em Dourados no ano de 1928, com objetivo de estabelecer “escolas de alfabetização, instrução cristã, instrução de higiene e agricultura, oferecendo-se às populações indígenas toda a assistência física, intelectual, social, moral e espiritual que for possível” (Livro de Atas da Missão nº 1, apud Bernardes, 1999, p. 4).

[8] Segundo o Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas (1998, p.25), a escola indígena deve ser específica e diferenciada “porque concebida e planejada como reflexo das aspirações particulares de cada povo indígena e com autonomia em relação a determinados aspectos que regem o funcionamento e orientação da escola não-indígena”.

[9] Capitão é o maior cargo indígena de chefia da comunidade, em vigor desde a época do Serviço de Proteção ao Índio – SPI; cacique ou ñanderu são pessoas cuja função atualmente é apenas religiosa e/ou de cura.

[10] Segundo D’Angelis (Veiga e Salanova, 2001, p. 44-45), “Uma etnia [...] é um grupo de pessoas de uma mesma origem que partilham uma mesma identidade, se reconhecem e são reconhecidos como um grupo ou comunidade humana diferente das demais”. O conceito de “identidade étnica” será melhor abordado em outro momento.

[11]Letrao” é expressão usada pelos Kaiowá/Guarani para identificar o “letrado”, ou seja, o escolarizado.

 
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