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Seminário Internacional

XI Ciclo de Estudos sobre o Imaginário
De 24 a 27 de outubro de 2000

Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco (CFCH)
Cidade Universitária

PROGRAMAÇÃO

DIA 25 de OUTUBRO de 2000


Le retour du destin, ou longue mémoire de l' inconscient collectif Conferência de Michel Mafessoli

GT Cidades: Lugares, Não-lugares, Entre-lugares...
Sessão 1

Sessão 2
Sessão 2

DIA 26 de OUTUBRO de 2000
Mythe urbain et violence fondatrice
Conferência de Jean Jacques Wunenburger

GT Cidades: Lugares, Não-lugares, Entre-lugares...

Sessão 3

DIA 27 de OUTUBRO de 2000

GT Cidades: Lugares, Não-lugares, Entre-lugares...

Sessão 4

DIA 25 de OUTUBRO de 2000

Le retour du destin, ou longue mémoire de l' inconscient collectif
Conferência de Michel Mafessoli (Prof. Dr. da Université Paris-Sorbonne)
Horário: 8:30 às 10:00
Local: Auditório do CFCH (UFPE)

GT CIDADES: LUGARES, NãO-LUGARES, ENTRE-LUGARES...
Organizanização e Coordenação Prof. Dr. Antonio Motta (PPG-Antropologia UFPE)

Sessão 1
Horário: 10:30 às 13:00
Local: Auditório do CFCH (UFPE)

O Recife melhor do que Paris
Mário Hélio

Historiador, crítico literário, escritor, jornalista, editor.
a cidade se fere do mar e não arrefece
a cidade emboscada em cada coisa bela
convive pacificamente com o terror
equilibra-se em marismas do equador
erguidas na agonia vertical das velas
tantos corpos se deixam na areia escaldante
nos hospitais, prisões, nos quatro cantos
cordiais do ocidente, que se ufana, enquanto
se definha, se finda, se morre, a todo instante
até onde o mar desponte a noite convide
a dor aos revides das ondas a rever
e reter e a rumar a maré e arremeter
vilacidade que o mar vomitagride
o recife dá vontade de morrer
(Leitura do poema O Recife melhor do que Paris, seguido de apresentação multimídia)

O Recife e as cidades invisíveis
Antonio Paulo Rezende
Prof. Dr. do Depto. de História-Universidade Federal de PE

A cidade é uma construção que foge aos limites da sua dimensão física. Decifrar sua história exige uma leitura dos seus símbolos e da sua memória. Cada cidade guarda segredos que nunca cessam de ser reinventados. Quando contamos a história só a partir do visível, trilhamos caminhos comuns e meramente cronológicos, sem surpresas. Calvino e Garcia Marquez nos acenam, nos seus livros , com a dimensão mágica das suas cidades. Não devemos esquecê-las. É assim que deve ser pensada e contada também as histórias do Recife ou de qualquer outra cidade. Moram nas cidades muitos mitos, entre eles o da liberdade e o da igualdade. A história do Recife convive com seus mitos, desde seus primeiros tempos. O culto ao planejamento termina por esconder essas cidades invisíveis. Não podemos deixá-las naufragar no esquecimento.

Memória e remodelação urbana: o centro histórico de Salvador questionado pelo Bando de Teatro Olodum
Catarina Sant Anna
Profa. Dra. Depto. de Fundamentos de Teatro e Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia.

A "Trilogia do Pelô" constitui um ciclo de peças construídas pelo Bando de Teatro Olodum, companhia de atores negros residente no Teatro Vila Velha, de Salvador, e originada de uma iniciativa do Grupo Cultural Olodum, em 1990. Esse conjunto de peças _"Essa é a Nossa Praia", "Ó Pai, Ó" e "Bai Bai Pelô" que tem como protagonista a própria comunidade do Pelourinho, bairro a partir do qual foi fundada a cidade de Salvador há 450 anos, foi construído entre 1990 e 1994, justamente quando o referido local estava sofrendo os primeiros impactos de um grande projeto de replanejamento urbanístico empreendido conjuntamente pelo governo municipal, estadual e federal. Propomos analisar quais os tipos de memória em jogo nessas obras teatrais e suas formas de embate, conflito, resistência, partindo de uma visão de cidade como texto, do qual seus habitantes são, ao mesmo tempo, autores, signos e leitores; não descurando das relações entre memória e oralidade/tradição oral, fundamental neste processo de construção textual, coletivo por excelência.

As Marcas Do Tempo :monumentos e criação de uma memória colonial no Rio Grande do Norte
Julie A Cavignac
Profa. Dra. do Departamento de Antropologia de Universidade Federal do RGN.

O resgate de uma memória colonial e das representações simbólicas ligadas aos principais personagens da história local se faz na hora da evocação dos monumentos construídos; marcas do passado presentes no espaço urbano. As lendas de fundação das cidades se agregam às estórias de trancoso ou aos contos de encantamento, bem como algumas referências mais breves, presentes nas conversas e em outros tipos de discursos. Neles, podemos notar a repetição e a insistência sobre um detalhe pertencente a determinado acontecimento histórico que geralmente difere da versão dos historiadores - ou a deslocação de um monumento para uma outra época como é o caso das obras deixadas pelos holandeses ou ainda, a notificação de uma manifestação sobrenatural junto a um monumento geralmente numa casa inabitada ou num cemitério esquecido -, ou, enfim, o relato da presença de monstros subterrâneos (aquáticos ou terrestres) povoando o subsolo das cidades históricas do Rio Grande do Norte (igrejas, fortes, prisões, poços, etc.). São temas recorrentes e dinâmicos que formam os elementos díspares de uma visão bastante instigante da história local, tendo como característica principal a realização de sua construção por vários atores. A reflexão que propomos aqui visa resgatar uma história mestiça, reelaborada pelos seus descendentes, levantando problemas ligados aos aspectos teórico-metodológicos da análise das formas narrativas numa perspectiva antropológica. Pensamos que a leitura comparada dos textos da tradição oral e dos resultados da pesquisa etnográfica ajuda a desenhar uma geografia e uma história imaginária das cidades do Rio Grande do Norte.

Entre a terra e o mar
Rita de Cássia Barbosa de Araújo
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Neste findar de século, as praias firmaram-se como espaço privilegiado de lazer e sociabilidade, função e lugar de consumo e de atitudes comportamentais de massa. Contudo, malgrado a força e visibilidade com que se apresenta, este modo de viver e conceber as praias possui existência relativamente curta na história da sociedade brasileira. Sucessivas transformações se processaram no espaço geográfico, econômico, social e cultural das praias que, tendo raízes fincadas nos anos de 1840 (referindo-se particularmente às praias do Recife e de Olinda) intensificaram-se a partir das décadas finais do século XIX e iniciais do XX. O trabalho de pesquisa, em que se baseia essa comunicação, constitui uma tentativa de apreender e explicitar a trajetória histórica das mudanças verificadas nas formas coletivas de perceber, sentir e usufruir do mar e suas praias, as quais tornam-se inteligíveis apenas quando associados ao contexto social mais amplo no qual se inscrevem e, particularmente, ao mundo das cidades.

SESSÃO 2:
Hora: 14:30 às 17:30
Local: Auditório do CFCH (UFPE)

Exibição da peça musical de Jonh Cage: Roaratorio (Ein Irischer Circus über Finnegans Wake) seguida da leitura do poema CIDADE de Augusto de Campos, 1963.

Algumas observações sobre o trânsito entre o "dizer" e o "mostrar"
Marcelo Coutinho
Artista plástico, Prof. do Depto. de Teoria da Arte e Expressão Artística da UFPE

Há três anos venho criando, como trabalho de artes plásticas, um conjunto de neologismos extraídos e construídos a partir de anagramas de meu nome. Estas novas palavras procuram nomear objetivamente sensações físico-emocionais vividas por mim. Tais sensações, por origem, não são passíveis de descrição sem perderem sua integridade. Elaboradas com o formato de dicionário, denominadas segundo categorias como substantivos, adjetivos, verbos, estas palavras nomeariam, em verdade, a impossibilidade de tudo nomear. A reflexão em questão terá como tema o paradoxo que compõe este projeto de dicionário montado sobre a distância e a possível crise entre o "dizer" e o "mostrar"; entre o ato experienciado e o ato relatado. Nesta ocasião serão exibidos os registros visuais da ação urbana denominada "nosfate" que parece "mostrar" um tipo surdo de atitude individual sobre o corpo coletivo da cidade.

Imersa em um Monumento
Oriana Duarte
Artista Plástica, Professora do Departamento de Design/Centro de Artes e Comunicação da UFPE.

O encontro com a imagem de uma estrutura arquitetônica de grande porte é tomado como veículo de reflexão sobre a cidade de São Paulo, enquanto cenário de uma recepção visual dinâmica, onde estruturas em relações complexas acionam diversas possibilidades de apreensão (e vivência) do espaço urbano no mundo atual. Dividido em duas partes ("o monumento" e a "imersão") o trabalho propõe o atravessar por entre textos e imagens, pelos quais, são abordados conteúdos vindos, sobretudo, dos campos do conhecimento da arte e da filosofia.

Operador de câmara escura
Giovanna Pessoa
Artista plástica, mestranda em antropologia na UFPE

Percursos são atos de enunciação, espaços manipuláveis, nos quais se realiza uma série de caminhos. Seus enunciados remetem a uma organização flutuante de tempos e movimentos, provocando dobras infinitas entre as coisas. São nos trajetos que se desvelam as formas ocultas escondidas na ampla escala da cidade. O "ter" e o "perder" das imagens, que permeiam as trajetórias, se conectam à sensações inenarráveis. Através de um vídeo performativo buscarei realizar uma operação nos interstícios plásticos do pensar e do caminhar. São nos deslocamentos que o reter concreto das imagens se dissolve quando percebemos que o ver é perder e o olhar é tornar-se imagem. A partir de uma série de fragmentos visuais da mobilidade citadina serão configuradas noções cíclicas do aparecer, aproximar e afastar.

Garimpo
Betânia Luna
Arquiteta e artista plástica.

Apresentação de onze imagens fotográficas que enfocam a presença de "lugares" a partir de "não-lugares"no bairro da Boa Vista, na cidade do Recife.

Caminhos de Pedra
Jane Pinheiro
Antropóloga, Fotográfa, Professora de Artes Plásticas do Colégio de Aplicação da UFPE.

Eu era uma rua e sobre mim se projetava o tempo: no andar dos transeuntes, no acúmulo de fumaça, no correr dos ônibus. Entretanto, eu-rua, a despeito do tempo, continuava o meu caminho. Configurava-me no espaço da minha amplitude com especial soberba. O tempo passava. Eu ficava. (Projeção de fotografias de calçadas em pedra portuguesa do bairro do Recife acompanhado de fundo musical produzido pela autora a partir do registro aleatório de sons durante um passeio de bicicleta por bairros da cidade).

Paisagens e Desejos
Bartira Ferraz.
Profa. do Departamento de História da UFPE.
Participação: Roberta Guimarães (fotografia) e Alice Macedo (instalações)

Reunião de colagens, textos e fotografias sobre a paisagem natural e humana captada em Pernambuco, dos tempos coloniais até a contemporaneidade. Colagens de formas, técnicas e desejos apoiados em textos que servirão de suporte para datar e nomear espaços. Para a sua apresentação será utilizada instalação de uma pequena exposição de colagens.


O entre-lugar do Mangue
Paula de Vasconcelos Lira
Antropóloga

Apresentação de imagens, sons, signos, formas e representações do mangue a partir do imaginário mangueBit.

ASSOMBRAÇÕES
Mônica Vasconcelos
Arquiteta e fotógrafa

... anjos, querubins, donzelas, deuses e deusas, leões alados, pássaros, fantasmas, monstros...estáticos, majestáticos, ora expostos, explícitos, ora velados em recônditos jardins... imóveis nas ruínas e beirais, incrustados nas fachadas, enfumaçados pela marca indelével do tempo....à espreita, à procura, à espera de um olhar... "nessas paragens do vago onde toda realidade se dissolve..." (Projeção de imagens de elementos escultóricos de praças, fachadas e cemitério, acompanhadas de fragmentos musicais do poema de Rimbaud, O Barco Bêbado, da peça musical de John Cage, Roaratorio, e de solo para piano, Evocação, de Nelson Ferreira.

DIA 26 de OUTUBRO de 2000

Mythe urbain et violence fondatrice
Conferência de Jean Jacques Wunenburger (Prof. Dr. Da Université de Bourgogne, Dijon)
Horário: 8:30 às 10:00
Local: Auditório do CFCH (UFPE)

GT Cidades: Lugares, Não-lugares, Entre-lugares...

SESSÃO 3:
Horário: 14:00 às 17:30
Local: Auditório do CFCH (UFPE)

Roque Santeiro - uma outra história
Tarciana Portella
Diretora de vídeos, produtora de Projetos Multimeios, Conselheira de Cultura de Pernambuco

Apresentação de vídeo etnográfico em que discute a modernização da cidade, apartheid social e ecologia a partir da visão dos moradores desta comunidade, uma favela na beira do rio Capibaribe. Situa-se numa área limítrofe do bairro dos Coelhos, de antiga tradição de lutas, bastante valorizada pela especulação imobiliária dentro do processo de revitalização de regiões centrais do Recife. O documentário também mostra o perigo que paira sobre as ZEIS - Zonas Especiais de Interesse Social, iniciativa pioneira no país para o direito ao solo, moradia, cidade, cidadania. Criadas em 83, pela pressão popular, as ZEIS sobrevivem sob fortes pressões para serem extintas antes de vingarem.

Vidas Suspensas na Ponte do Limoeiro: a adaptação do morar ao Não-Lugar.
Germana Zaicaner
Arquiteta, mestranda no PPG-Antropologia da UFPE

Este ensaio tem como objeto de análise o grupo e sua relação com o espaço que ocupam no vão livre da viga estrutural da Ponte do Limoeiro, como uma resposta espontânea e transgressora a um problema urbano maior que é a falta de moradia. Frente a este fato, pretende-se observar como atua o imaginário dessas pessoas que criam e vivenciam um lugar acoplado ao vazio de um não lugar a ponte -, buscando compreender a percepção e apreensão deste espaço enquanto lugar habitado e com um cotidiano doméstico, verificando se há ou não uma possível relação entre o ambiente espacial e a epresentação mental que este grupo produz. É a intensificação das dicotômicas relações "cidade legal x cidade ilegal" e "cidade ideal x cidade real". É uma das respostas à ausência do lugar de morar, que gera e é gerada pelo efeito marisco , que implica na ação de se justapor, colar-se a uma estrutura preexistente com funções outras, que não a do habitar; ocupando pequenos espaços vagos, preenchendo os interstícios da malha urbano-social local, parasitando de várias formas, ao criar e colar casas nestes vazios. É adaptar a natureza, o morar e o viver às condições de um espaço inadequado aos mesmos. É a inversão da lógica do postulado arquitetônico moderno que "a forma segue a função", para o postulado de que o corpo segue a forma , como mais uma transgressão e degradação da sociedade.

As cidades e a lama: Manguetown.
Paula de Vasconcelos Lira
Antropóloga

Dialogando com o imaginário do mangueBit encontro deusas. O mangueBit é fenômeno artístico surgido em Recife no início da década de noventa, e a Manguetown é uma dessas deusas: suja, fértil, violenta, selvagem, antiga, urbana, contemporânea, cosmopolita. Recife é então a cidade do mangue, assim denominada pelo grupo de amigos que produziu o embrião do mangueBit. Do mesmo modo que trouxeram um novo nome para a cidade que os continha e rejeitava, estes amigos se intitularam com zombaria de mangueboys e manguegirls. Assim, a Manguetown é uma das faces da metrópole onde habitam esses mutantes caranguejos com cérebro. Eles se deparam com uma deusa aterrada por desvarios decorrentes da cínica noção de progresso e aliam-se à sua transformação desordenada enquanto reconhecem este caos também inerente à natureza de seu ecossistema manguezal. Assim a Manguetown ressurge eterna porque em perene modificação como a cidade dos alquimistas.Quem apreende as imagens da alquimia e olha para a Manguetown percebe a serpente Ouroboros emergindo. Diante desta cobra que morre e renasce mordendo a própria cauda, é possível compreender significados desse grupo de amigos que encontra na transformação da metrópole uma de suas estratégias para uma vida plena de significado.

Espaços-filigrana. imagens da Cidade do Recife construídas através da literatura e pensadores locais nas décadas de 50 e 60.
Lúcia Falcão
Mestre em antropologia e doutoranda em história na UFPE

Este trabalho pretende refletir sobre a repercussão do fenômeno da vivência urbana na cidade do Recife - na sua complexidade, como cidade "imaginada" nas representações que dela se faz na literatura e nas descrições dos pensadores locais. Visitar a cidade através dos seus mitos, emblemas, símbolos, metáforas e dos seus personagens, nos permite especular, nas imbricações da cidade real/cidade imaginária/cidade ideal, as dúvidas, respostas e anseios dos seus narradores. A narrativa literária ou a narrativa que tem como base as descrições e memórias dos pensadores locais dão-nos acesso ao universo simbólico da cidade do Recife, onde o símbolo pode revelar-se como um caminho possível de comunicar os mistérios que a palavra não consegue transmitir na sua linearidade. Essas imagens desnudam um espaço poético tipicamente recifense, geram memória e guiam condutas, sendo fundamentais na construção dos processos de identificação ou identidade da cidade e seus moradores.

Nas malhas do virtual: o Shopping Center
Tereza Cristina Simis
Arquiteta, Professora de Planejamento Arquitetônico da FAUPE

Trata-se de um ensaio de imagística etnográfica do Shopping Center, como lugar que estabelece relações de sociabilidade, identidade e memória. Possibilita, no primeiro momento, um entendimento das velozes mudanças cada vez mais freqüentes na incorporações de novos valores, e assumem importância fundamental na configuração urbana da contemporaneidade. No segundo momento, procura-se evidenciar através da morfologia física-espacial, a qualidade panóptica dos espaços de convivência e de socialização, os níveis de conectabilidade e integração dos fluxos de integração, entre outros aspectos, tais como o recobrimento de camadas de significação dos seus diversos espaços, bem como a sua influência no estímulo para o consumo.

De um lugar a um não-lugar: o aeroporto?
Melânia Forest
Arquiteta, Professora da FAUPE e ESUDA.

Pretende-se entender e interpretar o aeroporto como um não-lugar, segundo a perspectiva sugerida por Marc Augé, isto é, aqueles espaços que não propiciam e nem geram historicidade, liames de sociabilidades, identidades nem enraizamento. Visto dessa perspectiva, o aeroporto pode ser também representado como uma espécie de acampamento nômade onde os indivíduos se encontram em constante trânsito sem que lhes sejam permitido algum tipo de registro mais prolongado de suas passagens. A apresentação deste ensaio etnográfico será ilustrado por uma série de imagens em que se procura apreender e captar cenas da cultura viajante, itinerante, em que cada indivíduo torna-se apenas mais uma peça integrante da efeméride, marca indelével da contemporaneidade.

O elevador e o corredor: uma ponte para o contato?
Andiara Valentina de Freitas e Lopes
Arquiteta, mestranda no PPG-Antropologia da UFPE

A partir de um estudo sobre relações de vizinhança em um condomínio de apartamentos de classe média, na cidade do Recife, foram desenvolvidas algumas reflexões que versam sobre o espaço do apartamento, mais especificamente, sobre o elevador e o corredor. Partindo do pressuposto que são, ambos, novos espaços gerados pelo apartamento, onde se instauram novos tipos de sociabilidade. Enquanto que na casa (residencial unifamiliar) todo o espaço do "entre-muros" é de propriedade privada e exclusiva do proprietário da casa, no edifício de apartamentos, apenas as unidades de apartamentos pertencem, de forma privativa e exclusiva, ao seu proprietário. Todas as outras áreas (estacionamentos, parque, escadas, elevadores, corredores, etc) são de propriedade e uso comum a todos os moradores. A meu ver, dentro da classificação dos espaços comuns, o elevador, o corredor e a escada possuem uma diferenciação a mais, porque além de espaços comuns, são espaços de transição. Por sua vez, as relações sociais estabelecidas nesses espaços sofrem, acredito, uma forte influência dessa transitoriedade. Nesse último aspecto, o elevador e o corredor, podem ser vistos como espaços capazes de fazer uma "ponte" para o contato entre vizinhos. É bem verdade que a natureza desse contato é ambígua. Isso porque, se por um lado esses novos elementos possibilitam a aproximação entre as pessoas; por outro lado proporcionam contatos efêmeros, com pouca duração.


O Portão - Entre a Casa e Rua. Lógicas de sociabilidade juvenil e modos de organização e representação do espaço.
Monica Franch
Mestranda em antropologia UFPE

Como outrora as janelas, o portão e o terraço propiciam a sensação de fuga e evasão sem que para isto o indivíduo precise penetrar no universo exterior da rua. É nesses "lugares" e "entre-lugares" que se realiza grande parte dos encontros cotidianos juvenis, revelando dinâmicas intergeracionais e intrageracionais. Este ensaio etnográfico busca entender e interpretar algumas dinâmicas possíveis a partir da apreensão de suas articulações com o espaço doméstico e transacional que liga a casa e a rua.

A cidade, a calçada e o ponto: lugar ou entre-lugar do travesti?
Maria Cecília Patrício
Mestranda em Antropologia na UFPE

O olhar do travesti na cidade, a sua localização espacial, é mediador entre público e privado, intervalo no tempo e no vácuo, no trânsito de pedestres, espaço de "batalha" de muitos e diversos. O cruzar de uma rua, ponto de passagem, trottoir; presença passageira, ritualizada e imbricada de códigos e intenções que permeiam um mundo construído num lugar-intervalo: um entre-lugar? A experiência dos travestis marca um conflito pelo lugar não só representado espacialmente como também subjetivamente, reelaborado a cada dia: "cada qual na sua esquina". Este ensaio se propõe a apreender esses personagens urbanos enquanto habitantes de um espaço: a rua. Como se constróem e se instalam, tornando seu este "pedaço" que se configura em pequenos metros quadrados da cidade.

Na noite, nem todos os gatos são pardos. O mundo mix em Belém visto através da Cidade
Gysele Amanajás Soares
Profa. da Universidade Federal do Pará

Trata-se de um estudo de caso sobre os "espaços mix" enquanto espaços pós-modernos. O enfoque são as boates mix, com análise específica da boate Mystical Teatro Dancing Pub, buscando resgatar seu processo de formação em Belém e reconstruir a trajetória desses "lugares"na cidade. Nesta perspectiva, procuro mostrar que esses "lugares"se constituem em leituras regionais de um padrão global sugerido pelo contato com culturas globalizantes enquanto reelaborações das formas tradicionais de vivência do lazer noturno de Belém, o que projeta uma imagem alternativa àquela da cidade exclusivamente tradicional, proporcionando a eclosão da multiculturalidade no espaço urbano.

O Entre-lugar dos Deuses
Jomard Muniz de Britto
Prof. Emérito da Universidade Federal da Paraíba, escritor, comunicador, produtor de multimeios.

Apresentação de vídeo quase performático ambientado num dia de finados, no Cemitério de Santo Amaro, no Recife, em que se confrontam a poeticidade do lugar, dos Outros Orfeus e os cem anos do cinema.

DIA 27 de OUTUBRO de 2000

GT Cidades: Lugares, Não-lugares, Entre-lugares...

SESSÃO 4:
Horário: 14:30 às 17:30
Local: Auditório do CFCH (UFPE)

A Biblioteca de Babel: uma Arquitetura da Ficção
Germana Zaicaner
Arquiteta, mestranda no PPG-Antropologia da UFPE

"A BIBLIOTECA DE BABEL", do escritor argentino Jorge Luis Borges, enveredando em universo onírico, sugere diversas interpretações para os espaços, metáforas, figuras e mitos de uma biblioteca que possui todos os livros possíveis, e que pode ser entendida como a figuração da cidade e do universo do saber infinito. A Biblioteca Cidade de Babel reinterpreta o conceito e especula o sentido de biblioteca, enquanto agência social, mediante a utilização interdisciplinar de dados concretos e reais assomados aos dados de um universo fictício e literário, dialogando com o espaço abstrato 'construído' por Borges. A opção em não seguir como condicionante projetual as amarras da elaboração do real, como exigências de ordem técnica e construtiva; permitiu o mergulho nos limites dos valores simbólicos como princípio de projeto. A exeqüibilidade da resolução projetual não se comporta como dado definitivo, a construção do sentido é o enfoque principal. A BIBLIOTECA DE BABEL, como a Cidade Virtual da Informação, utiliza a tecnologia como veículo para a viabilização das fantasias borgianas do não-lugar do infinito e do entre-lugar da globalização. A Cidade de Babel intencionalmente especula sobre potencialidades reais, enfatizando o confronto do mundo real com o universo da ficção, seja esta científica ou literária.

A cidade, a lisura e a estria. O Entre-lugar na perspectiva de Gilles Deleuze
Ana Escurra, psicanalista e mestranda em antropologia na UFPE
Ana Schwartz, mestranda em antropologia na UFPE

São nas superfícies, superfícies dos corpos, que se elaboram os sentidos, ao longo de uma linha de fronteira entre ordens de coisas diferentes. Segundo a perspectiva deleuziana a primeira evidência esquizofrênica é que a superfície exploda já que o mais fundo é a pele. Os acontecimentos não ocupam a superfície, aparecem nela, assinalam o Entre. Nessa perspectiva, a ciência deveria cada vez mais se tornar um espaço "liso" em contraposição ao espaço estriado, cujo exemplo é a malha da cidade.

A cidade e suas margens. A linguagem como Entre-lugar em Jacques Derrida
Carlos Eduardo Japiassu
Jornalista, mestrando em teoria da literatura UFPE

Segundo a perspectiva desconstrucionista de J. Derrida, pretende-se desenvolver uma abordagem da linguagem não como signo identitário-representativo de lugar, mas como fulgor fugidio, passagem luminosa da relação homem-mundo.

"Lugares de Memória"- incursões mitopoéticas por um bairro do Recife
Maria do Carmo C. Duarte
Psicóloga, Pesquisadora

Ensaio mitopoético de um bairro do Recife, Casa Forte, reputado por seu bucolismo. O foco de interesse incide nas representações oriundas de cartões postais, fotos, registros iconográficos e memória de velhos habitantes do bairro. Pretende-se observar as marcas do tempo em suas ruas e avenidas, em seu casario, que pouco a pouco é substituído pela verticalidade, restringindo cada vez mais a horizontalidade, signo espacial de outrora. Como lidar com a ausência do antigo? E com a eternidade desse novo que se transmuda sempre, numa juventude ao mesmo tempo diabolicamente eterna e decrépita?

Memória das praças: o imaginário em Currais Novos/RN.
Katiane F. Nóbrega.
Mestrado em Antropologia Cultural/UFPE.

Partindo da relação entre memória e imaginário, apresentam-se os resultados de uma investigação realizada a partir da experiência da autora como moradora e freqüentadora das Praças Cristo Rei e Des. Tomaz Salustino da Cidade de Currais Novos/RN no período de 1980 a 1990, e do olhar distanciado e amadurecido pela prática científica, no período de 1998 a 1999. Captam-se os mitos diretores (tais como o mito do progresso e o mito da idade de ouro, próprios do auge da extração e produção de scheelita período que se estende de 1943 a 1958) explorando o imaginário através do teste AT-10 sob a égide da Teoria Geral do Imaginário proposta por Gilbert Durand em Les structures anthropologuiques de l'imaginaire. Mostra-se como permanecem os elementos da memória nos dias atuais dessa cidade, investigando a existência de locais e hábitos caracterizados como de "ricos" e de "pobres" na sua estrutura urbana e social. A repetição (reconstrução) de costumes caracterizados de "ricos" e de "pobres" pelas pessoas que freqüentam essas praças tem a ver com a extração e produção da scheelita fenômeno denominado simbolismo da scheelita.

Recife não é uma aldeia: imaginário, cotidiano e modernidade na década de 30 em Pernambuco
Maria Das Graças Andrade Ataíde De Almeida
Profa. Dra. do Departamento de História da UFRPE

Durante o Estado Novo, no autoritarismo varguista (1937-1945), o uso do espaço urbano do Recife, sofreu transformações, as quais tinham como fio condutor transformar o espaço recifense em moderno, deixando para trás o provincialismo e tudo aquilo que simbolizasse atraso. Estas transformações atingiam o cotidiano da população recifense, objetivando imprimir novos costumes, em que emergiam categorias de progresso e modernidade. Na tentativa de apontar as "heresias" a serem extirpadas, o Estado elegeu os marginalizados desta sociedade, delimitou fronteiras no espaço urbano, apontando os que não deveriam compartilhar deste espaço. Ao disciplinar os espaços urbanos, o Estado criou fronteiras, instituindo identidades e cidadanias à sociedade civil. Há uma circularidade de discursos que rechaçam a expressão " Recife não é uma aldeia", e em contraponto constroe-se no imaginário coletivo os parâmetros de modernidade que levariam Recife a se tornar semelhante ao Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo deste trabalho é desconstruir esta produção de discursos, procurando entender as formas de produção e suas significações, o que permitirá um olhar para a cidade do Recife, procurando interpretar as diferentes formas de representações que compõem o imaginário social, responsável, em parte, pela tentativa de transformar aquele cotidiano urbano, apontado como atrasado e retrógado, em um novo cotidiano eleito como expoente máximo da modernidade.

A sedução da civilidade: o imaginário do mundo urbano e rural na obra literária de Inglês de Sousa
Mauro Vianna Barreto
Professor do Depto. de Antropologia da Universidade Federal do Pará.

Este trabalho pretende tecer algumas considerações sobre as imagens e representações a respeito do urbano e rural na obra do escritor realista-naturalista Inglês de Sousa. Mesmo uma leitura superficial de sua obra revela que a ideologia da civilidade é um tema que está presente em todos os seus romances e contos. Em seus livros pode-se perceber que no imaginário dos habitantes dos vilarejos amazônicos da segunda metade do século XIX existia uma espécie de escala ou hierarquia de civilidade: os habitantes da capital do Pará eram considerados, e se consideravam, superiores - em modos, educação e cultura a todos os interioranos em geral, enquanto que as cidades da hiterlândia rivalizavam entre si para saber qual era a mais adiantada. Esse tipo de mentalidade era uma decorrência da ideologia da civilidade que se consolidava na Amazônia após a introdução da navegação a vapor. A civilidade, ao enfatizar as vantagens e a superioridade do modo de vida citadino, não somente diferenciava a cidade e o campo, mas sobretudo valorizava o ambiente urbano em detrimento do que considerava a rudeza da vida sertaneja. Estabeleceu-se então, ao mesmo no nível cultural, uma dialética dos contrários separando o citadino e o rural, o morador da cidade e o matuto.

Cidade do Madeira: uma estrada a ser percorrida
Adilson Siqueira de Andrade
Prof. da Universidade Federal de Rondônia e mestrando em antropologia da UFPE.

As cidades amazônicas foram formadas em seu primeiro momento sobre as margens dos rios, a fim de atender os objetivos econômicos ligados ao extrativisno vegetal e mineral. Issso não acontece em Porto Velho, pois esta surge a partir da construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, representando o maior referencial da modernidade na selva. Nos interessa demonstrar o tipo de mentalidade que foi trazida pelos emigrantes que vieram para trabalhar na construção da estrada, deixando impresso suas marcas culturais na paisagem da cidade.

Cidade e violência: elementos para o debate acerca da cidade perigosa
Eda Maria Góes
Profa. Dra. do departamento de História da Universidade Estadual Paulista
(UNESP).

Uma nova concepção de cidade se impõe no Brasil a partir dos primórdios da República, instaurando o chamado "urbanismo modernista segregador" e inserindo a questão urbana entre as preocupações nacionais. Um elemento complicador dessa problemática surgiu em São Paulo no final da década de 1970, quando as questões da violência e da criminalidade passaram a merecer atenção especial, sempre associadas ao espaço urbano. Apoiada em teorias sociológicas, tal associação definitiva toma a forma do problemático conceito de violência urbana. O Brasil atravessa então um longo período de superação do Regime Militar, durante o qual novos atores sociais começaram a manifestar-se, inclusive de forma violenta, como ocorreu nos quebra-quebra e saques do início dos anos 80, em São Paulo. Neste trabalho, procura-se avaliar o papel desempenhado pelos saques e quebra-quebras de 1983, representados pela grande imprensa e pelas autoridades enquanto comprovadores do perigo que a população pobre, habitante da periferia e das favelas, continuariam a representar à atual ordem urbana dominante.

Ícones de uma cidade em expansão
Valéria Cristina Pereira
membro do Grupo Acadêmico Produção do Espaço e Redefinições Regionais e da UNESP.

O presente trabalho tem por objetivo atingir o imaginário da cidade de Presidente Prudente, buscando entender sua memória e as representações sociais responsáveis pela formação de sua identidade.A partir do resgate histórico, tendo como principal fonte fotografias antigas, é que nos propomos a realizar uma análise iconológica e iconográfica de tais fontes, decifrando suas várias facetas e destacando o imaginário social presente nestas imagens.

O imaginário do passado e o elo com o presente no universo da produção cultural do povo da rua de jangada
Luciana Maria da Silva
Diretora da Escola Municipal Novo Pina, Brasília Teimosa, Recife, PE.

Através da reconstituição da memória de velhos procuro buscar nas comunidades de Brasília Teimosa, Pina, São José e Afogados, elementos que me permitam recuperar a história da antiga rua de jangada. Essa rua encontra-se vinculada ao cotidiano de pescadores. Através de imagens captadas em vídeo, misturando documentário e ficção, pretendo reaprender e ensinar a história da cidade do Recife na comunidade de Brasília Teimosa e em outras comunidades similares.

 
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