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História da Filosofia no Rio Grande do Sul
Resultado
de 30 anos de pesquisas, começa a tomar forma o livro sobre os
pensadores gaúchos
Em
entrevista ao Jornal da Universidade, publicada na edição
de março deste ano, afirmei que meu grande sonho seria escrever
uma História da Filosofia no Rio Grande do Sul. Este sonho, que
não é só futuro, já começou a se realizar
de modo parcial com mais de 30 artigos publicados ao longo dos últimos
anos - e uma meia dúzia aguardando sua vez.
Por que História da Filosofia? Sempre me chamou a atenção
a pequena presença do pensamento rio-grandense nos estudos sobre
a filosofia no Brasil, com pequenas exceções como o exame
do castilhismo. Este fato me motivou, cerca de 30 anos atrás, a
começar pesquisas sobre o tema, coletando e examinando a bibliografia
esparsa existente, e chegando hoje a um acervo muito expressivo. Nesta
tarefa, recebi confortante estímulo externo. Entre outros, o padre
Henrique de Lima Vaz S.J., recentemente falecido, me
escrevia: "Seu projeto de pesquisa, seja em vista do material já
reunido, como igualmente levando em conta o interesse e a importância
do assunto para a história das idéias no Brasil, é
perfeitamente válido. Meu saudoso amigo Luis Washington Vita, que
estava reunindo uma importante documentação sobre filosofia
no Brasil quando a morte prematura o colheu, acentuava a necessidade de
pesquisas regionais nesse campo (por exemplo, Nordeste, Minas, Rio, São
Paulo, Rio Grande do Sul), dada a fisionomia intelectual própria
e as tradições culturais diversas dessas regiões,
como também pelo fato de que o estado disperso da documentação
impõe inicialmente esse corte metodológico entre regiões
culturais diversas e, nelas, entre as correntes diversas. Acredito que
tal estudo poderá abrir caminho para uma nova fase, mais cientificamente
documental, da história da filosofia no Brasil. Assim sendo, só
posso estimulá-lo a realizar esse trabalho".
A História que, como disse, de certa forma já comecei a
escrever, se debruçará, num primeiro momento, sobre o século
XIX, o menos estudado e conhecido, examinando:
1) os teóricos que inspiraram a Revolução Farropilha;
2) a Primeira Cadeira de Filosofia no Rio Grande do Sul, com seus primeiros
ocupantes, respectivamente o padre Mestre João De Santa Bárbara
(1786-1868) e Antonio Alves Pereira Coruja (1806-1889);
3) a contribuição dos jornais e revistas , veículos
importantes para a difusão das idéias, dada a quase inexistência
de livros especializados, com destaque para O Guahyba (1856), Atualidades
(1867), Revista do Partenon Literário (1869), Reminiscências
do Guaíba (1870), Eco do Ultramar (1876), Álbum de Domingo
(1878), Culto às Letras (1880), A Federação (1884),
O Contemporâneo (1886) e Letras e Artes (1899), entre outros; 4)
as Agências Formadoras do século (Seminário de Porto
Alegre, Ginásio Conceição de São Leopoldo,
Colégio Militar de Porto Alegre); e
5) pensadores destacados.
Entre esses pensadores estão:
Joaquim Caetano da Silva (1810), que publicou, em Montpellier, Quelques
Idées de Philosophie Médicale, a primeira tese de interesse
filosófico no Rio Grande do Sul;
Francisco Luiz da Gama Rosa Jr (1852-1918), natural de Uruguaiana, autor
que foi traduzido, ao que consta, por Max Nordau, que manteve correspondência
com Herbert Spencer, e que pode ser considerado o fundador da Sociologia
Brasileira;
Licínio Cardoso (1852-1926), nascido em Lavras do Sul, autor de
Diniaterapia Autonósica e Filosofia da Arte;
Júlio Prates de Castilhos (1860-1903), natural de Vila Rica, líder
e pensador positivista;
José Araújo Ribeiro (1800-1879), autor da talvez mais criativa
e original obra filosófica do período, O Fim da Criação
ou a natureza interpretada pelo senso comum;
Karl von Koseritz (1834-1990), autor de A Terra e o Homem à luz
da moderna ciência;
Graciano Alves de Azambuja (1847-1911), autor de onze artigos, um verdadeiro
compêndio de filosofia, publicados na Gazeta de Porto Alegre;
Joaquim Salles Torres Homem (1851-1900), autor do Manual da Filosofia
Escolar;
João Gonçalves Viana (1890-1934), que escreveu os livros
Medicina Social e Tebaida, com poemas de fundo nitidamente filosófico;
Gustavo Locher S.J. (1853-1942), autor do Vade Mecum Filosófico,
obra que provocou grande polêmica, com ataques de Alcides Maya através
do Correio do Povo.
O
século XX, principalmente em sua segunda metade, vê o magnífico
crescimento da Filosofia e, podemos afirmar, o seu fastígio. A
criação de unidades de ensino superior, no final do século
XIX e inícios do século XX, as quais deram origem à
Universidade de Porto Alegre, mais tarde UFRGS, é um fato marcante.
A Escola de Engenharia, a Faculdade de
Direito e a Faculdade de Filosofia foram locais em que a filosofia esteve
presente de modo especial. Com a criação da Faculdade de
Ciências Econômicas (1931) e da Faculdade de Filosofia (1940),
pelos Irmãos Maristas, estava lançada a pedra fundamental
para a criação da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul, na mesma década de 40.
Na segunda metade do século, começam a ser criadas faculdades
de Filosofia no interior do estado, muitas delas se constituindo em embriões
de futuras universidades em Santa Maria, Pelotas, Rio Grande, São
Leopoldo, Caxias do Sul, Passo Fundo, Ijuí e Canoas. A instalação
dos programas de pós-graduação, com mestrado e doutorado
em Filosofia, eleva sumamente o nível dos estudos e das pesquisas
filosóficas. UFRGS, PUCRS e Unisinos se rejubilam com seus cursos.
Na primeira metade do século, a filosofia se parte em duas grandes
correntes, a Neo-escolástica e o Cientificismo/Positivismo. Na
segunda metade, se instala um pluralismo filosófico, extremamente
salutar e enriquecedor. Destaque-se:
Neo-escolástica - Com a presença do capuchinho francês
Frei Pacífico de Bellevaux (1873-1957) e o alemão Werner
von und zur Mühlen (1874-1939), que deixaram discípulos ao
seu redor, como a proeminência de Armando Câmara (se tornou
chefe de Escola, foi reitor das duas universidades de Porto Alegre e senador
da República). Armando filosofou oralmente, à maneira de
Sócrates, numa linha conservadora, diferentemente de outro discípulo,
Ernani Maria Fiori, que nos últimos anos manifestou intensa preocupação
social.
Positivismo - Com a liderança de Júlio de Castilhos, foi
mais escola política do que filosófica.
Spencerismo - Com importantes figuras militares, como Rodolfo Pau Brasil,
além de Alcides Maya, que prometeu uma obra sobre o tema, nunca
publicada.
Fenomenologia e Existencialismo - Tendência mais atual, onde se
sobressaem estudos sobre Jean-Paul Sartre, com Gerd Bornheim e Marcos
Lutz Mueller; sobre Martin Hidegger, com Ernildo Stein; sobre Gabriel
Marcel, com Urbano Zilles; sobre Albert Camus, com Alfredo Melo Becker:
sobre Lévinas, com Pergentivo Pivatto e seu grupo; sobre Martin
Buber,
com Antônio Sidekun; sobre vários autores, com João
Alberto Leivas Job e R. Figurelli.
Neo-hegelianismo - Com as reflexões de Carlos Roberto Cirne Lima,
Denis Rosenfield, L.B. Puntel e Marcelo Aquino.
Marxismo - Tendência prejudicada pelos anos de clandestinidade,
mas que permitiu o brilho de Otto Alcides Ohlweiler.
Kantismo - Com Januário Gaffré e Valério Rohden.
Filosofia Analítica - Com L.B. Puntel e Rejane Carrion.
Todo o movimento filosófico da segunda metade do século
XX repercutiu na área bibliográfica. Os pensadores desta
metade não podem ser chamados exatamente de socráticos,
como os da geração anterior. Publicaram e seguem publicando
bastante, o que fez surgirem editoras universitárias e revistas
especializadas.
Algumas questões especiais deverão ser analisadas em meu
livro, entre elas o impacto do golpe militar de 1964 na Faculdade de Filosofia
da UFRGS, com cassações e aposentadorias. Também
registrarei peculiaridades como os pensadores gaúchos na diáspora,
as cidades natais de nossos filósofos (que se espalham por todo
o estado) e a língua em que os rio-grandenses filosofaram. Farei
uma grande Cronologia da Filosofia no Rio Grande do Sul e uma Cronomagia
Comparada, em que os fatos rio-grandenses estarão ao lado dos brasileiros
e dos pensadores universais.
"Quem
não está comigo está contra mim"
"Os
gaúchos filósofos, talvez em decorrência do seu socratismo,
são professores. Ernani Maria Fiori estabeleceu uma caracterização
dos professores de Filosofia que bem se aplica ao caso rio-grandense:
'Há pensadores que são criadores de filosofia e, então,
o magistério, para eles, é apenas a expressão de
seu trabalho criador'. Os gaúchos filósofos não se
situam neste grupo. Continua Fiori: 'Há outros que são professores
e que entendem que o magistério de filosofia deva ser uma reflexão
filosófica feita em comum, no diálogo com seus alunos. E,
então, se eles têm um certo amor à sabedoria, eles
se fazem, neste exercício, filósofos'. Muitos gaúchos
filósofos se localizam neste grupo. Mas, lamentavelmente, há
alguns gaúchos filósofos 'situados em um terceiro grupo:
o daqueles professores que apenas repetem conteúdos, sem nenhum
esforço de criatividade'.
Os gaúchos filósofos são europeus. Europeus exilados.
A realidade brasileira e/ou latino-americana jamais fez parte de suas
preocupações. Nem sequer a adaptação do pensamento
alienígena à situação tropical e subdesenvolvida
de nosso país ocupou-os. Os gaúchos filósofos não
citam autores brasileiros. Viveriam de modo ajustado à realidade
européia, como o fazem os gaúchos da diáspora, dividindo-se
e subdividindo-se em escolas e subescolas, afirmando-se como kantianos,
idealistas, positivistas, evolucionistas, neo-escolásticos, existencialistas,
analíticos, personalistas, frankfurtianos e estruturalistas, citando
Tomas de Aquino, Scotus, Kant, Hegel, Kierkegaard, Darwin, Comte, Spencer,
Nietzsche, Heidegger, Sartre e, mais recentemente, Wittgenstein, Buber,
Mounier, Ricoeur, Levinas, Foucault, Haberman e outros. Talvez a europeização
dos gaúchos filósofos explique sua pouca originalidade.
O confronto com os europeus gera o temor e o tremor.
Mas a europeização não esfria os ânimos sul-brasileiros
dos gaúchos filósofos. O caráter apaixonado da nossa
latinidade se reveste de poncho e se mune de adaga e sai em defesa de
sua concepção, do seu ponto de vista. Cientistas políticos
já enfatizaram a forma particular de clivagem política existente
no Rio Grande do Sul, expressa em padrão de
polarização, seguramente o mais rígido e constante
do país, com recuados antecedentes na história, traduzindo
um peculiar comportamento passível de denominar-se lato sensu de
bipartidarista (Leônidas Xausa e Francisco Ferraz). Este bipartidarismo
dicotômico e maniqueu não se restringe à política,
mas avança em outros setores culturais, inclusive na
comunicação e no esporte. Na Filosofia, cria o espírito
de 'quem não está comigo está contra mim'. Neste
contexto devem ser situadas famosas polêmicas rio-grandenses, como
as de von Koseritz x jesuítas, Gustavo Locher x Alcides Maya, Paulo
Arinos (pseudônimo de Moysés Vellinho) x Rubens de Barcellos,
Erico Verissimo x Leonardo Fritzen."
*
Trecho do ensaio "Os gaúchos filósofos", publicado
na coletânea Nós, os gaúchos (Editora da Universidade/UFRGS,
1992). Nele, o professor Luiz Osvaldo Leite sistematiza pela primeira
vez suas idéias sobre uma História da Filosofia no Rio Grande
do Sul.
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